
*Mhario Lincoln
Existem muitas cicatrizes dentro de mim
Nauza Luza Martins
Existem muitas cicatrizes dentro de mim, Rasgos profundos na alma, feridas abertas
Já tentei enterrá-las em esquecimento
Mas elas renascem como fênix da cinza
A menor faísca reacende a dor.
Um gatilho, uma lembrança, um som,
E me vejo afogada em um mar de sofrimento.
Cicatrizes, marcas indeléveis,
Que me acompanham por toda a vida.
Mas a esperança é uma luz que brilha,
E um dia eu serei livre.
A esperança, lua prateada,
Ilumina meu caminho, a cada noite.
As baladas antigas, melodias suaves,
Acalmam minha alma, ferida e cansada.
Meu refúgio, um porto seguro,
Onde encontro paz, em cada madrugada.
Em meu refúgio, um castelo de sonhos,
Construo um mundo livre de dor.
Entre livros e canções,
Encontro a força para seguir em frente.
Um dia, as feridas se curarão,
E eu serei mais forte, mais livre.
Até lá, seguirei buscando a luz,
Em cada canto do meu ser.
Quando leio poemas fortes de Nauza Luza Martins sinto dentro de mim algo que fervilha, porque os versos instigam a uma profunda reflexão sobre a solidão e a dor, no entretanto, me traz, de forma imediata, uma grande esperança em remodelar meus sentimentos pessoais.
Isso porque é exatamente através de imagens poderosas e metáforas evocativas, que a poética de Nauza (especificamente neste momento), me leva a explorar as minhas cicatrizes internas (e quem não as tem), que acompanham a todos nós, enquanto lá no fundo do cenário lírico, parece acender a luz da bonança, mecanismo fundamental para superar o sofrimento.
É incrível como a força de Nauza Luza reverbera em nosso entendimento, ao dedilhar com os olhos, casa verso, denso, mas essencialmente real. A realidade - essa como é colocada pela autora – me fez compreender a profundidade do sofrimento e, simultaneamente, a direção que deve ter esse tipo de mensagem, tipo um start inverso, objetivando reconquistar a felicidade, não só da poeta, mas do aflito leitor. Desta forma, ela se reafirmar como uma mulher vitoriosa e líder em suas atividades.
Claro e evidente que Nauza Luza tem total direito de expor todas as suas liberdades poéticas. E isso é muito bom. É como se o ficcional, no futuro, se tornasse realidade. Um toque mágico, sem dúvida.
Por isso, neste poema há grande significância dessa liberdade poética, mesmo sendo contundente: "Existem muitas cicatrizes dentro de mim, / Rasgos profundos na alma, feridas abertas". Aqui, Nauza utiliza metáforas corporais para representar dores emocionais profundas.
"Mas elas renascem como fênix da cinza / A menor faísca reacende a dor." Essa referência ao Fênix sugere um ciclo contínuo de renascimento da dor, enquanto poesia pura, cuja essência traduz-se na dificuldade em superar traumas passados, onde memórias podem ser desencadeadas por estímulos pueris.
A criação da autora é tão exuberante que ela mesma não deixa o verso vencer a sua intuição lógica. Logo em seguida ela versifica: "Mas a esperança é uma luz que brilha, / E um dia eu serei livre." Na mosca! A esperança, nesse caso explícito, é personificada como uma luz que guia a narradora em direção à libertação.
Eu realmente achei excelente esse contraponto pois leva o leito a passear entre a angustia, mas, em seguida, à formulação de algo que pode ser mudado mais na frente. Esse poema a mim me pareceu um romance muito bem costurado onde os sentimentos humanos se entrelaçam como exemplos e caminhos.
Em seguida, há um autocuidado em aplainar sentimentos negativos: "As baladas antigas, melodias suaves, / Acalmam minha alma, ferida e cansada." Ou seja, a
Arte sempre será um porto seguro, oferecendo conforto e permitindo que a narradora se reconecte-se consigo mesma.
E é essa visão de mundo pessoal e intransitivo, muito bem colocada a seguir: "Em meu refúgio, um castelo de sonhos, / Construindo um mundo livre de dor." Aqui, há a criação de um espaço mental seguro onde a dor não tem lugar e a imaginação sonhada é uma ferramenta poderosa para a superação e o fortalecimento pessoal.
Neste exato momento de minha análise abro um parêntese para chamar para a mesma mesa Jean-Paul Sartre, donde repito uma frase inexorável dele: “o homem está condenado a ser livre”. Ora, nem só o leitor, nem o resenhista, mas a poeta também se torna responsável por dar significado à própria vida; e consequentemente, atinge o mundo em sua volta, pois Nauza, quando escreve, tem o poder de redefinir seu caminho e encontrar a liberdade que almeja, favorecendo quem a lê.
Claro que lembrei também Sêneca neste poema épica: "A dificuldade vem de não sabermos usar com sabedoria o que nos acontece." Desta forma, quanto a autora usa sua liberdade poética para falar de suas cicatrizes e dores, ela o faz imediatamente calçando a ideia de que há forte possibilidade de tais ‘gatilhos’ se transformarem em força e sabedoria. É assim que vejo a escrita de Nauza Luza.
Aliás, como Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, que escreveu - “Poema em Linha Reta” -, onde expressa suas frustrações e angústias em relação à sociedade e a si mesmo, de suas falhas e a hipocrisia que observa ao seu redor. No entanto, encontra uma forma de resistência e autenticidade em meio a essas adversidades. Essa é a tônica de –“Existem muitas cicatrizes dentro de mim”, que ora analiso.
Por essa razão, reconheço a autenticidade dessas liberdades poéticas que atiçam um olho mal direcionado. Contudo, na profundidade do entendimento acadêmico, Nauza faz desses versos, palavras que refletem uma jornada profunda de autoconhecimento e resistência.
Cada cicatriz é um testemunho da sua capacidade de superar adversidades, com explícita capacidade de renascer, não para reviver a dor, mas para emergir mais forte e resiliente. Epicteto disse: "Não são as coisas que nos perturbam, mas a opinião que temos delas." Assim, ao redefinir a percepção de suas experiências, a autora, como num passe de mágica lírica, acaba por transformar o dor em aprendizado e a solidão em autodescoberta.
Aprendi muito lendo Nauza Luza Martins, APB/DF.
Obrigado, poeta e confreira!
..........................
*Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira.
Mín. 13° Máx. 20°