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Mhario Lincoln escreve um tributo a sua Ilha de nascimento: “Minha São Luís Marciana”

Mhario Lincoln é editor-sênior da Plataforma do Facetubes e presidente da Academia Poética Brasileira.

16/10/2024 às 09h48 Atualizada em 16/10/2024 às 10h29
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln
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Cr´pedito: Meurelles Jr.
Cr´pedito: Meurelles Jr.

MINHA SÃO LUÍS MARCIANA.

*Mhario Lincoln

 

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Nas profundezas da caverna de Platão, suscito memórias da serpente encantada, onde sombras imperceptíveis, dançam como verdades absolutas. Meu rastejar transformou minha alma inocente, em um rinoceronte de vidro, diante da travessia insana das águas do Boqueirão, nas chuvas de abril. Mesmo assim, Ó glorioso Santo Antonio, minha alma anseia por São Luís e rasteja nessa terra de lendas e murmúrios ludovicenses.

 

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Porque ainda ouço os tambores do bairro da Liberdade, do Beco das Minas, do arrastar das sandálias de Jorge da Fé em Deus, no grosso ladrilho português do terreiro. O som limado ressoa como o próprio pulsar do coração da ilha, nas madrugadas de verão a pino, incorporando orixás, através da ‘orin’ compassada, entre o ontem e o hoje.

 

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E quando aumenta a briga por espaço entre a nuvem chuvosa e o clarão lunar, aparecem silhuetas da serpente encantada de d'antes, agora, por sob a Fonte do Ribeirão. Ela desliza silenciosa pelas minhas únicas memórias e me amarra com ‘nós’ de marinheiros, perdidos na escuridão da noite ufológica da Ilha dos Caranguejos, sob o riso abusivo das ladeiras-pedregulhas, ensopadas pelo limo verde, musgo de antanho.

 

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E os poetas continuam cruzando romanticamente com os paralelepípedos; esses, sangraram sob os pés dos escravos, porque a tradição imperiosa molda o modo de vida, sempre exigente, como o mar que invade a cidade com o cheiro salobro da Princesa Ina e seus vassalos, verdadeiros feromônios do prazer, embutidos nas lendas da tarde noite, no Cais da Sagração.

 

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Ainda bem que vivi intensamente a Praça dos Amores. Lá fui testemunha inconteste do florescer da poesia inocente, sob a lua fogosa, espraiando-se por sobre o Rio Anil, murmurante e ansioso por fazer espumas de gozo. Lá, também, grandes poetas sentaram inertes e como ‘voyeur’, assistiram ao pedido de casamento da lucidez com a traição. Aliás, quantas vezes a lua se tornou amante dos poetas?

 

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Depois, meus olhos subiram a rua dos Remédios e desceram pela rua do Sol. Desembocaram silenciosos ao lado de João Lisboa, que imediatamente tornou-o arauto do infindável amor da Ilha pelos versos da brisa noturna. Lá à frente, os bondes sob trilhos barulhentos de ligas de aço, acendiam fagulhas para maestrar harmonicamente atos nupciais de sabiás e naufrágios, com misturas aleatórias das serenatas e de coros serpentários do Coral São João.

 

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Mas, fez-se silêncio a madrugada empírica para guardar segredos da boemia, espargidos pela da Rua 28 de Julho. Consequentemente, São Luís começou a viver insônias poéticas, gritando dores pela voz de Nauro Machado, protestando alhures com Carlos Cunha, metamorfoseando-se nas palavras de Erasmo Dias, ressuscitando modernismo com o equinócio de Augusto Cassas somando-se ao réquiem para os mortos-vivos de Raimundo Fontenele. Resultados, talvez, do milagre de Guaxenduba, do cadafalso para Manoel Beckman: cicatrizes na alma da cidade perpetuamente sob o domínio febril e indomável de Ana Jansen.

 

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Sim! Existiu uma época de revoluções, como a Greve de 51, a da meia-passagem ou evoluções, como a musical do imensurável Chiquinho França e a efervescência autêntica da Madre Deus, que insistiram mudar a história. Wellington, Bucão, Godão: ecos que reverberam até hoje, para diminuir o luto da explosão do bólido "Maria Celeste". Da mesma forma, o urro do cantador Coxinho, rompeu o silêncio melódico do pesado batalhão, forçando livrar-se do umbral de ferro do Cemitério do Gavião.

 

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Ainda ouço, enfim, o desengasgo lúdico do padre Antônio Vieira, da tribuna antonina eterna, proclamando verdades que transcendem peixes e homens.

 

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Oh, São Luís, espelho das sombras e luzes da caverna, és a alegoria da minha existência, um costurar de saudades que habitam o labirinto do meu ser: este, nunca realmente revelado.

 

Vídeo-Bônus

 

Curitiba, 06.10.2024.

Mhario Lincoln é ludovicense.

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Raimundo FonteneleHá 2 anos Maranhão Muito bom meu poeta. E obrigado por citar-me.
Lindalva SeebraHá 2 anos São PauloSem dúvida, um dos maiores textos rigorosamente poéticos sobre São Luís. Parabéns, Mhario Lincoln.
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