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 “BREJAL DOS GUAJAS”: O LIVRO DE SARNEY E AS CRÍTICAS DE MILLÔR 

Edmilson Sanches é convidado da Plataforma Nacional do Facetubes.

31/03/2025 às 21h31 Atualizada em 31/03/2025 às 21h40
Por: Mhario Lincoln Fonte: Edmilson Sanches
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Fotos originais do texto.
Fotos originais do texto.

Edmilson Sanches


--- Das razões (que se conhece) das críticas ácidas a um dos livros do ex-presidente da República 
FOTOS: Os livros de Millôr Fernandes e José Sarney. Os presidentes Fernando Henrique Cardoso e José Sarney. Os escritores Barros Alves e Edmilson Sanches, na Academia Cearense de Letras (Fortaleza). 


*** 
Em grupo de bibliófilos no WhatsApp, perguntam-me: 
“Mestre @EDMILSON SANCHES, você conhece essa obra do Millôr Fernandes? Sabe alguma informação a respeito do motivo do azedume dos textos nela contidos?” 
A “obra do Millôr Fernandes” é o livro “Crítica da Razão Impura ou O Primado da Ignorância -- Sobre ‘Brejal dos Guajas’, de José Sarney, e ‘Dependência e Desenvolvimento na América Latina’, de Fernando Henrique Cardoso”. Esse livro do Millôr -- com título parodiado de "Crítica da Razão Pura", do filósofo iluminista alemão Immanuel Kant (1724-1804) -- foi publicado em maio de 2002 pela L&PM Editores, de Porto Alegre (RS). 

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E quem quer saber, autor da pergunta, é o escritor Francisco Barros Alves (ou só Barros Alves, como o mundo o conhece), autor de várias obras, um notável intelectual cearense, bibliófilo de nomeada, leitor consistente e voraz de livros e jornais em vários idiomas, membro, entre outras entidades, da Associação Brasileira de Bibliófilos, Academia Brasileira de Hagiologia, Sociedade Cearense de Geografia e História, Academia Cearense de Literatura e Jornalismo e Academia Cearense de Retórica. 
Sobre o "Leitmotiv" da crítica milloriana acerca da obra "Brejal dos Guajas e Outras Histórias", do advogado, político e escritor maranhense José Sarney, lançada em 1985, arrisco que, no seu dizer, o “azedume” do conhecido cartunista, humorista, jornalista, tradutor, escritor e dramaturgo carioca Millôr Fernandes (1923-2012) tem a ver com a muito citada -- e de autoria nunca assumida -- frase “¿Hay gobierno? ¡Soy contra!” 


Essa expressão, dita e tida como anarquista e de ainda não comprovada origem mexicana, resume ou revela o que também pode esperar aqueles que assumem posto de mando político, em especial a função pública máxima em um país havido como democrático -- a presidência da República. 
Assim, tendo chegado à presidência por intrincados problemas que envolveram desde a doença e morte de quem foi eleito (por um Colégio Eleitoral) até as tratativas e/ou negociações políticas, o jogo do poder, as sessões realizadas e as concessões solicitadas etc. etc., era natural que o governo Sarney, como todo governo, e o percurso político, pessoal, cultural do próprio José Sarney ficassem sob poderosas lupas, que tanto são capazes de alcançar detalhes microscópicos quanto ampliar o que for conveniente aos olhos e mentes do observador. 
Em especial, adicione-se a esse ambiente ou conjunto de situações políticas, o fato de que José Sarney ser escritor com já nove títulos publicados até 1985, ano em que teve início os seis de seu governo, de 1985 a 1990. Dá-se que, no ano de sua posse, 1985, Sarney tem lançado “Brejal dos Guajas e Outras Histórias”. Ora, para quem conhece a verve de intelectuais, humoristas e críticos que nem Millôr Fernandes e -- outros críticos de Sarney --, Paulo Francis (1930—1997; jornalista, escritor e teatrólogo carioca) e Franklin de Oliveira (1916-2000; jornalista, escritor e crítico literário maranhense), um presidente escritor é matéria ou material (ele e que ele tiver escrito e dito) para análise permanente e as possíveis críticas que daí advirem. 


Junte-se a essa multifária condição para ser alvo de críticas a sabida má vontade, desvontade ou, vá lá, pouca boa vontade de gentes (poucas, mas as há) do Sul e Sudeste em relação a nós outros do Norte e Nordeste -- “¿Hay nordestino? ¡Soy contra!” Em favor de Millôr (que não precisa de favores), diga-se o óbvio: que no seu livro ele é crítico -- cítrico -- tanto do nordestino Sarney quanto do seu conterrâneo fluminense e carioca Fernando Henrique Cardoso oito anos mais moço (FHC é de 1931). 
Mas, saindo de campo daquilo que eu acho, passemos às motivações -- documentadas -- do “azedume” de Millôr contra o livro de Sarney: 
----- A PEDIDO: Millôr Fernandes ele mesmo já havia dito que sua série de onze textos sobre o “Brejal” de Sarney, publicada em janeiro de 1988 no “Jornal do Brasil”, atendeu a pedidos de amigos para analisar a obra. O momento era adequado: “Brejal” foi lançado no ano em que seu autor era empossado (ou empoçado, pois a presidência também pode ser tanto poço, profuuuuuundo, quanto poça, de lama). 


----- POR SE SENTIR “ENGANADO”: Millôr escreve, logo na primeira das onze “partes” da série “Sarney e o Brejal dos Guajas”, que mais uma vez fora “enganado”. Escreve Millôr: “E enganado em literatura, por gente da melhor qualidade pra julgar literatura, como João Gaspar Simões, Jorge Amado, Carlos Castello Branco, Josué Montello, Luci Teixeira, Antônio Alçada Baptista, Lago Burnett. E (...) pelo mais preparado de todos pra tarefa específica (...), o crítico literário Leo Gilson (...)’.” Todos esses “luminares do pensamento” (a expressão é de Millôr) escreveram ótimos comentários sobre “Brejal dos Guajas”. Aí Millôr sentiu vontade de confirmar essa unanimidade de crítica ou apreciação favorável. Mas da vontade à ação ainda levaria um tempinho (veja-se: o livro é de 1985; a série crítica de Millôr, de janeiro de 1988). E o que o fez passar do molho ao malho? Veja a seguir. 


----- “BRASILEIRAS E BRASILEIROS”: Foi o bordão com que Sarney iniciava suas falas (“Brasileiras e brasileiros”) o que disparou o gatilho da desconfiança de Millôr em relação à qualidade do livro tão elogiado por gentes de altíssimo nível literário e de crítica literária. Conta Millôr: “Só fui desconfiar, apavorado com o complô, na primeira vez em que ouvi Sir Ney usar o apelativo rastaquera, ‘Brasileiras e brasileiros’, fazendo média contraproducente (por ridícula) com o feminismo.” Pronto! Parecia não faltar mais nada para iniciar a dissecação anatômico-patológico-literária de “Brejal dos Guajas”. Parecia... Millôr diz que a gota d’água viria mais tarde. Veja a seguir. 
----- “CORRUPÇÃO”: Millôr Fernandes escreveu que passou mesmo a escrever sua série de críticas após saber das tratativas políticas do Governo Sarney para, em resumo, trocar concessões de rádios e TVs por apoio político do Congresso Nacional ao seu Governo, aí incluída a extensão de mais um ano de mandato para Sarney. Eis as palavras de Millôr: “Não 
escrevi imediatamente sobre o livro por uma questão de... piedade. Mas agora, depois da jogada de gigantesca corrupção em que, como medíocre ditador, troca esperança de 140 milhões de brasileiras e brasileiros por mais um ano de sua gloríola regada a jerimum, começo uma pequena análise dessa ópera de 50 páginas.” 
Millôr, na “Parte II” da série de textos críticos, reitera que o livro tem 50 páginas: “’Brejal dos Guajas’ só pode ser considerado um livro porque, na definição da Unesco, livro ‘é uma publicação impressa não periódica com um mínimo de 49 páginas’. O ‘Brejal’ tem 50.” Neste ponto Millôr estava sendo mais humorista que realista, mais galhofeiro que verdadeiro. (“Galhofeiro” é como Millôr foi definido por seus editores.) 


A editora Alhambra (Rio de Janeiro), que publicou “Brejal” em 1985 diz que a obra tem 87 páginas, formato 14 cm (largura) por 21 cm (altura). 
Nesse recorte sobre quantidade de páginas, é evidente que um livro terá as características, dimensões, que seu projeto gráfico definir. Autores escrevem textos; editores, diagramadores, gráficos fazem livros, a partir de um projeto e dos custos. 

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Por exemplo, um texto que, continuamente, impresso frente e verso, não chegaria a quarenta páginas, pode se transformar em um livro de cem páginas ou mais. Como?! Basta definir um corpo maior da fonte (o tamanho das letras); adotar uma mancha gráfica (área de impressão) menor; aumentar os espaços interliterais, intervocabulares, interlineares, interparagráficos (entre letras, palavras, linhas e parágrafos); imprimir texto apenas em um lado da folha (geralmente a face ímpar) e, na página oposta, par, colocar ilustração ou destacar uma frase em moldura ou mesmo deixar em branco; incluir no livro caderno iconográfico, com imagens relacionadas ao texto; incluir índices (onomástico, cronológico, geral), notas de pé de página, de fim de capítulo ou notas finais; e mais páginas editoriais (folhas de guarda, falsa folha de rosto, folha de rosto, créditos editoriais, epígrafe, agradecimentos, sumário, prefácio, apresentação, introdução, páginas capitulares (folhas com apenas a numeração de capítulos ou das partes em só uma das faces), biografia do autor, colofão, orelhas etc.  Um livro não é um texto autoral; é um projeto editorial. 


É possível transformar facilmente os Dez Mandamentos, ou uma oração religiosa em um livro com mais de cinquenta páginas. 

Espero que algo neste arrazoado -- desmesurado -- possa ser útil ao questionamento do amigo e confrade Barros Alves. 

******
EDMILSON SANCHES 
[email protected] 
www.edmilson-sanches.webnode.page 
Administração - Biografias - Comunicação - Desenvolvimento - História – Literatura // PALESTRAS - CURSOS - CONSULTORIA 

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JaimeHá 10 meses BSB/DFTrês pessoas do mais altíssimo quilate. Publicação de alto valor literário. Vcs são SHOW!!!
Dr. Jurandir PaivaHá 10 meses Caxias do Maranhão"É possível transformar facilmente os Dez Mandamentos, ou uma oração religiosa em um livro com mais de cinquenta páginas". E é você quem faz isso num piscar d'olhos.
Gardênia Fiquene SoaresHá 10 meses Imperatriz MaSanches, receba meu mais profundo abraço por esse texto. Elegante. Não comprou o lado, nem a briga.
Gabriel Melonio CintraHá 10 meses São Paulo SPUma aula.
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