
Alguns livros não se apagam. Recuam. Recolhem-se no fundo das prateleiras, saem das listas, das resenhas, dos salões de prestígio. E no entanto, permanecem. Pulsam num tempo que não é cronológico, mas emocional. De quando em quando, reaparecem — não como relançamentos oportunistas, mas como renascimentos literários. Não precisam ser resgatados, porque nunca morreram. Apenas estavam à espreita, à margem, como criaturas de silêncio à espera do instante certo. Quando voltam, tomam de assalto a atenção do público, provocando o espanto de quem acreditava que o tempo os havia vencido. Mas o tempo, como bem sabe a literatura, não é juiz — é cenário. E certos livros nascem para resistir a ele.
Um fato regional do Maranhão, foi o estopim para que esta Editoria de Literatura e Arte pesquisasse este conteúdo. O livro em questão é "A Vela de Cera", de João Clímaco Lobato (1817-1881), livro redescoberto pelo GELMA (Grupo de Estudos em Literatura Maranhense). A organização é dos professores Dino Cavalcante e José Neres. Vale destacar porque o livro traz contos fantásticos. Isso, naquela época, era realmente muito interessante. Aliás, está sendo estudada a possibilidade de Lobato ser o autor do primeiro romance maranhense (pelo menos nos moldes em que concebemos o gênero romance atualmente). O título: “O Diabo”, publicado em formato de folhetim, pelo jornal "Constitucional".
O professor Mauro Cezar Vieira também do GELMA, no prefácio dessa valiosa obra diz: "A vela de cera” parece seguir as características do seu antecessor: um jovem casal que se vê às voltas com um dilema que só é resolvido por interferência do sobrenatural. Ainda assim, em “A vela de cera”, João Clímaco Lobato parece querer construir uma verdadeira história insólita aos moldes do gótico romântico que fazia sucesso à época, enquanto em “O Diabo” esta aproximação é apenas aparente. Parece-nos, portanto, uma incursão definitiva do autor ao gênero que somente tateou anteriormente." Muito interessante.
Como se vê, as reedições de livros antigos nem sempre são "obras do acaso". Há uma espécie de força vital em algumas delas, como na de Lobato, que as torna independentes da época que as viu nascer. São histórias que parecem pressentir seu retorno. Sabem esperar, como quem confia no reencontro com um leitor futuro, mais atento, mais ferido, talvez mais pronto. Essa reemergência muitas vezes não se dá com estardalhaço, mas com intensidade. Obras que voltam não pedem licença: invadem com a fúria elegante de quem tem algo urgente a dizer. Não se oferecem ao gosto do tempo, mas o desafiam. Não pedem aplauso, pedem escuta; pedem releituras.
Entre os muitos exemplos desse retorno literário, no nível inmternacional, por exemplo, está “A História Secreta”, de Donna Tartt, que reaparece com a precisão narrativa de um romance grego transposto à angústia contemporânea. Um grupo de jovens fascinados pela estética clássica revela, por trás de sua erudição, um pacto sombrio e fatal. O narrador, Richard Papen, nos conduz de forma hipnótica à deterioração moral disfarçada de refinamento intelectual. Já em “1984”, de George Orwell, o futuro distópico escrito em 1949 se insinua novamente em cada esquina do presente. A opressão narrada por Orwell não perdeu força — ganhou novas camadas.
“O Grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald, por sua vez, retorna com a melancolia de um sonho partido. A obstinação romântica de Jay Gatsby em reconstruir um passado impossível ecoa com particular intensidade em tempos de ilusões digitais e identidades fluidas. Ao contrário do ruído que costuma cercar os ídolos modernos, a figura de Gatsby brilha num silêncio quase litúrgico, onde cada gesto é uma oferenda à esperança perdida. Em “Mulherzinhas”, de Louisa May Alcott, o que ressurge não é apenas a história de quatro irmãs durante a Guerra Civil Americana, mas o retrato delicado e profundo do amadurecimento feminino em um mundo que ainda impõe limites demais aos sonhos das mulheres. A sensibilidade da narrativa, aparentemente simples, carrega um peso de séculos e um frescor atemporal.
Por fim, “Noites Brancas”, de Dostoiévski, retorna como uma exalação de ternura e desamparo. A história breve de um encontro em São Petersburgo — entre um sonhador e uma jovem que espera — relembra para muita gente a beleza dolorosa dos afetos que não se realizam. Em suas páginas lentas e comoventes, a solidão ganha forma, e o amor, mesmo não correspondido, ganha dignidade. A literatura, nesse conto, não é consolo — é espelho daquilo que não foi vivido, mas ainda assim doeu.
Essas obras — algumas com quase dois séculos de idade — demonstram que o tempo, longe de apagá-las, as amadureceu. Não voltam polidas. Voltam marcadas. Voltam porque ainda ferem, porque ainda dizem. Porque são, acima de tudo, livros que recusam morrer.
(Crédito: Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes)
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