
RENATA BARCELLOS
Um dos antecessores e inspiradores da poesia abolicionista foi Fagundes Varela. É um dos maiores expoentes da poesia brasileira da Segunda Geração do Romantismo Brasileiro. É patrono da cadeira n.º 11 da Academia Brasileira de Letras (ABL). Você se lembra de tê-lo estudado na Educação Básica? Quem é professor de literaturas, estudou-o ao longo da licenciatura?
Uma das pesquisadoras deste autor é Teresinha da Rocha Pereira (Cidade: Rio Claro – RJ): mestra em Língua Portuguesa (UERJ), especialista em Linguística Aplicada e Leitura e Produção Textual, professora de Língua Portuguesa no Colégio Estadual Fagundes Varela e na Prefeitura Municipal de Rio Claro-RJ, cidade natal do poeta Fagundes Varela, escritora, pesquisadora e produtora cultural, com foco na valorização das literaturas brasileiras, especialmente na divulgação da vida e da obra de Fagundes Varela, autora do livro Entre o Campo e a Cidade: um Percurso pela Poesia de Fagundes Varela, obra que investiga a dualidade entre o rural e o urbano na poesia do autor, servindo como base para ações educativas e culturais e diversas cidades. Meu trabalho une pesquisa literária, práticas pedagógicas e inovação digital, promovendo experiências multimodais com a obra de Fagundes Varela em formatos contemporâneos como posts, memes, podcasts, reels e outros gêneros textuais digitais. Com forte atuação nas escolas e nas redes sociais, busco aproximar o patrimônio imaterial de Rio Claro das novas gerações, mostrando como a poesia pode dialogar com o presente, estimular a criação autoral e fortalecer a identidade local.
Biografia de Fagundes Varela
Luís Nicolau Fagundes Varela nasceu na cidade de São João Marcos, atual município de Rio Claro (RJ), no dia 17 de agosto de 1841, onde viveu grande parte de sua infância. Seus progenitores pertenciam às famílias fluminenses abastadas. Seu pai, Emiliano Fagundes Varela era juiz e, por isso, Fagundes residiu em vários lugares do país. Primeiro em Goiás, e depois em cidades do estado do Rio de Janeiro (Angra dos Reis e Petrópolis) onde completou seus estudos.
Em 1852, entra para o curso de Direito no Largo São Francisco, em São Paulo. Entretanto, abandona-o e dedica-se à literatura. Em 1861, publica sua primeira obra poética intitulada “Noturnas”. Casou-se duas vezes, primeiro aos vinte anos com Alice Guilhermina Luande (artista circense) com quem tem um filho que falece com apenas 3 meses. Com a morte de seu filho e mais tarde de sua esposa (1966), inicia uma fase cada vez mais boêmia e criativa, muda-se para Recife, retorna à capital paulista, e, por fim, volta a morar com o pai e casa-se novamente. Dessa vez com uma prima com que tem duas filhas e um filho – chamado Emiliano, como o primogênito, que também morreu precocemente. O autor termina sua vida morando em casas de parentes, entre muitas bebedeiras na noite.
Apesar de sua obra ser majoritariamente marcada pelo pessimismo e pela melancolia, ele também expressou críticas sociais e denúncias contra a escravidão. Isso o tornou um nome importante na poesia social e abolicionista brasileira. Entretanto, está “apagado” nas instituições literárias e no ensino da Educação Básica à Superior. De acordo com a pesquisadora Teresinha da Rocha Pereira, “antes mesmo de Castro Alves, o poeta já abordava essa temática. No meu livro, abordo justamente esse aspecto precursor da obra de Varela. Em seu poema “Bahia”, pertencente ao livro Cantos Meridionais, ele se espanta com a contradição entre a beleza natural e histórica da cidade e a mancha cruel da escravidão que a corrompe. Esse choque é apresentado com força poética, revelando um olhar crítico e indignado. Para ele, não era possível louvar a Bahia sem também denunciar o sofrimento humano que ali coexistia com a paisagem deslumbrante. Além desse poema, outros textos como “O Escravo” e “Mauro, escravo” reafirmam o compromisso do poeta com a causa abolicionista, bem antes de Castro Alves consolidar essa vertente em nossa lírica social. Varela foi um dos pioneiros neste percurso poético-político, dando voz ao escravizado e denunciando o sistema escravocrata com sensibilidade e contundência. Portanto, é fundamental reconhecer seu papel como antecessor e inspirador do que viria a ser a chamada poesia abolicionista. Sua obra merece ser revisitada, relida e revalorizada à luz dessas contribuições precoces e corajosas”.
Bahia, terra das artes!
“Terra do amor e da gloria!
Quão grandes foras na História
Quão grande com teus brasões.
Se fronte não to luzissem
Aos diamantes misturados
Os prantos cristalizados
De cativas multidões”.
Dessa forma, seus poemas abolicionistas, como "O Escravo", denunciam a violência e a crueldade da escravidão, clamando por liberdade e igualdade. O poema "Mauro, o Escravo" de Fagundes Varela foi publicado em 1864. Ele faz parte do livro "Vozes da América", presente nas "Obras completas" do autor, publicadas em 1920. A seguir um fragmento deste texto:
XXV
“E Mauro calou-se. Mais frio que a morte,
Mais trêmulo que os juncos ao sopro do norte,
À viva ironia Lotário abalou-se.
— Afastem-no!... Afastem-no! ergueu-se rugindo,
E a turba dos servos o escravo impelindo
Em poucos instantes da sala afastou-se”.
Antes do autor, o tema da escravidão foi tratado desde o início das literaturas brasileiras. Foi recorrente na Barroco, tanto em Portugal quanto no Brasil, refletindo as tensões sociais e religiosas da época. Autores como Gregório de Matos e Padre Antônio Vieira abordaram a temática, muitas vezes, com visões críticas e contrastantes. Já, no Arcadismo, o assunto não é central como em movimentos literários posteriores, mas autores como Basílio da Gama em "O Uraguai" e Tomás Antônio Gonzaga em "Marília de Dirceu" abordam a questão de forma indireta ou em contextos específicos. "O Uraguai" critica a violência e a exploração dos povos indígenas, que podem ser relacionadas à escravidão, enquanto "Marília de Dirceu" menciona a escravidão de forma pontual, mas sem aprofundá-la. Na Primeira Fase do Romantismo, Gonçalves Dias também abordou a temática da escravidão em sua obra, especialmente no poema "A Escrava" (publicado no livro Primeiros Cantos, em 1846) e a prosa "Meditação" (publicada pela primeira vez em 1846, como parte da obra "Primeiros Cantos". Posteriormente, um trecho foi publicado na Revista Guanabara em 1850, e o texto completo foi incluído em "Obras Póstumas" de 1869). Nesses textos, ele critica a escravidão e aponta para os males que ela causa à sociedade brasileira. Assim, demonstrando uma visão mais ampla sobre a escravidão do que a de outros românticos.
Na sequência, em 1859, Maria Firmina dos Reis publica Úrsula, primeiro romance escrito por uma mulher negra no Brasil. Neste, denuncia a escravidão. A autora se destacou por sua escrita abolicionista, que se tornou mais intensa em "A Escrava”, conto publicado em 1887, na Revista Maranhense, na qual aborda a temática da escravidão no Brasil, com foco na experiência da mulher escravizada. A narrativa é contada por uma senhora branca que acompanha a fuga de Joana (uma escrava) e de seu filho Gabriel no qual expõe a crueldade do sistema escravista e a luta dos abolicionistas. Assim, Maria Firmina dos Reis expõe a crueldade da escravidão, a exploração da mulher negra e a luta pela liberdade, com foco na experiência da escrava e na coragem dos abolicionistas. A obra, publicada em um contexto de crescente movimento abolicionista, ressalta a importância da luta pela libertação dos escravizados e o sofrimento daqueles que viviam sob o jugo da escravidão. Só depois de Maria Firmina dos Reis e de Fagundes Varela, surge a obra Navio Negreiro do escritor baiano romântico Castro Alves (1847-1871), publicada em 1869, poesia abolicionista, na qual o autor aborda o tema da escravidão no Brasil. E, em 1883, o “poeta dos escravos” tem reunida (postumamente) os poemas em “Os Escravos”. E ainda nesta Terceira Geração do Romantismo Luiz Gama com seus artigos e textos em jornais como o "Correio Paulistano" também foram importantes ferramentas de combate à escravidão, com publicações datando de 1867 e outros anos. Também a obra "Liberdade", publicada entre 1880 e 1882, que reunia seus escritos abolicionistas.
Para ratificarmos como o poeta Fagundes Varela reafirmou o compromisso com a causa abolicionista, bem antes de Castro Alves consolidar essa vertente em nossa lírica social, entrevistamos a pesquisadora Teresinha da Rocha Pereira.
1. O que a motivou a estudar Fagundes Farela? Teresinha da Rocha Pereira: Tenho algumas razões centrais: a importância do poeta como expressão poética de Rio Claro – RJ e meu gosto pela literatura. Desde os tempos da escola primária, eu ouvia falarem do poeta. Havia a "Semana Fagundes Varela". E então havia recitais, brincadeiras, recreios longos, doces, balas, sanduíches, sucos... Fui crescendo adoçada pela poesia de Varela. Sentia-me, e ainda me sinto, orgulhosa por pertencer à cidade do poeta Fagundes Varela. O que é Rio Claro diante das outras grandes cidades? Mas a nossa Rio Claro é imensa por ter o poeta Varela como pilar. Rio Claro é a cidade da palavra. E eu, como professora, levo adiante esse legado literário, como professora e como humilde escritora. Essas são as minhas motivações.
2. Quais são os fatos desconhecidos sobre o autor? Teresinha da Rocha Pereira: Os estudiosos de Varela fizeram um levantamento exaustivo sobre a vida e a obra do poeta. Mas ainda há espaço para alguns temas que merecem estudo mais aprofundado. Cito dois exemplos. O primeiro é o fato de que a irmã de Varela também era poeta. Ela publicou o livro intitulado Cantos Religiosos, com poemas seus e do irmão. Discutir o lugar do homem e da mulher na literatura oitocentista, a partir dessa obra, pode ser bastante proveitoso para o público. Outro viés de estudo que merece análise é o lugar da cidade na poesia de Fagundes Varela. O século XIX foi o século das cidades, e o poeta reflete sobre isso, por exemplo, no livro Cantos Meridionais. Além disso, poucos sabem, mas Varela foi um grande leitor de Baudelaire, poeta que refletiu sobre as cidades em seu livro As Flores do Mal. É provável que a influência de Baudelaire esteja presente na poesia de Varela que tem como tema a cidade.
3. Comente a assertiva: Embora seja um dos maiores expoentes da segunda geração do Romantismo, hoje, as instituições de ensino quase não o trabalham e nem são propostas questões de concurso. Teresinha da Rocha Pereira: Há muitos equívocos quanto à poesia de Fagundes Varela. Embora ele não apareça, atualmente, em alguns vestibulares e nos livros didáticos, o fato é que figura na historiografia literária brasileira como um dos grandes nomes. Mas a questão é ampla. Para falar de modo simplificado, o apagamento da poesia de Varela não é um caso isolado e está intimamente ligado a um contexto em que a literatura, a música, o teatro, a pintura, entre outras artes, vêm perdendo espaço como linguagens legítimas. Embora o discurso da BNCC acene favoravelmente à valorização das artes, a realidade é que os chamados livros didáticos não seguem, de fato, esse caminho. Como professora, percebo que a literatura brasileira, vista sob uma perspectiva clássica, canônica, perdeu força. Poetas de grande peso, como Gonçalves Dias e Castro Alves, desapareceram de vários materiais didáticos. Infelizmente, a proposta de unir o antigo e o novo no ensino da Língua Portuguesa e da Literatura perdeu-se. No entanto, como reformas educacionais acontecem de tempos em tempos no Brasil, é possível que, futuramente, esses autores hoje parcial ou totalmente esquecidos voltem a ser considerados. Esta questão já foi estudada. Existem, inclusive, teses de doutorado que abordam o tema da escravidão na literatura brasileira, por isso imaginei que não se tratasse exatamente de uma novidade.
Para finalizar, um pensamento de Teresinha da Rocha Pereira: “Sua obra merece ser revisitada, relida e revalorizada à luz dessas contribuições precoces e corajosas... Tem muita coisa desconhecida. Tem a poesia nacionalista , religiosa, a visão dele da mulher. Cada temática dessa é um estudo diferenciado. Eu fico abismada como um rapaz tão jovem conseguiu produzir em tão pouco tempo , uma obra tão ampla”.
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