Renata Barcellos (BarcellArtes)
Diante das últimas estatísticas, entre os anos de 2017 e 2018, foram registrados (de acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública) mais de 82.000 casos de desaparecimento/ano. Apesar da gravidade, é estarrecedora a realidade: a taxa de desaparecimento de pessoas é maior do que a de agressão seguida de morte. E, mesmo diante de tal cenário, este problema social não é quase discutido neste país. ABSURDO!!!
Sempre me interessei pelo tema. E é um dos cogitados para o Enem deste ano. Durante as aulas desta semana, ocorreu-me a ideia de pesquisar nas literaturas autores que trataram do assunto. Cabe ressaltar que, ao ser abordado o desaparecimento de pessoas, frequentemente, explora-se a angústia da busca, o luto suspenso e o mistério, seja em contextos políticos (desaparecimento forçado) seja em tramas policiais e pessoais. Nesta matéria, listaremos alguns textos literários, romances e contos que tratam o tema.
Antes de abordarmos as obras literárias, cabe ressaltar que o Brasil registrou 80.317 casos de desaparecimentos em 2023, um aumento de 3,2% em relação ao ano anterior, de acordo com o Anuário da Segurança Pública. Este número evidencia os desafios que o país ainda enfrenta em relação a esses casos.
Em 2018, foi criado o Sistema Único de Segurança Pública (Susp). É uma tentativa para aprimorar as investigações. Mas enfrenta dificuldades em sua implementação.
Atualmente, uma das ferramentas bem-sucedidas é o Alerta Amber. Trata-se de um sistema de alerta criado nos Estados Unidos para divulgar amplamente informações sobre desaparecimentos de crianças em situações de risco iminente. Foi implementado em vários países, incluindo o Brasil. É essencial na rápida localização de crianças desaparecidas.
Já o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) lançou a campanha “Não Espere 24h”. Esta é direcionada à conscientização sobre o desaparecimento de crianças. A iniciativa visa desmistificar a crença de que é necessário aguardar 24 horas para registrar a ocorrência. Quanto mais rápido o caso for comunicado, mais eficaz será a busca.
Segundo a ONU, milhões de crianças e adolescentes desaparecem todos os anos. Muitas vezes, vítimas de tráfico humano e outras formas de exploração.
No Brasil, foram implementadas algumas legislações:
1. Lei nº 13.812/2019 – Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas
Esta lei institui o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, estabelecendo diretrizes para a busca e localização de pessoas desaparecidas no Brasil, com foco especial em crianças e adolescentes.
2. Constituição Federal de 1988 – Artigo 227
Este artigo da Constituição Brasileira estabelece que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde e à segurança, o que inclui a proteção contra o desaparecimento.
3. Agenda 2030 da ONU
Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) incluem metas para reduzir a violência e proteger crianças e adolescentes, destacando a importância de combater o desaparecimento infantil como parte da segurança global.
4. Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA): Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, que garante os direitos das crianças e adolescentes, incluindo a proteção contra o desaparecimento.
A seguir, algumas obras das Literaturas Brasileiras e Latino-Americanas:
"O Desaparecimento de Luísa Porto" (Carlos Drummond de Andrade, 1948): um dos primeiros textos literários brasileiros a tratar o tema do sumiço inexplicável.
Datiloscritos (Manuscritos, 1977) Desaparecidos: a maioria das páginas originais produzidas por Clarice Lispector em sua máquina de escrever portátil, incluindo romances marcantes como "A Hora da Estrela" e "A Maçã no Escuro", está desaparecida. Apenas os originais de "Água Viva" e do conto "A Bela e a Fera" estão preservados na Fundação Casa de Rui Barbosa. No entanto, um datiloscrito original de "A Hora da Estrela" foi leiloado por R$ 375 mil em abril de 2026, indicando que algumas peças reaparecem em coleções privadas.
Personagens e a Temática do Desaparecimento: A obra de Clarice frequentemente aborda a invisibilidade e o desaparecimento do "eu", com a personagem Macabéa (A Hora da Estrela) sendo citada como exemplo de quem desaparece em uma sociedade que valoriza apenas a performance e a comunicação padronizada.
Conto "Onde Estivestes de Noite": a Sra. Jorge B. Xavier, personagem do conto de mesmo nome, narra uma experiência de estar em um lugar sem saber como entrou, explorando o "subterrâneo" do Maracanã.
“A Casa dos Espíritos" (Isabel Allende, 1982): aborda os desaparecimentos forçados no contexto dos conflitos políticos latino-americanos.
"Mongólia" (Bernardo Carvalho, 2003): narra a investigação do desaparecimento de um fotógrafo brasileiro no interior da Mongólia, focando na figura do investigador e nas ambiguidades do sumiço.
"O dia em que Luca não voltou" (Luís Dill, 2009): um livro infanto-juvenil que narra, com sensibilidade, o desaparecimento misterioso de Luca, um adolescente de classe média alta que some após a escola. Narrado por Everaldo, filho da empregada da família, a obra aborda a angústia familiar, desigualdade social e a violência urbana no Brasil.
"K. Relato de uma busca" (Bernardo Kucinski, 2011): um romance comovente baseado em fatos reais sobre a busca de um pai por sua filha, desaparecida durante a ditadura militar brasileira nos anos 70.
"Palavras cruzadas" (Guiomar de Grammont, 2015): também focado na busca por familiares desaparecidos durante a ditadura militar.
"O Desaparecimento de Stephanie Mailer" (Joël Dicker, 2018): um thriller que começa com o desaparecimento de uma jornalista que afirma que a polícia errou na investigação de um assassinato 20 anos antes.
O romance Outono (Lucília Garcez, 2018): Ângela, paisagista e leitora voraz, conhece Francisco, dono da nova livraria do bairro, e se vê novamente numa relação amorosa depois de anos da perda do marido, Danilo, desaparecido político durante a ditadura militar. Em flashbacks, ela relembra os momentos tenebrosos vividos pelo país e sentidos na própria pele, enquanto tenta superar o passado para viver plenamente o presente.
“Enola Holmes: o caso do marquês desaparecido”(Nancy Springer, 2020): Quando a menina completa seus quatorze anos, sua mãe desaparece deixando apenas alguns presentes, dentre eles um caderno de mensagens cifradas. Enola sabendo que sua mãe gosta de anagramas tenta descobrir o motivo de seu desaparecimento e decide enviar uma carta para seus dois irmãos, Sherlock Holmes e Mycroft Holmes que já não via a anos, contando-os do desaparecimento de sua mãe.
"Desaparecidos" (Milton Fonseca, 2022): romance que narra a busca de um pai por seu filho de dez anos, investigando casos de desaparecimentos com padrões peculiares.
"Pessoas desaparecidas, lugares desabitados" (Alexandre Arbex, 2023): a coletânea de contos mistura a realidade com situações insólitas, explorando o desaparecimento tanto físico quanto metafísico.
"Poema do desaparecimento" (Laura Liuzzi, 2024): obra poética onde o próprio conceito de presença e o desaparecimento do autor/sujeito são explorados.
"Garota, Desaparecida" (Blake Pierce, 2025): suspense policial focado na investigação de desaparecimentos e perfis psicológicos.
"Uma Ausência Organizada: Ninguém Desaparece Sozinho" (Marcos Rogerio, 2026): romance que explora o desaparecimento de uma irmã e o impacto do silêncio coletivo da comunidade sobre a busca.
Literaturas de Não-Ficção / True Crime
"Cadê você: desaparecimentos de pessoas" (Dijaci David de Oliveira, 1999): obra que analisa o fenômeno dos desaparecimentos no Brasil, focando em aspectos sociais e violência.
"Desaparecidos: histórias verdadeiras e misteriosas" (Esther Hervy, 2023): relatos reais de pessoas que sumiram sem deixar rastros, analisando as várias hipóteses para cada caso.
Vale ressaltar que, frequentemente, as literaturas contemporâneas utilizam personagens de pessoas desaparecidas para explorar traumas, luto suspenso e a falha de memória, especialmente no contexto da Ditadura Militar brasileira e violência social.
Principais aspectos do desaparecimento nas Literaturas:
Ditadura Militar Brasileira: obras como K. Relato de uma busca (de Bernardo Kucinski, 2014) e Outono (de Lucília Garcez, 2018) retratam o desaparecimento forçado como uma estratégia de extermínio que destrói não apenas a vítima, mas também a sanidade dos familiares que buscam respostas.
A "Ausência" como Protagonista: em muitas narrativas, o personagem desaparecido é o centro da história, mesmo sem aparecer, moldando o comportamento e a psicologia daqueles que ficaram.
O Desaparecido Vivo: o conceito aborda o trauma contínuo dos familiares, onde o luto é impossibilitado pela falta de um corpo ou confirmação de morte.
Estilo e Temática: autores como Bernardo Carvalho exploram o desaparecimento como uma marca estilística, representando a dissolução de sentidos e a dificuldade de narrar a realidade contemporânea.
Essas narrativas funcionam como um contraponto ao silenciamento, transformando o trauma pessoal em memória coletiva. É preciso debater o assunto e propor a leitura destas e de outras obras nas instituições de ensino. Diga NÃO ao desaparecimento de pessoas!!!!
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