
* Mhario Lincoln
Em tempo: abaixo, vídeo com entrevista completa.
Há muito vinha querendo uma maior aproximação com Antenor Bogéa. Um ser humano de grande incursão nas várias vertentes da cultura mundial. Aliás, mesmo tendo encontrado com seu Pai, prof. Antenor, na Faculdade de Direito, na Rua do Sol; e depois, sido aluno na mesma Casa, do irmão Ricardo Bogéa, eu e little Antenor apenas nos encontrávamos casualmente.
Porém, como algo que vem dos céus, tive a ousadia de, certa vez ligar para ele, em Brasília (DF), para fazermos um podcast sobre sua vida artística conhecida desde a "Champs-Élysées", ao mais simples teatro popular no Brasil. Aí conheci uma figura das mais queridas, dona de uma personalidade sólida, mas que extravasava benquerença.
Qual não foi minha surpresa, agora, recentemente, quando lhe telefonei e perguntei se ele havia cruzado, em algum momento – tendo sido ele adido cultural em Paris - com o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, já que esse, naquela ocasião, passava um bom período por lá.
Logo Antenor me favoreceu de forma esplêndida. Autorizou-me a publicar uma entrevista dele com Sebastião, que foi ao ar, em seu programa de entrevistas em uma emissora de TV francesa. Realmente uma pérola. E é essa pérola que eu divulgo hoje, com exclusividade no Brasil, sob autorização dele.
É um momento em que a intimidade de uma conversa serena e profundamente instigante, cruzam os caminhos desses dois nomes da nossa cultura. Vale dizer que Antenor Bogéa, nessa entrevista grandiosa, carrega a precisão das palavras, e Sebastião Salgado, revela que a lente de sua câmera já percorreu o coração do planeta para revelar as veias abertas da humanidade.
O encontro, registrado em VHS, com um valor histórico inestimável, agora disponível na Plataforma Nacional do Facetubes. Este vídeo, abaixo reproduzido, torna-se um exercício de reflexão sobre o papel da imagem, da memória e da ética na construção da verdade e da justiça social.
Sebastião Salgado, cuja trajetória parte das Minas Gerais rumo à Paris dos anos 1970, traz em seu olhar a sofisticação da técnica fotográfica para expor as veias da realidade que documentou. Economista de formação, foi na França que abandonou os números para se entregar, com veemência, ao ofício de narrar o mundo com imagens.
Na capital francesa, estudou fotografia e integrou importantes agências como a Sygma e a Magnum Photos. Esse embasamento, tanto intelectual quanto prático, conferiu-lhe uma consciência rara: a de que fotografar é um ato político e mais ainda. “Um ato social...”.
Ao longo da entrevista, Salgado compartilha experiências que ultrapassam fronteiras. Fala sobre suas incursões em zonas de guerra, campos de refugiados e aldeias remotas onde a vida se equilibra sobre a escassez. As imagens que produz são, segundo ele, testemunhos silenciosos que gritam por dignidade. “Não somos neutros”, afirma, em resposta a uma das provocações de Bogéa. A neutralidade, para Salgado, é conivência. E o fotógrafo, nesse contexto, torna-se “agente de transformação”.
Como eu sempre digo. Se não ouvir, ler e estudar, os dons recebidos por algo divino (em minha opinião), viram pedras na beira do mar aguardando os eternos açoites das ondas para burilá-la. Por isso, ouvir essa bela entrevista (real) de Antenor Bogéa aprendi, inclusive, a corrigir, em mim, algumas falhas que diziam respeito à condução da conversa com leveza e profundidade, (sem muitas interrupções), fato que o levou a extrair de Salgado não apenas relatos, mas confissões de um tempo vivido à flor da pele.
Aqui, devo implementar este texto incluindo aqui – pro forma – algo sobre o projeto “Gênesis”, um dos mais poéticos e necessários da carreira de Salgado, em que ele busca revelar as paisagens ainda intocadas do planeta. Trata-se de uma ode visual à natureza, mas também um alerta sobre sua destruição iminente. A beleza que Salgado captura carrega uma urgência que incomoda e mobiliza.
Vale expor ainda, algo bem interessante: Salgado revelou de forma explícita sua ligação visceral com o Brasil, apesar de viver por décadas na Europa, por meio do Instituto Terra, organização fundada ao lado de sua esposa, Lélia Wanick Salgado. O projeto, sediado no Espírito Santo, já reflorestou milhares de hectares da Mata Atlântica e se tornou exemplo mundial de regeneração ambiental. Para Salgado, cuidar da terra é também uma forma de cuidar da memória e do futuro.
Pois bem! Na conversa com Bogéa, Salgado dá claras razões para ser, algo assim, “costurada por um fio ético que atravessa toda a obra do fotógrafo”. Ele não busca o espetáculo da miséria, mas a afirmação da vida em meio ao sofrimento. Suas fotografias jamais são voyeurismo; são convites ao compromisso. Cada rosto retratado carrega história, e cada história exige escuta e resposta. Nesse sentido, a lente de Salgado opera como extensão de sua consciência política.
Em sua passagem por Paris, Salgado foi forjado nos debates sobre desigualdade, colonialismo e globalização. Seu trabalho, ao contrário do exotismo eurocêntrico que frequentemente marca a produção ocidental, aponta para uma solidariedade radical. “Ele fotografa o outro como quem reconhece a si mesmo”, diz Bogéa, que consegue, com maestria, trazer à tona a densidade de um pensamento de Salgado, que vai além da técnica.
A matéria que se desenha dessa conversa é um documento raro sobre o Brasil e o mundo. O olhar de Salgado serve como espelho e denúncia. Por isso, essa interseção dialólica, entre ética e arte, revela-se vital num mundo onde o esquecimento é regra e a memória, resistência. Desta forma, a partir de hoje, com autorização direta de Antenor Bogéa, essa entrevista, passa a integrar o acervo da Plataforma Nacional do Facetubes, a fim de que os nossos milhares de leitores/telespectadores tenham a chance de ver, ouvir e aprender com esses dois monstros da cultura universal: é, mais que tudo, um chamado.
VÍDEO-BÔNUS
ANTENOR BOGÉA & SEBASTIÃO SALGADO
Obs: a tradução livre foi feita pela equipe da Plataforma. Portanto, qualquer equívoco, é de nossa responsabilidade.
Texto: Mhario Lincoln, editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.
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