
Mhario Lincoln
Neste 2024, acontece o Centenário de meu ex-professor Domingos Vieira Filho. Ainda tive esse privilégio de assistir aulas com ele.
E dele ganhei um livro que, desde então, tem-me servido de bússola em minhas ardentes e contínuas dúvidas pertinentes à linguagem-raiz de minhas origens: "A Linguagem Popular do Maranhão". Sem dúvida, uma fonte inestimável de aprendizado da linguagem-chão, original.
Quando se fala a linguagem raiz do meu local de nascimento, integro-me ao meu verdadeiro dialeto, fato que me transporta para além do português-pátria.
Por isso, entender esse contexto também inclui a minha própria história diante da cultura da minha região. E isso sempre foi fundamental, inclusive, para buscar ainda mais aprender os fundamentos de uma humildade latente, em cada pronúncia, em cada compreensão de termos, só mesmo usados na minha melodia.
E como me ajudou a compreender as referências e a importância da linguagem utilizada em minha Ilha, à essa altura, pouco importando se 'Athenas' ou apenas brasileira. Essa foi a grande oportunidade, através do livro do meu professor Domingos Vieira Filho, de analisar as características linguísticas específicas do dialeto em que fui criado. Mesmo deixando de lado (por pura preguiça minha, diga-se de passagem), o aprofundamente da fonética, morfologia, sintaxe e semântica.
Coube-me, por outro lado, ao me embrenhar nessa floresta desconhecida (até então) da minha língua-mãe, observar como a linguagem influencia a temática e a narrativa, além do 'status quo', a fim de enriquecer a autenticar a profundidade do uso da existencialidade, naquele específico momento da vida.
Quando a palavra - xiri - deixa de ser pernóstica para ganhar o lirismo de Josué Montello
Claro que também há aquele impacto significativo quando, vez por outra, escapa alguns termos regionais, em uma conversa adulta. Exemplo rápido: a palavra 'xiri'.
Mas foi lendo "A Linguagem Popular do Maranhão", a razão para descriminalizar esse termo regional. Num dos verbetes sobre essa palavras específica - xiri - algo com cheiro de lirismo me ajudou nessa descriminalização:
XIRI: sexo da mulher. Abon. "(...) as mulatas de Alcântara esperavam sempre um companheiro, de corpo limpo, seios firmes, xiri cheirando a sabonete". (Josué Montello, "A noite sobre Alcântara", 296).
Que maravilha. Poetisar, como só Josué sabe, algo que, em muitos casos, era gerido como escánio, ato delituoso, vergonha absurda, preconceito ou pornografia. Haja Montello e Domingos, sempre!
********
Abaixo, aproveito e reproduzo om pensamento introdutório do autor de "A Linguagem Popular do Maranhão". Ipsis litteris:
AO LEITOR
Fazer uma 3.ª edição de um livro como este é uma espécie de África.
Mas aí está, depois de estampada a 2ª edição em 1958, numa tiragem totalmente esgotada.
Revisto em alguns lapsos, corrigido em muitos pontos, graças aos conselhos e à experiência erudita do meu amigo Oswaldo Freitas, enriquecido com novos verbetes, "A Linguagem Popular do Maranhão" sai agora em nova roupagem gráfica mas guardando, na essência, o mesmo princípio das edições anteriores: um simples mas honesto documentário sobre a linguagem coloquial do Maranhão, sem pretensões lingüísticas maiores, sem complicações transcendentais num campo que cada dia se torna mais exotérico...
E simples como a fonte de onde promanou: o povo, rude, desataviado mas sincero e lógico a mais não poder.
E se ouvir o povo é curso universitário, como sentenciou Luis da Câmara Cascudo, dou-me por recompensado das lutas e canseiras desta nova edição.
Domingos Vieira Filho
CITAÇÕES
"... do povo, sutil urdidor dos mistérios da língua".
Aires da Mata Machado Filho
"Em busca do termo próprio".
"Não a reles, a safada lingua culta, entisicada por nós nas sensualidades solitárias da retórica, nos tratos vergonhosos da escrita contra a
Natureza, mas a rija, a plebéia, a forte e expressiva língua do povo, sonora de toque como a prata de lei, áspera nas serrilhas, como a moeda nova saída fresca e virginal do cunho".
Ramalho Ortigão "A Holanda", 123
"...são fatos da gramática e do estilo do povo, que têm também as suas leis e regras, tão respeitáveis e respeitados como as nossas".
Agostinho de Campos. "Trancoso", XXXVI.
"Ouvir o Povo é curso universitário...".
Luis da Câmara Cascudo
"Locuções Tradicionais no Brasil", 2.ª ed. - 25.
PREFÁCIO DA 1.ª EDIÇÃO
O presente trabalho não pretende ser mais do que modesta contribuição ao estudo das variações regionais da linguagem popular do Brasil.
O que nos levou a encetá-lo foi a necessidade de fixar, para o futuro, certos detalhes da curiosa lingua falada cotidianamente entre nós e que é inconscientemente moldada pelo povo. Michel Bréal escreveu: "Cen'est donc pas seulement à l'origine des races qu'il faut placer la création des idiomes: nous les créons à tout moment, car tous les chagements qui les affectent son notre oeuvre". Isto é, obra do povo.
Que essa lingua, como a erudita, evolui espantosamente, ao sabor de certas disposições psicológicas, temporárias ou não, é fato que não padece a menor dúvida. Muitos dos termos arrolados neste vocabulário estão, hoje, nos dicionários, com as honras de cidadania na lingua portuguesa do Brasil. Muitos há, entretanto, que só tem curso aqui e de tal modo se acham integrados no linguajar corrente que não há como evitá-los ou subsbtituí-los por outros, de feição mais erudita. É o caso de bregueço, para só citarmos um, voz que no Maranhão significa quinquilharia, traste, coisa sem préstimo.
Nos diversos vocabulários que perlustramos todos vão indicados no texto, não encontramos o registro desse termo tão comum ao falar de nossa gente. Na Bahia, com o mesmo sentido, conhecem abregueces, o que pode ser uma variante. Não nos animou, na feitura deste trabalho, nenhum propósito filológico. E nos pareceu indispensável mencionar dezenas de termos chulos que, não obstante esse caráter, são largamente empregados não somente na conversa de gente inculta e humilde mas, igualmente, no falar de pessoas instruídas.
A esse respeito vale, aqui, a declaração do professor Antenor Nascentes, no Prefácio de A Giria Brasileira: "(...) De vez em quando aparecem termos mais ou menos crespos.
"Não os inventei.
Em ciência e arte não há imoralidades. "Naturalia
non sunt turpia".
Em trabalhos como este a abonação dos termos indicados é uma necessidade imperiosa porque resguarda a honestidade do coletor. Infelizmente não nos foi possível conseguir abono para todas as palavras arroladas. Ficariamos eternamente agradecidos se pessoas conhecedoras do assunto e nele interessadas nos enviassem suas sugestões, emendas e novas contribuições. Trabalho assim é para um muxirão ruidoso. Sem cachaça, é verdade...
Domingos Vieira Filho
Mín. 13° Máx. 20°