
Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional Facetubes c/ a correspondente na Inglaterra, Dra. Flora Guilhonm
Trad: livre
Em todo o Nordeste brasileiro, o conselho “Devagar com o andor que o santo é de barro” ressoa como um lembrete popular de prudência. A frase conjura a cena de uma procissão em que se carrega um santo de barro sobre um andor: se os passos forem rápidos ou bruscos demais, o santo – sendo de barro – pode cair e estilhaçar-se. Em sentido figurado, aconselha moderação e cuidado ao conduzir situações delicadas, pois mesmo aquilo que reverenciamos (o “santo”) pode revelar-se vulnerável e quebradiço.
Em outras palavras, por mais sagrada ou importante que seja uma empreitada, convém ir devagar, com respeito aos limites, para não “quebrar o santo” no trajeto. Essa sabedoria simples encontra eco em diversas tradições filosóficas ao longo da história. Os romanos diziam “festina lente” – apressa-te devagar – oxímoro atribuído ao imperador Augusto que recomenda trabalhar com rapidez porém sem pressa, privilegiando a precisão cuidadosa em vez da afobação irrefletida.
A mesma ideia permeia a virtude grega da phronesis, ou prudência, exaltando o equilíbrio entre agir e refrear-se. Filósofos estóicos e aristotélicos viam na cautela uma qualidade cardinal: nossas ações devem considerar a fragilidade inerente da vida humana. Afinal, nada garante que uma boa intenção apressada não resulte em desastre – como alertam tantas tragédias clássicas.
Nesse sentido, “devagar com o andor” equivale a lembrar que, sob a casca da ambição ou da confiança excessiva, há fragilidades estruturais que só o cuidado atento pode resguardar. Até mesmo na linguagem bíblica aparece imagem semelhante: carregar ídolos de pés de barro – símbolos de fundações frágeis encobertas por aparências de solidez. Em suma, a filosofia há muito reconhece que apressar o passo pode significar pisar em terreno quebradiço, e a inteligência está em saber a hora de abrandar o ritmo.
Na modernidade, o ditado nordestino ganha relevância renovada em contextos variados. Na ciência, por exemplo, o físico e ensaísta Peter Schulz invoca justamente essa expressão para criticar o fetiche pela novidade a qualquer custo. Ele observa que o progresso científico, embora empolgante, precisa ser conduzido com passo cauteloso: “as notícias não lembram que o andor [da ciência] precisa ir devagar, pois os santos a serem apreciados [...] são de barro”. Ou seja, mesmo descobertas celebradas devem ser tratadas com reserva, pois podem revelar fragilidades antes de se firmarem como verdades. Schulz adverte que quando fazem a ciência “correr demais, o bicho pode pegar” – uma forma coloquial de dizer que excessos de velocidade e hype científico podem levar a erros, fraudes ou decepções.
Essa perspectiva filosófica contemporânea reforça o valor da moderação: a procissão do conhecimento, tal qual uma procissão religiosa “mineira” (lenta e cuidadosa), deve avançar passo a passo, sob risco de derrubar seus santos de barro no chão da realidade. No âmbito da psicologia e da psiquiatria, a mesma lógica de cautela diante da fragilidade é amplamente reconhecida e fundamentada. Desde Hipócrates, pai da medicina, vigora o princípio ético de primum non nocere – primeiro, não causar dano. Em outras palavras, antes de buscar curar, é preciso garantir que não se cause mal.
Esse ensinamento milenar permanece atual: qualquer intervenção capaz de ajudar também carrega o potencial de ferir. De fato, pesquisas clínicas indicam que tratamentos em saúde mental podem piorar o estado de até 10% dos pacientes, em vez de melhorar. Diante desse dado alarmante, psiquiatras e psicólogos enfatizam a necessidade de ir “devagar com o andor” terapêutico – isto é, avançar gradualmente, com respeito aos limites de cada indivíduo. Procedimentos muito abruptos ou agressivos podem “destroçar o santo”, aqui figurado pela psique humana em sofrimento.
Abordagens modernas na psiquiatria incorporam explicitamente essa noção de prudência individualizada. Em face da complexidade do sofrimento psíquico, bons profissionais reconhecem que cada paciente é único e delicado, exigindo um ritmo e um manejo sob medida.
Um estudo publicado na Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental conclui que a terapêutica deve levar em conta essa natureza complexa, gerando “mais cautela e individualização no que diz respeito às abordagens terapêuticas”. Ou seja, nada de fórmulas universais aplicadas de forma apressada, pois o cuidador da saúde mental precisa calibrar suas intervenções como quem carrega um tesouro frágil.
Os manuais diagnósticos e protocolos são guias, mas não dispensam a sensibilidade de perceber quanta carga emocional um paciente suporta de cada vez. Na prática clínica, essa filosofia se traduz em medidas como iniciar tratamentos de forma gradual, dosar revelações e confrontações em psicoterapia a conta-gotas e monitorar atentamente as reações do paciente antes de prosseguir. Tal postura prudente evita iatrogenias – danos causados pelo próprio tratamento – e honra a vulnerabilidade daquele que busca ajuda.
Vale ressaltar que a metáfora do santo de barro também ilumina uma dimensão humana profunda, isto é, a disparidade entre nossas idealizações e a realidade subjacente. Muitos de nós tendemos a colocar pessoas, projetos ou crenças num pedestal, atribuindo-lhes solidez inabalável – seja um líder carismático, um relacionamento amoroso ou uma visão de mundo.
O ditado nordestino usado desde os tempos anteriores aos nossos avós, lembra, porém, que por trás de toda idealização há uma natureza terrestre, sujeita a imperfeições. Psicologicamente, isso ressoa com conceitos como projeção e decepção porque ao idealizar alguém, ignoramos suas “rachaduras”; quando a verdade aparece, o tombo do andor pode ser brusco.
Devagar com o andor, neste contexto, significa aproximar-se da verdade dos outros e de si mesmo com humildade, reconhecendo a fragilidade humana universal. Ninguém é feito de mármore por completo; todos temos algo de barro em nossa constituição. Em última análise, esse provérbio tão brasileiro carrega uma mensagem de sabedoria prática aplicável a múltiplos domínios da vida.
A prudência não é covardia, mas respeito à realidade das coisas, reconhecimento de seus limites e fragilidades. Ir devagar, com os pés no chão e as mãos firmes porém gentis, não significa estagnar, e sim garantir que a travessia seja segura. Afinal, de que adianta correr com o andor e chegar rápido, se pelo caminho perdermos o santo?
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