
Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes
Mhario Lincoln pergunta para Aldira Martins
MHARIO LINCOLN - 1 - Você nasceu no sertão do Ceará e hoje vive em Fortaleza. Como essa trajetória entre o interior e a capital moldou a pessoa que você é hoje?
ALDIRA MARTINS - Minha base de vida foi muito bem feita no local onde nasci! Vivi quase totalmente entre a natureza até 18 anos! Minha vinda para cidade foi em busca de melhoria acadêmica para construir minha sustentabilidade existencial, sempre quiz ser independente para nortear minha vivência de acordo de minhas posses, financeira e mental para cuidar dos meus filhos de modo a ensiná-los aa construir sua própria vivência! Sem ilusões materiais, ser feliz com o que tem e buscar o que sonha! Essa transição Sertão para cidade não anulou e nem o legado ancestral já construído, só fui anexando experiências! Sou uma pessoa caminhante e cantante na estrada da vida
MHARIO LINCOLN 2-Em vez de presentes no seu aniversário, você prefere arrecadar alimentos para abrigos de idosos. Como surgiu essa ideia e o que ela representa para você?
ALDIRA MARTINS - Essa ideia surgiu quando fui, à época de São João, tocar em "abrigo" de idosos!
Foi mutilante para meu espírito ver e sentir ao vivo o que é feito com as pessoas naquela idade, de corpo pobre e alma rica! O grito dos esquecidos me ferrou na matriz! Minha hipófise foi bombardeada! Não aguento lembrar com frequência o horror! Com certeza tem purgatório, umbral, zona baixa, seja lá que nome se dê para a idade senil de milhões de pessoas! E, o que eu poderia fazer para acender, nem que fosse uma fagulha nesse ‘pretume’ todo? Doar o que for possível e chamar a atenção para eles! Eu não necessito de presentes, de agrados, Deus me provém com meus trabalhos que me sustentam e eu ainda posso me governar pra fazer o quê me der desejo! Mas os idosos podem o quê mesmo!!!???? Nadaaaaaaaa! Roubaram-lhe tudooooooo! Inclusive a vivência, as experiências, os gostos! São uns renegados, escravos do sistema e esquecidos dos seus amores!!! Aah, isso me machuca! Por isso faço tudo o que tiver ao meu alcance para ajudá-los.
MHARIO LINCOLN 3- A cultura nordestina está muito presente na sua vida. O que mais te emociona quando promove eventos culturais ou toca seus instrumentos?
ALDIRA MARTINS - A camaradagem, os abraços festivos, o ‘converseiro’, a ‘risadaria’, as comilanças, as amizades novas, os reencontros, a satisfação de estarmos juntos, a ‘quenturinha’ no coração do amor verdadeiro, a ausência da roupa de grife, dos sapatos caros, do carro do ano! Lá só se fala em gente e de gente! É uma usina de energia astral! Todo mundo sai da festa com azeite de vida na sua lâmpada! Uma festa de verdade! Um encontro sertanejo salva vidas.
MHARIO LINCOLN 4- O que a fé representa no seu dia a dia e de que forma ela guia suas ações em prol da comunidade?
ALDIRA MARTINS - A fé é meu combustível. A fé foi plantada fortemente no DNA da minha raiz genealógica!
Rezava-se na hora do parto pra Nossa Senhora do Bom Parto, rezava-se com raminhos para toda e qualquer mazela! Rezava-se para chamar o vento, para acalmar o tempo, para chamar o sol, para pedir a chuva, para livrar do mal, para batizar, para primeira comunhão, para crisma, para casar, para morrer, para enterrar nossa gente! Para agradecer, para louvar e até para maldizer! Kkkkk. Então eu falo com os Santos com a intimidade de onipresença! Falo com São Francisco com tanta naturalidade que nem duvido que ele ‘anda’ grudado em mim intrinsecamente sem pausa! Às vezes, imagino que tem um auto falante no céu berrando os meus pedidos e minhas gratidões o tempo inteiro! Porque eu sou uma ‘pidona’ incorrigível! Peço paro saco e paro bisaco! Para os outros é que peço mesmo!
MHARIO LINCOLN 5- Quais são os maiores desafios de atuar como líder comunitária em regiões carentes — e o que te motiva a continuar?
ALDIRA MARTINS - Não sinto os desafios porque encaro eles como uma coisa prazerosa porque gosto de estar ali!
Me moldo na situação e tudo fica muito fácil! Não tenho metas fixas, não vislumbro ganhos monetários e muito menos de alcançar fama! Fama é um fardo pesado e não acho necessário carregá-lo, troco por uma cadeira de rodas, por uma cama, por um pirulito, qualquer coisa que faça a diferença na vida de alguém! Porque só a vivência de estar sentindo a alegria com os outros já paga o ‘engrosso’! E eu nem me coloco na condição de líder! Liderar é restrito a muita coisa! Quero não! Gosto é de estar DENTRO DA MASSA.
MHARIO LINCOLN 6- Se pudesse deixar uma mensagem para os jovens nordestinos de hoje, especialmente aqueles que vivem em situação de vulnerabilidade, qual seria?
ALDIRA MARTINS - Aprendam a tocar um instrumento!
Isso salvou a mim, quando o fundo do poço era meu chão! Música é um remédio ao alcance de todos que o divino pôs à disposição da humanidade para uso sem restrições!
Vale lembrar que ela é uma frequência regimental, portanto, sintonize sempre no modo positivo, elevatória, ainda que fale de calabouços existenciais, sempre dê a ela a opção de emergir! A música é seu gênio da lâmpada, então faça pedidos de resgate! Coisas que te lave por dentro! O dito popular QUEM CANTA SEUS MALES ESPANTA é muito real!
E sobre ‘ser nordestino’. No mundo atual, já não estamos mais em momento de ser o segregado dos aflitos! Evoluímos!!! E como evoluímos!!! Com a vantagem sermos fortalecidos por lutas e ter a gana da conquista! É uma benção!!!
MHARIO LINCOLN 7 - Em meio a tantas atividades, dedicação à comunidade, à fé e à cultura em todos os níveis… será que sobra espaço no seu coração para pensar no amor? Em ter ao lado um companheiro para dividir tudo isso que você é e faz?
ALDIRA MARTINS – “Meu coração já tão torturado, // banido, queimado, chutado /// com o sapato da dor. /// Adotado e tão bem tratado /// Por ninfas Aladas /// Enfim se curou!”. Tive 3 relacionamentos de juntar escovas, 12 anos e 1 filho, 15 anos e um filho, 2 anos e quatro meses e muita experiência!!! Amo os três e tenho gratidão eterna pela vivência muito evolutiva! No entanto, acho muito pouco provável encontrar alguém disposto a me acolher nesse rojão de vida que tenho por gostar de viver assim; e não querer abrir mão disso! Meus dois filhos são muito carinhosos e meus amigos também! Então, não estou à procura de pessoa que venha para dentro do meu mundo ‘buliçoso’ feito corredeira de riacho! Deixa o povo viver em paz! Quando me apaixono, desmancho tudo em canções! Kkkk. E segue o baile!
MHARIO LINCOLN 8 - Você dedica tanto da sua vida a alegrar os outros, a cuidar, a doar, a levantar quem precisa… mas, quando você está sozinha, no silêncio do seu quarto ou ao fim de um dia cheio, quem cuida de você? Quem enxerga a mulher por trás da força, da sanfona, do sorriso largo?
ALDIRA MARTINS - Olha, já fui tão violentamente surrada por dor de amor que quando estou só, apago a luz e durmo!
Não quero nem me ver! Vai que eu evidencie minhas chagas que escondi de mim e vão doer; e eu não tenho o remédio!
Cruzes três vezes! Detesto autopiedade! Coitadinha com certeza não sou eu! Às vezes que tentei me ver, chorei de pena de mim e nunca mais eu quiz me ver! Ceguei!!! Pego e meus olhos para olhar para dor dos outros, porque a dor dos outros eu posso ajudar a passar! A minha não é assim!
Então, estou perfeita!
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ALDIRA MARTINS pergunta para Mhario Lincoln
ALDIRA MARTINS - O que há nos olhos de Mhario Lincoln que lhe dá o poder de ver a pessoa por dentro
MHARIO LINCOLN - Nesse caso, eu sempre me pego pensando em minha sinceridade. Às vezes machuca, outras disfarça, outras ainda, separa. Mas, na maioria das vezes, aconchega. Mostrar-me como sou (e não, quem sou) faz muita diferença. Eu desconfio das pessoas que apertam a minha mão e dizem “... eu sou fulano, sou isso, sou aquilo, bla-blá, e blá-blá”. Nesse caso, há explícita tendência ‘ego-narcisista’: colocar a ‘despersonalidade’ muito além dos princípios básicos da igualdade e fraternidade. E quando isso acontece logo no primeiro minuto que há uma apresentação formal entre duas pessoas, geralmente não passa disso. Sócrates dizia que a amizade deveria nascer entre pessoas “nuas”, sem privilégios, nem conceitos de superioridade. Há, inclusive quem se referiu à empatia, como “o espelho da alma”.
Fui bucar a filósofa Edith Stein para entender realmente o sentido exato de Empatia: “(...) sentir empatia não é um ato de imaginação fantasiosa, nem uma inferência puramente intelectual; trata-se de um ato de experiência única (sui generis) pelo qual conseguimos ter a experiência da vivência do outro de forma indireta (edithstein.com.br). Por isso, amiga Aldira Martins (você é um exemplo dessa empatia/espelho d’alma).
ALDIRA MARTINS - Quem é Mhario Lincoln no mundo, segundo o próprio Mhario Lincoln?
MHARIO LINCOLN - Considero-me um nordestino de coração, soldado das palavras e como originário de minha região, acho que também um multifacetado (risos). Luto para colocar a Cultura no mais alto pódio. Mas não com minhas obras. Mas de forma coletiva, indo buscar oxigênio cultural nos mais longínquos torrões literários. Desta forma, a Academia Poética Brasileira, fundada por pessoas que pensam da mesma forma, tem em seus quadros escritores, poetas, artistas e músicos das mais variadas origens, porém, com um objetivo comum: mudar o mundo através de seus trabalhos. Aliás, foi o vocalista e ativista Bono, da banda U2 que falou isso, destacando também a música, estendida à arte e à literatura — como agentes de mudança social, através da transformação interna que provocam nos indivíduos.
ALDIRA MARTINS - O que viu Mhario Lincoln ao olhar Aldira Martins pela primeira vez?
MHARIO LINCOLN - Aldira você é diferenciada. Uma mulher de fibra do Nordeste: corajosa, autêntica e generosa. Como eu escrevi recentemente em uma crônica, “Aldira Martins é a personificação da coragem e autenticidade”, alguém que se doa “de corpo e alma para o próximo, sem nunca pedir nada em troca”. Quer coisa mais linda do que isso? Sabe, amiga, você tem uma beleza interna que transparece no olhar: “a verdadeira beleza vem de dentro, do coração generoso e da alma dedicada ao serviço dos outros”, conclui na crônica que escrevi sobre você. E a cada dia, ratifico isso com autêntico.
ALDIRA MARTINS - Qual conselho Mhario Lincoln daria a Aldira Martins como pessoa?
MHARIO LINCOLN - Inspirado por Fernando Pessoa, eu sugiro: “Segue o teu destino, ama as tuas rosas”. Esse é um dos conselhos mais intensos e reais que eu já li, porque quem não ama as rosas, não consegue amar nem a si mesmo. É assim porque “o resto é sombra de árvores alheias”.
ALDIRA MARTINS - Estamos em um momento de transição planetária; o que diz Mhario Lincoln sobre esse momento crucial da humanidade?
MHARIO LINCOLN - Estudo há anos a doutrina espírita, não só a imbuída de propósitos kardecistas, mas o espiritismo de uma forma mais ampla. Acredito que vivemos um período de reencarnações de amplo aspecto, reencarnações decisivas. Este, segundo a linguagem espírita, é o exato momento dessa transição, a fim de que sejam mais respeitados e praticados e amor e a justiça, fatores de um plano maior de evolução. O seu trabalho, Aldira, foca isso através de sua doação exemplar. Fiquei absolutamente feliz ao saber que todos os presentes que você recebe em seus aniversários, todos os anos, são revertidos em benefícios aos que mais precisam. No ano passado, tive a honra de colaborar para um Lar de Idosos de sua cidade. Por isso Kardec diz: “a humanidade terá a oportunidade de superar seus desafios e promover um mundo mais justo e equilibrado”. Claro, você está fazendo a sua parte. Honrado em tê-la na Academia Poética Brasileira.
ALDIRA MARTINS - Se papel, dinheiro e coisas físicas deixarão de ser usuais, como Mhario Lincoln vê isso?
MHARIO LINCOLN - Sinceramente? Vejo isso não como uma perda, mas como uma travessia inevitável – um rito de passagem. Tudo muda. Se transforma, pelo menos, como dizia Lavoisier. E como eu chamo a filosofia para tudo que existencializo, essa mudança pode ser comparada ao pensamento de Heráclito, que dizia: “Nada é permanente, exceto a mudança.” É a pura verdade! Eu e você mudamos ou iremos passar por mudanças profundas. Por isso, o Jesus disse: “Não acumuleis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem corroem, e onde ladrões escavam e roubam. Mas ajuntai para vós tesouros no céu...” (Mateus 6,19-20). Neste sentido, o desapego do físico não é uma perda, mas uma libertação. É assim que penso, já que só deixarei mesmo a minha luta e a vaga lembrança de minhas ações por aqui, neste mundo físico.
ALDIRA MARTINS - Como Mhario Lincoln entende a espiritualidade?
MHARIO LINCOLN - Pela primeira vez vou tocar nesse assunto em público. E confesso que fui criado em ambiente evangélico – Igreja Presbiteriana do Brasil. Porém, aos 11 anos busquei, de forma espontânea, outras formas de entender as diversas elipses de um Poder Superior a fim de que tivesse realmente a convicção e fé que existe um Deus amantíssimo. Passei por períodos dificílimos em minha vida. Quase desisti de tudo, inclusive. Porém, uma força maior a mim que impulsionou minha fé, surpreendeu-me em sonhos, como se uma voz interior me puxasse para cima. Estava eu, no fundo do poço. E para aperfeiçoar esse ímpeto Cristão, em minha forma de ter fé, comecei ardorosamente a estudar outras formas: budismo, espiritismo, umbanda, catolicismo. Porém nunca deixei de acreditar na existência desse Poder Superior a mim mesmo, da maneira como eu o concedia. Foram quase 8 anos participando dessas atividades. E elas me forjaram um ardoroso Cristão. Eu creio em Deus sobre todas as coisas. E com certeza tenho recebido avisos e bençãos tão significativas que muitas vezes me fazem prostar de joelhos ao chão e agradecer muito. Tenho a certeza de que é a espiritualidade que me faz forte e me dá a consciência da fortaleza de minha alma e me ajuda a evoluir meu espírito, continuamente.
ALDIRA MARTINS - Sobre o amor?
MHARIO LINCOLN - O amor é a força vital que dá sentido à minha existência. Sempre chamo Platão para a mesma mesa, neste assunto. Porque ele dizia, “Ao toque do amor, todas as pessoas se tornam poetas”. Ou seja, o amor inspira beleza e criatividade em tudo que fazemos. “O amor é a única resposta sã e satisfatória ao problema da existência humana”, ensinou Erich Fromm, Erich Fromm grande psicanalista, filósofo humanista e sociólogo alemão. Assim, tenho certeza (porque eu também Amo) que o amor não é apenas emoção, mas um princípio que torna a vida plena: é o que me conecta aos outros, me torna solidário e me faz escrever versos e prosas com verdades e sentimentos explícitos.
Muito bom ter você aqui em mais este VICEVERSA.
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