Domingo, 08 de Fevereiro de 2026
16°C 33°C
Curitiba, PR
Publicidade

“DIANTE DE MIM, UM QUADRO NEGRO”. Série Verbo & Vertigem

“Sala de aula de uma escola do EJA em Cururupu. Noite. Depois de uma chuva forte, as aulas devem iniciar. São quase 19h40. Poucos alunos em sala de aula. Dois fumam maconha dentro da sala”.

16/07/2025 às 18h39 Atualizada em 22/07/2025 às 13h26
Por: Mhario Lincoln Fonte: Convidados do Facetubes
Compartilhe:
(Original do texto).
(Original do texto).

CARLOS HUMBERTO LIMA SANTOS, convidado da Plataforma Nacional do Facetubes

Imagine uma cena, tão comum na maioria das salas de aula do Brasil, tanto em escolas particulares quanto nas públicas: um professor de Língua Portuguesa do primeiro ano do Ensino Médio coloca o seu material em cima da mesa e, antes que se sente, por alguns minutos, talvez para fazer a chamada ou para verificar, no livro didático, o assunto a ser trabalhado naquele momento, precisa pedir silêncio, fazer alguns alunos se sentarem, guardarem os celulares, pegarem o livro, abrirem o caderno, etc. Mas, para desespero do docente (ou da docente), uma parcela grande dos discentes não lhe atende e continua com os neurônios voltados para outras atividades.

O desespero bate mais uma vez à cabeça do mestre. O que fazer? Gritar, pedir socorro, sair correndo? Parece cena de um filme estrangeiro, mas acontece diariamente em nossas escolas, seja ela de uma cidade pequena e pobre ou de uma cidade grande e rica, particular ou pública. Vivemos um dos momentos mais desesperadores para uma boa parcela dos professores.

Continua após a publicidade

Não vou me referir aos docentes do ensino superior, dos institutos federais, das escolas militares, entre outras... Seria um outro texto. Vou me deter numa boa parcela dos docentes – os que atuam nas milhares de escolas públicas e particulares deste país e que enfrentam graves problemas tanto de indisciplina, de infraestrutura e de ensino-aprendizagem.

Dar aulas de Língua Portuguesa numa sala com alunos que não fazem silêncio é, para dizer o mínimo, um horror. Em que situação um professor pode fazer a leitura de um poema de Camões, de Olavo Bilac ou de Drummond de Andrade? Como recitar Alma minha gentil que te partiste, sem que uma parte fique em silêncio... Não há a menor possibilidade de um professor iniciar a leitura, seja num livro didático ou num datashow:

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo...” 

E um monte de gente falando:

– Ei, gente, silêncio! O professor quer dar aula. – Berra o Thiago. 

– Ei, Nayara, te cala, pequena. – Ordena o Paulo.

Continua após a publicidade

– Silêncio, gente! – É o coitado que suplica, porque ordenar...  não tem poderes para isso.

Um silêncio... curto, mas é um silêncio...

E a leitura do poema continua... Mas antes que chegue ao último terceto, um aluno pede:

– Professora, posso ir ao banheiro. 

– Não deixa, professora. Ela já foi duas vezes na aula de Heloísa.

– Mentira. Essa pequena é doida, professora. Não liga para ela.

Continua após a publicidade

Resultado: a aluna foi ao banheiro. 

Nova tentativa. Um aluno se levanta e pergunta à professora o que vai cair na prova.

A professora diz que vai falar sobre isso na próxima aula. E Bilac esperando para saber se tem algum aluno querendo saber como se conversa com as estrelas e o que se entende ao se falar com elas...

– E o último verso é este:

“Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

O horário bate... Todos se levantam de uma vez, sem que a professora possa ao menos perguntar o que acharam do soneto...

Uma outra questão grave nas escolas brasileiras é a falta de infraestrutura.

Imagine o leitor a situação de um professor de uma escola em Coroatá, interior do Maranhão, entrando numa sala de aula do nono ano do Ensino Fundamental. 13h10. Calor escaldante. 40 graus na sombra. Vários alunos caminham durante mais de meia hora. Alguns vão de bicicleta. As roupas ensopadas. Ao pôr os livros sobre a mesa, a cena é horripilante. Todos se abanando, para amenizar o calor. O único ventilador da sala está quebrado. Não tem ar condicionado. As janelas estão fechadas. Não é possível abri-las.

O professor decide que deve trazer um texto de Machado de Assis para a primeira aula. A segunda será uma produção de texto. A escola: Apólogo da Agulha e da Linha. Mas, mesmo com 15 cópias tiradas na xérox do armarinho do Godinho, perto da escola, a leitura não flui. 

Termina o primeiro horário, e a coordenadora manda avisar que, por não ter água na escola, não vai ter o segundo horário. Os alunos estão dispensados mais cedo naquele dia. A Agulha ficou dentro da caixinha de costura. A Linha, ensopada, vai presa ao corpo dos alunos e da professora, que, mesmo com a sua Moto Biz, não resistiu às altas temperaturas. E o pior é que nenhum aluno conseguiu ler a lição do Alfinete. Nenhuma equipe concluiu a leitura. A professora se pergunta: Não seria melhor ela ser como o Alfinete? Mas onde trabalhar? Será que como Gari ganharia melhor?

Sala de aula de uma escola do EJA em Cururupu. Noite. Depois de uma chuva forte, as aulas devem iniciar. São quase 19h40. Poucos alunos em sala de aula. Dois fumam maconha dentro da sala. O professor recua um pouco. Devo ou não entrar? Recua. Volta à sala dos professores. Dá mais dez minutos. Passa um aluno com um revólver. Está visível. Meu Deus! O que eu faço. Decide que é hora de enfrentar. Na sala, copia algumas frases criadas na hora, no quadro branco. Depois pede que copiem no caderno, marcando o sujeito.

Espera. Espera. E quando decide percorrer as carteiras ocupadas naquela aula, descobre que só uma aluna, empregada doméstica, conseguiu fazer tudo. Os outros – inclusive os que estavam fumando maconha e o que entrou com o revólver – nem copiaram, que dirá fazer a atividade.

Ele, com vontade de gritar socorro. Não só pelo aluno com o revólver, mas pela situação em que se encontra. É contratado. Não recebe o salário há três meses. Em casa, se não fosse a sogra, até o filhinho de 2 anos estaria passando fome. E para ficar com ódio da vida e da carreira, descobriu que o filho do prefeito, que fez o Ensino Médio junto com ele, ali mesmo em Cururupu, 10 anos atrás, tem uma Hilux nova, automática. E ele... até a moto, velha, teve que vender, porque estava sem dinheiro nenhum. 

Ele dá mais um tempo. Baixa a cabeça. E, quando levanta, leva um susto. Os seus olhos não veem nada escrito no quadro, que não é mais branco. Ele pensa que está com crise de ansiedade. Baixa de novo a cabeça. Esfrega os olhos. Estará míope? Olha de novo. 

Diante de si, há um quadro negro. 

 

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
JaimeHá 7 meses BSB/DFUm artigo reflexivo e muito informativo.
Família Diniz Solano, de professoresHá 7 meses Palmeira dos Índios ALAGOASquero, data venia, parabenizar V. Sia, Dr. Carlos por essa brilhante verdade a nós publicada nesse brilhante portal de literatura. Hoje, so leio esse trabalho. Assim como toda a minha família formada por professores. Todos nós, mãe, pai e dois filhos somos professores e nos orgulhamos disso. Nunca passamos por situação pareceida.
Maurício SouzaHá 7 meses Buenos Aires ARG.Sou formado em eletrotécnico. Nunca passei por uma escola pública. Acho que sei muito mais de que qualquer um que tenha passado por lá. Uma pena ver professores sem a mínima escolarização, mas com grande ideologia política comunista. É uma pena ver isso acontecer (estive ano passado) em meu Estado. Sou de Cururupu-MA e mora hoje em Buenos Aires onde pratico minha profissão de forma tranquila e respeitada. Minha avó, Dona Creuza foi quem me escolarizou.
Feitosa, Luiz. (Passarada)Há 7 meses Alagoas.Em todos os lugares o ensino fundamental evoluiu. No Brasil, de pois de Paulo Freire, foi reduzido a quase zero. Concorda Carlos Humberto?
Maria José AssunçãoHá 7 meses Belém Paráestive em alcântara em 2003 fiquei triste em ver aquele patrimonio abandonado e tomado por foguetes que se errarem o caminho destruirão a bela são luis tsam,bém muito abandonada, dino de alcântara. vocve nasceu mesm o lá?
Mostrar mais comentários
Mostrar mais comentários
Verbo & Vertigem
Sobre o blog/coluna
CONVIDADAS E CONVIDADOS publicam aqui, neste área, suas criações autorais. Ficção, Crônica, Ensaio, Poesia ou Música.
Ver notícias
Curitiba, PR
17°
Tempo nublado

Mín. 16° Máx. 33°

17° Sensação
5.66km/h Vento
96% Umidade
95% (2.11mm) Chance de chuva
05h57 Nascer do sol
07h04 Pôr do sol
Seg 23° 16°
Ter 29° 16°
Qua 31° 16°
Qui 33° 17°
Sex ° °
Atualizado às 23h01
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,22 0,00%
Euro
R$ 6,16 -0,07%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 382,650,75 -1,56%
Ibovespa
182,949,78 pts 0.45%
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Lenium - Criar site de notícias