
SHARLENE SERRA, convidada da Plataforma Nacional do Facetubes.
Amanheci pensativa.
E escrever, para mim, alivia.
Ontem, ao indicar minha diarista, mencionei que ela iria com o filho, pois não tinha rede de apoio. Nenhuma avó disponível, nenhuma creche em tempo integral, ninguém que pudesse cuidar da criança enquanto ela trabalhava.
Antes que eu finalizasse, a recusa veio.
Educada.
Justificada.
Pra ela, socialmente aceitável.
— Com filho??? Que pena! Não tem como.
A recusa, partiu de outras mulheres.
Mulheres que compreendem, em teoria, os desafios da maternidade. Que conhecem o cansaço, a sobrecarga e a culpa constante imposta às mães.
Ainda assim, disseram não.
E então me surgiu uma pergunta incômoda, dessas que raramente fazemos em voz alta:
Por que, tantas vezes, são as próprias mulheres que também dificultam o caminho umas das outras?
Gostamos de repetir que estamos mais unidas. Falamos sobre sororidade, apoio feminino, fortalecimento coletivo. Compartilhamos frases bonitas, defendemos causas necessárias e celebramos conquistas históricas.
Mas, longe dos discursos, existe outra realidade : silenciosa, cotidiana e profundamente social.
A desunião feminina quase nunca aparece como ataque direto. Ela se disfarça.
Surge no olhar que mede.
Na crítica fingindo conselho.
Na observação que procura imperfeições antes mesmo de conhecer a outra mulher em sua essência.
No julgamento sem conhecimento prévio.
Há mulheres que invalidam outras antes mesmo que o mundo tente fazê-lo. Que condenam escolhas diferentes. Que culpabilizam vítimas, inclusive diante de violências extremas, quando ainda se pergunta o que ela fez, e a vitima passa a ser a culpada.
Não é rivalidade declarada.
É erosão lenta.
Porque, naquele momento, a falta de apoio falou mais alto que a empatia.
Existe algo doloroso nisso: muitas mulheres aprenderam a sobreviver em estruturas competitivas e, sem perceber, passaram a reproduzi-las entre si.
No caso da diarista, o trabalho lhe foi negado por outras mulheres que viveram, e ainda vivem a maternidade na própria pele. Mulheres que sabem o quanto o mundo já impõe exigências suficientes a nós e sabendo disso, nós mesmas não precisaríamos acrescentar mais desafios umas às outras. E o que acontece é o contrário.
Sabemos que em muitas mulheres existe uma solidão que quase ninguém vê. Ela mora na ausência de apoio familiar, na multiplicidade de papéis assumidos ao mesmo tempo, na mulher que trabalha, materna, organiza, cuida, resolve, sustenta e, mesmo assim, muitas são julgadas e invisibilizadas.
Para a família,
sistema.
para o reconhecimento.
E, dolorosamente, até para outras mulheres.
Isso é real, não apenas enfrentando barreiras sociais, mas também disputamos espaços emocionais que deveriam ser compartilhados.
Porque enquanto uma tenta apenas sobreviver ao dia, outra observa, compara, julga, questiona.
A solidão feminina não nasce apenas da ausência e invalidação dos homens, mas também da falta de acolhimento entre nós mulheres
E este texto ecoou em mim e nasceu desta inquietação, da diarista que foi recusada por outra mulher-mãe e eu, como mulher e como mãe que tantas vezes precisei seguir nos espaços literários com meus filhos pequenos, imaginei como estaria hoje, se eu não tivesse insistido permanecer, onde muitas sem forças, desistem.
Talvez a mudança comece quando entendermos que nenhuma mulher precisa provar valor o tempo inteiro, nem competir por espaço, nem justificar sua existência.
Entre nós, mulheres, o mínimo deveria ser o acolhimento.
Porque o mundo já nos cobra força demais.
Que ao menos entre nós exista verdade no discurso.
Que a união não seja apenas palavra bonita em datas simbólicas.
Que o apoio não aconteça somente entre situações confortáveis.
Que possamos reconhecer a dor da outra sem comparação,
a luta da outra sem julgamento,
o caminho da outra sem desconfiança.
Que entre nós haja escuta antes da crítica.
Empatia antes da opinião.
Humanidade antes da exigência.
Talvez a mudança comece quando entendermos que fortalecer outra mulher não ameaça espaço algum, amplia caminhos.
E que, às vezes, o gesto mais transformador não está nos discursos que repetimos, mas na porta que decidimos não fechar para que nenhuma mulher, seja ela, diarista, mãe, trabalhadora, sonhadora, precise atravessar sozinha a solidão de fazer tudo e ainda assim não ser vista e pior, ser julgada e criticada por outras mulheres, simplesmente por querer existir.
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