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Resenha. Convidado, Isaac Viana: " O Coração das Trevas"

"Coração das Trevas" (1899), do escritor inglês Joseph Conrad

12/10/2020 13h14 Atualizada há 2 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Isaac Viana
Livro:
Livro: "O Coração das Trevas"
Isaac Viana.

Resenhas: Por  Isaac Viana

"Coração das Trevas"

"Coração das Trevas" (1899), do escritor inglês Joseph Conrad, é a narrativa de uma narrativa. Por intermédio de outro narrador, também marinheiro, conta a história de Marlow narrando uma aventura a qual protagonizou e que marcou sua vida.

Embora tenha a premissa de ser uma aventura, o que, de fato, o é, a novela não é narrada da maneira típica como as aventuras o são - normalmente muito velozes; fluidas. Pelo contrário, a obra tem um ritmo um tanto lento e extremamente introspectivo, o que exige uma leitura mais atenta aos detalhes para sua melhor compreensão.

O enredo gira em torno da viagem de Marlow, funcionário de uma companhia, que extrai marfim no Congo, e que já tem um funcionário lá, Kurtz, do qual se fala muito bem, visto que muito produtivo em sua empreitada.

Ao longo de sua jornada, Marlow percebe que há um plano contra Kurtz, visto que, com sua tamanha produtividade, está alcançando patamares que outros da companhia desejam alcançar. Ele é um estorvo para os planos deles.

Diante disso, e dos vários relatos que passa a ouvir a respeito de Kurtz, Marlow começa a sentir um desejo irresistível de conhecê-lo, pois vê nele um homem diferente dos demais; com interesses mais nobres do que o poder pelo poder.

Ao conhecer Kurtz pessoalmente, Marlow se liga a ele de modo ainda mais intenso, mesmo sabendo que o homem idealizado, na verdade, se tornou um deus em meio aos "selvagens" e os manipula para que extraiam cada vez mais marfim e façam dele um homem cada vez mais rico.

Embora seja contraditório, visto que Marlow se horrorizava diante da barbárie que via os congoleses sofrerem por intermédio dos europeus, o marinheiro parece também ser seduzido pelo mistério que é Kurtz, homem de coração insondável e de propósitos inabaláveis, ainda que escusos.

Esse é um dos motivos pelos quais a obra é extremamente polêmica na atualidade.

Enquanto, para alguns, Conrad pretendia denunciar a barbárie que era a colonização dos africanos pelos europeus, para outros, o autor apenas maquiou o próprio racismo ao demonstrar compaixão pelos africanos, mas, ao mesmo tempo, ser complacente com a figura do colonizador - já que, ao que tudo indica, Marlow representa Conrad, que também foi marinheiro e teve uma experiência marcante no Congo anos antes de escrever a novela.

Na minha leitura, a denúncia à crueldade do imperialismo europeu é o que fala mais alto na obra. No mais, há um autor envolto por um mundo racista do qual tenta se libertar, embora ainda seja produto dele.

Acho que o horror e a admiração por quem o impetra, que conflitam no peito de Marlow, seja uma tentativa de Conrad nos dizer que as trevas habitam o coração humano de modo tão arraigado que parece impossível iluminá-lo. E ele está errado?

Marlow também representa a mim e a você, incomodados com o mal no mundo, mas nem por isso deixando de cometer erros, prejudicando outros, inclinados às nossas paixões, ainda que inconscientes delas.

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