Terça, 25 de Junho de 2024 10:00
editor-sênior, jornalista Mhario Lincoln
Cultura Colunistas

Exclusivo: do livro "Soco no Muro" do poeta Raimundo Fontenele

Raimundo Fontenele é colaborador da Plataforma do Facetubes, poeta, escritor com vários livros publicados.

15/05/2024 16h36
Por: Mhario Lincoln Fonte: Raimundo Fontenele
Raimundo Fontenele
Raimundo Fontenele

Ilustrações: Mhario LIncolm comAI.

 

       "Estes escritos pertencem a um livro em gestação com o título SOCO NO MURO e subtítulo Ensaios de Filosofia e Arte. Os textos ora publicados aqui no Facetubes, graças à generosidade do espaço que me é cedido pelo ilustre amigo Mhario Lincoln, são partes do Capítulo Um - Pequenas Fábulas Fontenelianas", poeta e escritor Raimundo Fontenele.

 

O Rei.

AS SECRETAS RAZÕES DA LOUCURA

Havia um Reino Encantado, num lugar de todos desconhecido, cujo Rei era um louco.

Seus editos, determinações e leis eram frutos de pequenos e esparsos momentos em que lhe sobrevinha a sanidade – diziam.

Nenhuma lei era injusta. Nenhuma determinação era contrária a qualquer lei da natureza ou dos homens. E os editos agradavam a súditos e vassalos, religiosos e militares, artesãos e comerciantes, nobres e plebeus, ricos e pobres.

Era um Reino feliz onde todos eram felizes.

O que ninguém sabia, e jamais poderia sequer imaginar, era que leis, editos, decretos e determinações, embora fossem promulgados naqueles instantes em que a razão dominava, eram todos concebidos, pensados, criados exatamente durante os momentos de total insanidade e loucura.  

 

 

O Peregrino.

NUVENS ESCURAS TOLDARAM O CÉU

Numa radiante manhã de sol, o viajante e peregrino seguia por uma estrada florida e perfumada.

Podia ouvir, mesmo que fosse ao longe, o cantar mavioso de algum pássaro, o sussurrar das águas de um riacho, pelo qual passou com o coração cheio de doçura e encantamento, e os silvos de folhas nas árvores trazidos pelo vento.

Caminhava contrito e alegre: seu cajado era sua única arma, com a qual enfrentaria alguma fera que aparecesse repentinamente a sua frente, e levava também seu farnel composto de algumas frutas, mel e fatias de pão integral.

 Enquanto andava, seu passado, em forma de lembranças, emergiu de dentro de si trazendo-lhe preocupação e desassossego. A estrada ficava cada vez mais estreita, parecia-lhe que o céu escurecia e que logo uma tempestade o alcançaria. E até murmurou em voz baixa para si mesmo:

          – Nuvens escuras toldam o meu céu...

Mas não havia nuvens, muito menos escuras. Ao olhar novamente para o céu, e para fora de si, a manhã continuava radiante e alegre e o sol brilhava em todo o seu esplendor.

E soube: aquelas nuvens escuras eram apenas os seus pensamentos.

 

O 'eu" dos 'eus".

OLHANDO ALÉM DAS APARÊNCIAS

Ao sentir que o peso dos anos lhe curvava a espinha e que o seu tempo de provações na terra se esgotava, o homem subiu a montanha.

Procurava no alto daquele monte uma espécie de sábio e vidente que ali habitava. Era, como se diz, um perito, um especialista em desvendar o ser humano, mesmo que este procurasse guardar, da forma mais secreta, certo segredos.

Procuravam-no todo tipo de pessoas: ricos, pobres, gordos, magricelas, angustiados, confiantes, humildes, orgulhosos, desesperados e esperançosos. Mas todos com um único objetivo: ouvirem o veredito a respeito de si mesmos e qual destino teriam, após serem carregados pelos braços da morte, para o lado invisível do mundo e das coisas.

Seu método era simples e seguro. Não fazia perguntas. Apenas olhava fixamente, por alguns segundos, o visitante para ver se este baixava ou desviava o olhar do seu, ou se permanecia também olhando-o firmemente.

O dom especial do vidente é que aquele que o consultava via-se a si mesmo no olhar do sábio, e passava a se reconhecer como realmente era por dentro, sem máscaras ou fingimento.

Pois, sentenciava o eremita do alto da montanha: “nem todos se reconhecem ao olharem-se no seu espelho interior”.

 

O bom.

O HOMEM QUE QUERIA SER BOM

Quando Malencastro atingiu setenta anos abandonou tudo que tivera até então, esposa, filhos, emprego, teres e haveres, e com o único objetivo de tornar-se um homem ou bom, ou sábio, ou seja reles peregrino, caiu na estrada.

Vagava de cidade em cidade e de vilarejo em vilarejo numa espécie de peregrinação quase religiosa, efetuando pequenos trabalhos para custear o seu minguado pão de cada dia, suficiente para manter-se vivo e alimentar seu sonho e sua procura.

As palavras de um certo profeta ecoavam no seu cérebro e em todo o seu ser, quando recolhia-se em um abrigo para uma noite de sono: "O meu reino não é deste mundo".

         Quanto mais meditava nessas e em outras palavras do profeta, mais sentia que a sua natureza humana se transformava, como se sua alma ganhasse uma nova pele.

Pelo meio dia de um dia abafado e úmido deitou-se à sombra de uma frondosa jabuticabeira para descansar e mergulhou num sono profundo.

Ao acordar, no meio da tarde, suado e aflito com pedaços de um sonho agourento martelando-lhe a memória, de repente observou algo escrito no chão, um pouco abaixo dos seus pés.

"Algum transeunte rabiscou com um graveto qualquer", pensou e leu o que estava escrito:

      – Ninguém é bom quando abandona o seu próprio eu.

 

7 comentários
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JaimeHá 1 mês BSB/DFPPublicaçãomito enriquecedora !!!
Raimundo FonteneleHá 1 mês Barra do Corda Maranhão Todos os comentários tem algum ponto em comum e juntando-se os fios está tecido um pano de fundo do que é o meu trabalho e a incessante busca pela originalidade. Um soco contra o muro, é este mesmo que renomeei para Soco no Muro. E esses textos iniciam o livro. Esopo? Quem me dera poder amarrar-lhe os sapatos. kkkk Agradeço a leitura e os comentários, meus amigos.
Lilian FragaHá 1 mês RioMuito bom poeta.
Poeta Marcio BritoHá 1 mês Brasília DF Fontenele. Eu li na coluna de Carvalho Junior uma matéria sobre Soco no Muro, entre suas obras. Chegada Temporal, Pelos Caminhos Pelos Cabelos, Venenos, A Colheita do Mundo, O Troglodita, De Cara Suja, Crônicas do Pucumã e A Via Crucis de um Poeta sem Nome. Tem inéditos Pedaços de Alberto Caronte (contos), Diurnidade (poesia), Caixa de Sonetos, São Domingos Revisitada e Um Soco Contra o Muro (ensaios de filosofia e arte).É essa matéria publicada?
Salarial Fontenele Há 1 mês Açailandia MaSe não estou enganado, Fontenele, Fernando Braga no artigo DEZ POETAS O SIMBOLISMO E O POETA MARANHÃO SOBRINHO, fala nesse Soco no Muro. Esclareça Fontenele.
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