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“Devagar com o andor que o Santo é de Barro”. O que realmente quer dizer esse ditado Nordestino? 

Explora-se a sabedoria do ditado “devagar com o andor, que o santo é de barro”, comparando-o a pensamentos filosóficos – de máximas clássicas à ciência contemporânea – e a princípios psiquiátricos atuais que enfatizam a cautela diante da fragilidade humana. 

21/07/2025 às 14h40
Por: Mhario Lincoln Fonte: Editoria de Literatura e Arte do Facetubes
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Arte: MHL/GINai
Arte: MHL/GINai

Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional Facetubes c/ a correspondente na Inglaterra, Dra. Flora Guilhonm
Trad: livre

 

Em todo o Nordeste brasileiro, o conselho “Devagar com o andor que o santo é de barro” ressoa como um lembrete popular de prudência. A frase conjura a cena de uma procissão em que se carrega um santo de barro sobre um andor: se os passos forem rápidos ou bruscos demais, o santo – sendo de barro – pode cair e estilhaçar-se. Em sentido figurado, aconselha moderação e cuidado ao conduzir situações delicadas, pois mesmo aquilo que reverenciamos (o “santo”) pode revelar-se vulnerável e quebradiço. 

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Em outras palavras, por mais sagrada ou importante que seja uma empreitada, convém ir devagar, com respeito aos limites, para não “quebrar o santo” no trajeto. Essa sabedoria simples encontra eco em diversas tradições filosóficas ao longo da história. Os romanos diziam “festina lente” – apressa-te devagar – oxímoro atribuído ao imperador Augusto que recomenda trabalhar com rapidez porém sem pressa, privilegiando a precisão cuidadosa em vez da afobação irrefletida.

A mesma ideia permeia a virtude grega da phronesis, ou prudência, exaltando o equilíbrio entre agir e refrear-se. Filósofos estóicos e aristotélicos viam na cautela uma qualidade cardinal: nossas ações devem considerar a fragilidade inerente da vida humana. Afinal, nada garante que uma boa intenção apressada não resulte em desastre – como alertam tantas tragédias clássicas. 

Nesse sentido, “devagar com o andor” equivale a lembrar que, sob a casca da ambição ou da confiança excessiva, há fragilidades estruturais que só o cuidado atento pode resguardar. Até mesmo na linguagem bíblica aparece imagem semelhante: carregar ídolos de pés de barro – símbolos de fundações frágeis encobertas por aparências de solidez. Em suma, a filosofia há muito reconhece que apressar o passo pode significar pisar em terreno quebradiço, e a inteligência está em saber a hora de abrandar o ritmo. 

Na modernidade, o ditado nordestino ganha relevância renovada em contextos variados. Na ciência, por exemplo, o físico e ensaísta Peter Schulz invoca justamente essa expressão para criticar o fetiche pela novidade a qualquer custo. Ele observa que o progresso científico, embora empolgante, precisa ser conduzido com passo cauteloso: “as notícias não lembram que o andor [da ciência] precisa ir devagar, pois os santos a serem apreciados [...] são de barro”. Ou seja, mesmo descobertas celebradas devem ser tratadas com reserva, pois podem revelar fragilidades antes de se firmarem como verdades. Schulz adverte que quando fazem a ciência “correr demais, o bicho pode pegar” – uma forma coloquial de dizer que excessos de velocidade e hype científico podem levar a erros, fraudes ou decepções. 

Essa perspectiva filosófica contemporânea reforça o valor da moderação: a procissão do conhecimento, tal qual uma procissão religiosa “mineira” (lenta e cuidadosa), deve avançar passo a passo, sob risco de derrubar seus santos de barro no chão da realidade. No âmbito da psicologia e da psiquiatria, a mesma lógica de cautela diante da fragilidade é amplamente reconhecida e fundamentada. Desde Hipócrates, pai da medicina, vigora o princípio ético de primum non nocere – primeiro, não causar dano. Em outras palavras, antes de buscar curar, é preciso garantir que não se cause mal.

Arte:Ginai

Esse ensinamento milenar permanece atual: qualquer intervenção capaz de ajudar também carrega o potencial de ferir. De fato, pesquisas clínicas indicam que tratamentos em saúde mental podem piorar o estado de até 10% dos pacientes, em vez de melhorar. Diante desse dado alarmante, psiquiatras e psicólogos enfatizam a necessidade de ir “devagar com o andor” terapêutico – isto é, avançar gradualmente, com respeito aos limites de cada indivíduo. Procedimentos muito abruptos ou agressivos podem “destroçar o santo”, aqui figurado pela psique humana em sofrimento. 

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Abordagens modernas na psiquiatria incorporam explicitamente essa noção de prudência individualizada. Em face da complexidade do sofrimento psíquico, bons profissionais reconhecem que cada paciente é único e delicado, exigindo um ritmo e um manejo sob medida. 

Um estudo publicado na Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental conclui que a terapêutica deve levar em conta essa natureza complexa, gerando “mais cautela e individualização no que diz respeito às abordagens terapêuticas”. Ou seja, nada de fórmulas universais aplicadas de forma apressada, pois o cuidador da saúde mental precisa calibrar suas intervenções como quem carrega um tesouro frágil. 

Os manuais diagnósticos e protocolos são guias, mas não dispensam a sensibilidade de perceber quanta carga emocional um paciente suporta de cada vez. Na prática clínica, essa filosofia se traduz em medidas como iniciar tratamentos de forma gradual, dosar revelações e confrontações em psicoterapia a conta-gotas e monitorar atentamente as reações do paciente antes de prosseguir. Tal postura prudente evita iatrogenias – danos causados pelo próprio tratamento – e honra a vulnerabilidade daquele que busca ajuda. 

Vale ressaltar que a metáfora do santo de barro também ilumina uma dimensão humana profunda, isto é,  a disparidade entre nossas idealizações e a realidade subjacente. Muitos de nós tendemos a colocar pessoas, projetos ou crenças num pedestal, atribuindo-lhes solidez inabalável – seja um líder carismático, um relacionamento amoroso ou uma visão de mundo. 

O ditado nordestino usado desde os tempos anteriores aos nossos avós, lembra, porém, que por trás de toda idealização há uma natureza terrestre, sujeita a imperfeições. Psicologicamente, isso ressoa com conceitos como projeção e decepção porque ao idealizar alguém, ignoramos suas “rachaduras”; quando a verdade aparece, o tombo do andor pode ser brusco. 

Devagar com o andor, neste contexto, significa aproximar-se da verdade dos outros e de si mesmo com humildade, reconhecendo a fragilidade humana universal. Ninguém é feito de mármore por completo; todos temos algo de barro em nossa constituição. Em última análise, esse provérbio tão brasileiro carrega uma mensagem de sabedoria prática aplicável a múltiplos domínios da vida. 

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A prudência não é covardia, mas respeito à realidade das coisas, reconhecimento de seus limites e fragilidades. Ir devagar, com os pés no chão e as mãos firmes porém gentis, não significa estagnar, e sim garantir que a travessia seja segura. Afinal, de que adianta correr com o andor e chegar rápido, se pelo caminho perdermos o santo? 

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Jaime Há 8 meses BSB/DFPresidente ML, como vcs são show, transformam um ditado popular, num artigo de alto padrão cultural. Aplausos de Pé, magnífico!!!
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