Segunda, 16 de Março de 2026
18°C 30°C
Curitiba, PR
Publicidade

“Cá entre Nós, Mulheres!”. Por Sharlene Serra

Sharlene Serra é convidada da Plataforma Nacional do Facetubes.

01/03/2026 às 15h53 Atualizada em 01/03/2026 às 16h00
Por: Mhario Lincoln Fonte: Sharlene Serra
Compartilhe:
Sharlene Serra
Sharlene Serra

SHARLENE SERRA, convidada da Plataforma Nacional do Facetubes.

Amanheci pensativa.

E escrever, para mim, alivia.

Continua após a publicidade

Ontem, ao indicar minha diarista, mencionei que ela iria com o filho, pois não tinha rede de apoio. Nenhuma avó disponível, nenhuma creche em tempo integral, ninguém que pudesse cuidar da criança enquanto ela trabalhava.

Antes que eu finalizasse, a recusa veio.

Educada.

Justificada.

Pra ela, socialmente aceitável.

— Com filho??? Que pena! Não tem como.

Continua após a publicidade

A recusa, partiu de outras mulheres.

Mulheres que compreendem, em teoria, os desafios da maternidade. Que conhecem o cansaço, a sobrecarga e a culpa constante imposta às mães.

Ainda assim, disseram não.

E então me  surgiu uma pergunta incômoda, dessas que raramente fazemos em voz alta:

Por que, tantas vezes, são as próprias mulheres que também dificultam o caminho umas das outras?

Gostamos de repetir que estamos mais unidas. Falamos sobre sororidade, apoio feminino, fortalecimento coletivo. Compartilhamos frases bonitas, defendemos causas necessárias e celebramos conquistas históricas.

Continua após a publicidade

Mas, longe dos discursos, existe outra realidade : silenciosa, cotidiana e profundamente social.

 

A desunião feminina quase nunca aparece como ataque direto. Ela se disfarça.

Surge no olhar que mede.

Na crítica fingindo conselho.

Na observação que procura imperfeições antes mesmo de conhecer a outra mulher em sua essência.

No julgamento sem conhecimento prévio.

Há mulheres que invalidam outras antes mesmo que o mundo tente fazê-lo. Que condenam escolhas diferentes. Que culpabilizam vítimas, inclusive diante de violências extremas, quando ainda se pergunta o que ela fez, e a vitima passa a ser a culpada.

Não é rivalidade declarada.

É erosão lenta.

Porque, naquele momento, a falta de apoio falou mais alto que a empatia.

Existe algo doloroso nisso: muitas mulheres aprenderam a sobreviver em estruturas competitivas e, sem perceber, passaram a reproduzi-las entre si.

No caso da diarista, o trabalho lhe foi negado por outras mulheres que viveram, e ainda vivem  a maternidade na própria pele. Mulheres que sabem o quanto o mundo já impõe exigências suficientes a nós e sabendo disso, nós mesmas não precisaríamos acrescentar mais desafios umas às outras. E o que acontece é o contrário.

 

Sabemos que em muitas mulheres existe uma solidão que quase ninguém vê. Ela mora na ausência de apoio familiar, na multiplicidade de papéis assumidos ao mesmo tempo, na mulher que trabalha, materna, organiza, cuida, resolve, sustenta  e, mesmo assim, muitas são julgadas e invisibilizadas.

Para a família,

 sistema.

para o reconhecimento.

E, dolorosamente,  até para outras mulheres.

Isso é real,   não apenas enfrentando barreiras sociais, mas também disputamos espaços emocionais que deveriam ser compartilhados.

Porque enquanto uma tenta apenas sobreviver ao dia, outra observa, compara, julga, questiona.

 

A solidão feminina não nasce apenas da ausência e invalidação dos homens, mas também da falta de acolhimento entre nós mulheres

E este texto ecoou em mim e  nasceu desta inquietação, da diarista que foi recusada por outra mulher-mãe e eu,  como mulher e como mãe que tantas vezes precisei seguir nos espaços literários com meus filhos pequenos, imaginei como estaria hoje, se eu não tivesse insistido permanecer, onde muitas sem forças, desistem.

Talvez a mudança comece quando entendermos que nenhuma mulher precisa provar valor o tempo inteiro, nem competir por espaço, nem justificar sua existência.

Entre nós, mulheres, o mínimo deveria ser o acolhimento.

 

Porque o mundo já nos cobra força demais.

Que ao menos entre nós exista verdade no discurso.

Que a união não seja apenas palavra bonita em datas simbólicas.

Que o apoio não aconteça somente entre situações confortáveis.

Que possamos reconhecer a dor da outra sem comparação,

a luta da outra sem julgamento,

o caminho da outra sem desconfiança.

Que entre nós haja escuta antes da crítica.

Empatia antes da opinião.

Humanidade antes da exigência.

Talvez a mudança comece quando entendermos que fortalecer outra mulher não ameaça espaço algum, amplia caminhos.

E que, às vezes, o gesto mais transformador não está nos discursos que repetimos, mas na porta que decidimos não fechar para que nenhuma mulher, seja ela, diarista, mãe, trabalhadora, sonhadora,  precise atravessar sozinha a solidão de fazer tudo e ainda assim não ser vista e pior, ser julgada e criticada por outras mulheres,  simplesmente por  querer existir.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Sidnei Manoel FerreiraHá 2 semanas São José/SCTexto sensacional! Parabéns, Sharlene!!!
Marisa SantoroHá 2 semanas SPAcho que joguei fora meus argumentos. Penso que as pessoas que vem aqui comentar, não comentam, elogiam apenas a autora. Esse assunto é importantíssimo, mas não entenderam o âmago da importância do tema sociológico e atual. Portanto, chego ao final, mas deixo um elogio a autora que aliás é linda. Vim para discutir sociologicamente e cientificamente so tema. Mas vi que sou única. Saindo....
IRAMIR ALVES ARAUJOHá 2 semanas São LuísMuito boa reflexão, Sharlene. Se as mulheres não se apoiarem umas às outras, não tem como esperar que a sociedade machista o faça.
Renata BarbosaHá 2 semanas PARANAGUA -PRDia 8 esta chegando, Sharlene parabéns pela coragem e de nis fazer pensar sobre. Uma pauta interessante para diálogos. Vamos conversar Já te achei no insta. Parabéns pelo seu trabalho.
Profa. Dra. Jandira Marluce Ferreira da Costa.Há 2 semanas Brasília DFÔ Débora, em que parte da discussão você está? "Há mulheres que não suportam a felicidade da outra.". Acho que a discussão tem que ser científica, sociológica, de alto nível que o próprio texto provocou. Agora essa frase bem aí, tenha paciência, está completamente fora do contexto. Acho que aqui nesta tribuna, não cabem discussões paralelas de candinhas, sentada à porta das casas, em calçada alta. Com essa eu peço pra sair.
Mostrar mais comentários
Mostrar mais comentários
Verbo & Vertigem
Sobre o blog/coluna
CONVIDADAS E CONVIDADOS publicam aqui, neste área, suas criações autorais. Ficção, Crônica, Ensaio, Poesia ou Música.
Ver notícias
Curitiba, PR
21°
Tempo nublado

Mín. 18° Máx. 30°

22° Sensação
3.6km/h Vento
90% Umidade
68% (0.39mm) Chance de chuva
06h18 Nascer do sol
06h32 Pôr do sol
Ter 30° 16°
Qua 30° 17°
Qui 27° 16°
Sex 28° 16°
Sáb 30° 14°
Atualizado às 21h01
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,23 +0,02%
Euro
R$ 6,01 -0,10%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 415,836,52 +0,96%
Ibovespa
179,875,44 pts 1.25%
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Lenium - Criar site de notícias