
CARLOS HUMBERTO LIMA SANTOS, convidado da Plataforma Nacional do Facetubes
Imagine uma cena, tão comum na maioria das salas de aula do Brasil, tanto em escolas particulares quanto nas públicas: um professor de Língua Portuguesa do primeiro ano do Ensino Médio coloca o seu material em cima da mesa e, antes que se sente, por alguns minutos, talvez para fazer a chamada ou para verificar, no livro didático, o assunto a ser trabalhado naquele momento, precisa pedir silêncio, fazer alguns alunos se sentarem, guardarem os celulares, pegarem o livro, abrirem o caderno, etc. Mas, para desespero do docente (ou da docente), uma parcela grande dos discentes não lhe atende e continua com os neurônios voltados para outras atividades.
O desespero bate mais uma vez à cabeça do mestre. O que fazer? Gritar, pedir socorro, sair correndo? Parece cena de um filme estrangeiro, mas acontece diariamente em nossas escolas, seja ela de uma cidade pequena e pobre ou de uma cidade grande e rica, particular ou pública. Vivemos um dos momentos mais desesperadores para uma boa parcela dos professores.
Não vou me referir aos docentes do ensino superior, dos institutos federais, das escolas militares, entre outras... Seria um outro texto. Vou me deter numa boa parcela dos docentes – os que atuam nas milhares de escolas públicas e particulares deste país e que enfrentam graves problemas tanto de indisciplina, de infraestrutura e de ensino-aprendizagem.
Dar aulas de Língua Portuguesa numa sala com alunos que não fazem silêncio é, para dizer o mínimo, um horror. Em que situação um professor pode fazer a leitura de um poema de Camões, de Olavo Bilac ou de Drummond de Andrade? Como recitar Alma minha gentil que te partiste, sem que uma parte fique em silêncio... Não há a menor possibilidade de um professor iniciar a leitura, seja num livro didático ou num datashow:
“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo...”
E um monte de gente falando:
– Ei, gente, silêncio! O professor quer dar aula. – Berra o Thiago.
– Ei, Nayara, te cala, pequena. – Ordena o Paulo.
– Silêncio, gente! – É o coitado que suplica, porque ordenar... não tem poderes para isso.
Um silêncio... curto, mas é um silêncio...
E a leitura do poema continua... Mas antes que chegue ao último terceto, um aluno pede:
– Professora, posso ir ao banheiro.
– Não deixa, professora. Ela já foi duas vezes na aula de Heloísa.
– Mentira. Essa pequena é doida, professora. Não liga para ela.
Resultado: a aluna foi ao banheiro.
Nova tentativa. Um aluno se levanta e pergunta à professora o que vai cair na prova.
A professora diz que vai falar sobre isso na próxima aula. E Bilac esperando para saber se tem algum aluno querendo saber como se conversa com as estrelas e o que se entende ao se falar com elas...
– E o último verso é este:
“Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
O horário bate... Todos se levantam de uma vez, sem que a professora possa ao menos perguntar o que acharam do soneto...
Uma outra questão grave nas escolas brasileiras é a falta de infraestrutura.
Imagine o leitor a situação de um professor de uma escola em Coroatá, interior do Maranhão, entrando numa sala de aula do nono ano do Ensino Fundamental. 13h10. Calor escaldante. 40 graus na sombra. Vários alunos caminham durante mais de meia hora. Alguns vão de bicicleta. As roupas ensopadas. Ao pôr os livros sobre a mesa, a cena é horripilante. Todos se abanando, para amenizar o calor. O único ventilador da sala está quebrado. Não tem ar condicionado. As janelas estão fechadas. Não é possível abri-las.
O professor decide que deve trazer um texto de Machado de Assis para a primeira aula. A segunda será uma produção de texto. A escola: Apólogo da Agulha e da Linha. Mas, mesmo com 15 cópias tiradas na xérox do armarinho do Godinho, perto da escola, a leitura não flui.
Termina o primeiro horário, e a coordenadora manda avisar que, por não ter água na escola, não vai ter o segundo horário. Os alunos estão dispensados mais cedo naquele dia. A Agulha ficou dentro da caixinha de costura. A Linha, ensopada, vai presa ao corpo dos alunos e da professora, que, mesmo com a sua Moto Biz, não resistiu às altas temperaturas. E o pior é que nenhum aluno conseguiu ler a lição do Alfinete. Nenhuma equipe concluiu a leitura. A professora se pergunta: Não seria melhor ela ser como o Alfinete? Mas onde trabalhar? Será que como Gari ganharia melhor?
Sala de aula de uma escola do EJA em Cururupu. Noite. Depois de uma chuva forte, as aulas devem iniciar. São quase 19h40. Poucos alunos em sala de aula. Dois fumam maconha dentro da sala. O professor recua um pouco. Devo ou não entrar? Recua. Volta à sala dos professores. Dá mais dez minutos. Passa um aluno com um revólver. Está visível. Meu Deus! O que eu faço. Decide que é hora de enfrentar. Na sala, copia algumas frases criadas na hora, no quadro branco. Depois pede que copiem no caderno, marcando o sujeito.
Espera. Espera. E quando decide percorrer as carteiras ocupadas naquela aula, descobre que só uma aluna, empregada doméstica, conseguiu fazer tudo. Os outros – inclusive os que estavam fumando maconha e o que entrou com o revólver – nem copiaram, que dirá fazer a atividade.
Ele, com vontade de gritar socorro. Não só pelo aluno com o revólver, mas pela situação em que se encontra. É contratado. Não recebe o salário há três meses. Em casa, se não fosse a sogra, até o filhinho de 2 anos estaria passando fome. E para ficar com ódio da vida e da carreira, descobriu que o filho do prefeito, que fez o Ensino Médio junto com ele, ali mesmo em Cururupu, 10 anos atrás, tem uma Hilux nova, automática. E ele... até a moto, velha, teve que vender, porque estava sem dinheiro nenhum.
Ele dá mais um tempo. Baixa a cabeça. E, quando levanta, leva um susto. Os seus olhos não veem nada escrito no quadro, que não é mais branco. Ele pensa que está com crise de ansiedade. Baixa de novo a cabeça. Esfrega os olhos. Estará míope? Olha de novo.
Diante de si, há um quadro negro.
Mín. 16° Máx. 33°