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Nosso colaborador Marcos Neves, de Portugal, indaga: “Camões detestava os erros de ortografia? Isso é mito ou verdade?

Colaborador, a partir de Portugal, Marco Neves

04/07/2025 às 09h49 Atualizada em 04/07/2025 às 10h48
Por: Mhario Lincoln Fonte: Marco Neves
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Arte: Ginai/mhl
Arte: Ginai/mhl

Da editoria de Literatura do Facetubes: Um vídeo recente nas redes sociais afirma que Luís de Camões “detestava erros de ortografia”. A frase chama atenção e parece fazer sentido, vindo de um dos maiores nomes da literatura portuguesa. Mas será que essa afirmação resiste à análise histórica? Camões viveu no século XVI, quando a língua portuguesa ainda não possuía uma ortografia padronizada. A escrita da época seguia convenções flexíveis, e não existia um conjunto rígido de regras como hoje. A própria impressão de “Os Lusíadas”, publicada em 1572, traz grafias que atualmente pareceriam estranhas, como o uso do “ſ” (esse longo) e do “ß” (uma espécie de S dobrado), elementos tipográficos comuns e aceitos naquele período.

A ideia moderna de erro ortográfico depende da existência de uma norma culta estável, algo que só começou a se consolidar nos séculos seguintes, com a publicação de gramáticas e reformas ortográficas. Assim, afirmar que Camões detestava erros de ortografia soa anacrônico. Ele, de fato, valorizava o bom uso da linguagem e era cuidadoso em sua escrita poética, mas dentro dos padrões flutuantes da época.

Não há registros históricos que indiquem uma aversão pessoal de Camões a desvios ortográficos — até porque o conceito de erro, tal como o entendemos hoje, simplesmente não existia nos moldes do século XVI. O que havia era um ideal de clareza e beleza literária, que ele perseguia com rigor, mas sem se guiar por regras fixas como as atuais.

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Marco Neves.

Convidamos o linguista Marco Neves a explorar esse tema em vídeo complementar: como a ortografia portuguesa evoluiu desde os tempos de Camões até as normas atuais? A história da língua talvez seja mais fluida — e fascinante — do que o vídeo viral sugere.

MARCO NEVES nasceu em Peniche e vive em Lisboa. Tem ofícios, todos virados para as línguas: tradutor, revisor, professor, leitor, conversador e autor. É também pai, com o ofício de contar histórias. É professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, investigador no Centre for English, Translation, and Anglo-Portuguese Studies (CETAPS) e director em Portugal da Eurologos. Escreve regularmente artigos de divulgação linguística em certaspalavras.pt.

 

VÍDEO-BÔNUS (MARCO NEVES)

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JaimeHá 12 meses BSB/DFO presidente ML, faz uma grande análise acima. Um texto de incomensurável valor cultural. Gabaritou em autoperformance. Parabéns!!!
Keila Marta Há 1 ano São LuísAdorei a matéria, achei muito rica e muito acertiva, pelo papel esclarecedor chama atenção para o cuidado com certas afirmações que parecem categóricas mas são reducionistas e baseadas em achismos e por isso no que diz respeito ao estudo de uma língua seja a portuguesa ou qualquer outra, observar o contexto histórico, aspectos culturais da época. Um artigo bem fundamentado faz toda diferença. Show!
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