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“A VOZ DOS SILENCIADOS ECOA NA CORDILHEIRA”, de José Neres

Especial para o Facetubes.

08/05/2025 às 16h18 Atualizada em 08/05/2025 às 16h39
Por: Mhario Lincoln Fonte: José Neres
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Neres, Paulo e a capa de “Cordilheira”.
Neres, Paulo e a capa de “Cordilheira”.

FASCISMO

É não dar o direito 

de dizer adeus.

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(Paulo Rodrigues – Cordilheira)

 

Um poeta de verdade grita mesmo quando aparentemente está calado, indiferente a tudo e com os olhos na linha do horizonte, as mãos no papel ou no teclado. O silêncio muitas vezes é sua grande arma. Mas não é um silêncio passivo ou covarde. É, sim, um silêncio estudado, meticuloso e carregado de intenções. Suas palavras e seus versos rasgam as vestes da indiferença e expõem ao mundo o preço a ser pago caso ousemos optar pela neutralidade diante das injustiças.

 

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Paulo Rodrigues é um desses homens que, com a voz mansa, a calma peculiar dos sábios e com olhar atento a tudo o que se passa a seu redor, usa seus dons poéticos para dar voz às pessoas que possivelmente ainda não perceberam a força que têm.

 

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Consciente de que vivemos em uma época tacocrônica e fluida, o poeta, desde suas primeiras publicações, investiu na brevidade dos poemas e no impacto imagético das palavras. Para ele, é mais importante ser compreendido do que ser decifrado, ser lido por todos do que apenas saber que seus livros enfeitam as estantes de algum exegeta cheio de títulos acadêmicos e de predicados eruditos. A poesia deve incluir, não excluir.

 

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Em seu mais recente livro, Cordilheira (Patuá, 2024, 80 páginas), Paulo Rodrigues continua em seu intento de mostrar que um poema engajado não é necessariamente um texto escrito só com o objetivo de denunciar alguma incômoda situação. Pode também ser algo artístico e bem elaborado, com leveza e densidade suficientes para embalar corações e ao mesmo tempo causar espanto.

 

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O livro inicia com um elucidativo e bem escrito prefácio assinado pela professora doutora Alexandra Vieira de Almeida e se encerra o excelente posfácio do poeta e acadêmico Isaac Souza. O volume conta ainda com um estudo crítico feito pelo também poeta Samuel Marinho, texto esse colocado na primeira “orelha” do livro.

 

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Os três textos acima citados reconhecem a tessitura poética de Paulo Rodrigues e podem servir como importante guia para a leitura do livro.

 

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Ao mergulhar nas páginas do livro, o leitor logo se depara com o estilo já característico de Paulo Rodrigues. Os poemas são breves e contundentes. Às vezes lembram pequenos contos escritos em versos. Porém, a intenção não é simplesmente contar uma história, mas sim despertar no leitor um possível sentimento de indignação com situações aparentemente corriqueiras e que, por já terem se repetido à exaustão, podem ter perdido o valor de novidade e que talvez nem mesmo seriam replicadas nas páginas de algum jornal, como é o caso do poema abaixo, no qual as alterações se desdobram na ironia de uma ação desesperadora que ocorre de modo até certo ponto pacífico, sem causar a esperada comoção.

 

MUDOU A COR DO OCEANO PACÍFICO 

Seu Hani colocou os botões 

atravessados na camisa branca

e saiu pensando no passado.

 

Pulou no Pacífico sem riso nem adeus.

 

Sobrou a bengala na boca de um cão 

farejador (Pág. 28).

 

Cordilheira é um livro de denúncia social com ambientação prioritária na América Latina. Dessa forma o cenário e as personalidades históricas são constantemente evocados nos poemas. contudo, o poeta não se limita a descrever situações históricas. Ele se preocupa também com personagens que possivelmente jamais irão frequentar as páginas de um livro de história, mas que também são significativas para o contexto social que margeia o próprio esquecimento das pessoas tão anestesiadas pelas overdoses de realidade. Dessa forma, em um poema como “Antes tarde do que nunca”, cuja construção vai além da mera recorrência a um conhecido dito popular, Paulo Rodrigues faz o leitor mergulhar nas frestas de uma micro-história que pode ser multiplicada ao infinito, pois retrata a situação de miséria de inúmeras pessoas, como pode ser visto abaixo.

 

Um quarto

da população do país

vive com um terço

de um salário.

 

Observo os pés descalços

de Madalena:

as unhas amarelas,

a pele enrugada.

 

A mão direita por sobre o ventre.

E o riso da criança no retrato (pág. 29).

 

Imagens pungentes e doloridas como essa se repetem ao longo do livro, demonstrando que o sofrimento dos desalentados é algo cíclico e constante, que, embora possam variar quanto ao nome dos envolvidos, ao ritmo e à intensidade, continua sendo emblemático e representam o descaso para com toda uma parte da população ao longo de um grande intervalo de tempo.

 

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Esses gritos silenciosos saltam das páginas do livro e ecoam por todos os (uni)versos, mal abrimos o livro e passamos os olhos pelas estrofes dos poemas, que estão agrupados em três partes bem definidas, a saber: 1) feridos de guerra na América; 2) O passado é mudo? e 3) Gênesis, sendo que todas essas partes se encontram em total equilíbrio com relação ao todo do livro.

 

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Embora, talvez, o olhar ideológico de Paulo Rodrigues em seu livro não agrade a todos os leitores com defensores de espectros políticos diferentes, mas, certamente, os poemas podem despertar no leitor a angústia de saber que algo não está certo e que precisa ser corrigido urgentemente. E isso não depende de ideologias, mas sim no nosso grau de (in)sensibilidade humana. Vale a pena refletir.

 

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Herculano (Sinhô) da Silva do PaçoHá 10 meses Paço do Luimiar- maranhãoDigníssimo msr. dr. professor José Neres caríssimo e digno representante da cultura do Maranhão. Folgo em afirmar que fico com muitas saudades de minha cidade natal, o velho Paço de Lumiar, quando leio a hóstia de nosso vizinho municipal ribamarense. Sinto-me cheio de orgulho íntegro em saber que o mestre Neres tem sua vida voltada para duas coisas muito sérias e evidentemente claras. A Poesia e o respeito ao outro. Este texto que ora decifro é a prova de sua hombridade.
Pai Preto de OxóssiHá 10 meses Santa Inês _MA"o olhar ideológico de Paulo Rodrigues em seu livro não agrade a todos os leitores com defensores de espectros políticos diferentes", bem lembrado dr. Neres. Mas parece que o Paulinho se livrou da forca do PT agora ele vai voar muito alto. Além de poeta ele tem inteligência suficiente para misturar poética e política de forma madura e consciente. Saravá
Leocádio (Dedão) Santos, repentista e cordelistaHá 10 meses Santa Inês (CEM Inês Galvão).sopu de Santa Inês e votei no poeta Paulo. Finalmente ele se livrou de uma corda no pescoço. O nefasto PT. até a poesia dele, de protesto, ficou mais real, mais limpa.
Dr. Paulo Simeão Jarder, poeta belenense.Há 10 meses Belém do Pará.Juntos, dois dos maiores intelectuais do Maranhão. Orgulho de um estado que precisa olhar mais para a cultura. Esses dois parecem ser gladiadores do bem, lutando na arena pantanosa de poderes públicos inéptos.
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