Editoria de Cultura da Plataforma do Facetubes c/Mhario Lincoln e Orquídea Santos.
Pioneiros do Século XX
Conversar com Emílio Ayoub era como abrir, com delicadeza, um livro de poesia ainda úmido de madrugada. Entre uma frase e outra, ele deixava escapar versos, poemas, lampejos — como quem respira poesia sem esforço. Falava pouco, é verdade, mas observava muito. E tudo o que observava, cedo ou tarde, transbordava: nas páginas dos livros, nos muros da cidade, na alma de quem cruzava seu caminho.
Sim, Emílio Ayoub — era um poeta que, por décadas, bordou São Luís com palavras. Um artesão da delicadeza, que fez dos muros da "Ilha do Amor" uma espécie de altar cotidiano, acessível a todos: ao passageiro de ônibus, ao motorista apressado, ao ciclista, ao pedestre distraído, ao viajante de moto que mal percebe o vento. De forma intuitiva e quase profética, Emílio tornou-se um dos primeiros poetas visuais de São Luís. A cidade acordou, há décadas, com seus muros caiados transformados em lições breves, conselhos, otimismo, pequenas epifanias. Versos curtos, diretos, que anteciparam — sem saber — a lógica dos tweets, hoje "X": pensamentos que cabem no instante, mas que permanecem no coração.
Ele repetia, com a serenidade de quem sabe o que faz: “Os muros são enfeites da cidade.” E quando alguém perguntava o porquê de escrever neles, respondia com a simplicidade que só os sábios dominam: “Sou assim mesmo. Levar poesia para os muros foi uma forma de extravasar a poesia de dentro de mim.”
Sua obra dialoga com outros nomes que também levaram versos ao concreto urbano — como Sérgio Vaz, o poeta das ruas de São Paulo, que nos lembra: “As juras de amor não são mentiras, de maneira alguma! São verdades com prazo de validade...” E como o escocês Robert Montgomery, que transformou painéis publicitários em grandes poemas luminosos, impactando multidões. Esses, cada um à sua maneira, ecoaram o gesto pioneiro de Ayoub: democratizar o encantamento.
Bernardo Coelho de Almeida, poeta maranhense, certa vez disse que Emílio levava às ruas “o aprendizado poético tão necessário para viver eternamente”. E talvez seja essa a chave: Emílio escrevia para que a vida não se esquecesse de ser vida.
Nascido na década de 1930, reinventou-se como quem aprende a respirar de novo. Suas frases — ainda hoje espalhadas pela cidade — são convites para celebrar o presente, cultivar serenidade, desacelerar o passo. Quem atravessa São Luís, dos bairros centrais aos mais distantes, invariavelmente encontra suas letras grandes, firmes, desafiando a pressa e atiçando a curiosidade.
Por muito tempo, pintou seus versos em muros de propriedades próprias. Era prazer, era impulso, era missão. E quando o muro era reformado, ele voltava — pincel na mão — para reescrever tudo. Porque, para ele, “a poesia nunca deve morrer”.
Entre tantas frases, quatro parecem resumir sua alma:
“Todo instante é eterno quando vivido com emoção.”
“São belos os reflexos do sol, muito mais belos os reflexos do amor.”
“Tudo que é iniciado é dado sequência para sempre, nunca é apagado.”
“A vitalidade é o reflexo da alma; se a alma está bem, então o corpo está bem.”
Quem lê essas mensagens costuma sorrir — talvez porque, por um segundo, sente que a cidade o abraça. E que Emílio, silenciosamente, ainda conversa com cada um de nós.
Com mais de uma centena de livros publicados, jamais deu sinal de cansaço. Acreditava que a juventude da alma sustentaria sua criação até o fim. E assim foi: no dia 20 de janeiro de 2025, poucas horas após a partida de sua irmã querida, Lâmia Ayoub, ele também se despediu — como quem fecha um ciclo com delicadeza.
Dizia sempre: “Enquanto der, vou seguindo movido à poesia franca, que nasce de momentos simples: uma conversa, um pôr do sol, o olhar amável de um desconhecido.”
Nesse gesto espontâneo — e em tantos outros — revelava a raiz de sua obra: o desejo de compartilhar beleza, como quem sussurra ao mundo: “Viva e não adie o encantamento.”
Hoje, é impossível não imaginar Emílio Ayoub escrevendo versos de amor nos muros da esquina do paraíso — onde, certamente, o sol reflete ainda mais bonito.
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