
O poeta, em sua simplicidade, carrega em si a chama viva das emoções mais profundas, oferecendo ao mundo fragmentos de sua própria vulnerabilidade para iluminar a experiência alheia. Essa entrega não é mero gesto artístico, mas ato de generosidade: o poeta recolhe o que dói e transforma em ponte que une corações. Nesse movimento, reconhece-se a essência humanitária de muitos poetas, que, munidos de papel e pena, dão de si antes mesmo de receber aplausos.
Como ensina Marco Aurélio, devemos “dar aos outros como a videira dá seus cachos” e semear bondade como a abelha faz o mel, sem esperar louvores, pois a recompensa maior é agir conforme nossa própria natureza benevolente. Em consonância, Sêneca nos lembra que “onde quer que exista um ser humano, há oportunidade para um ato de bondade”. Muitos poetas são assim. Por isso, veja abaixo um poema da confreira Socorro Guterres nessa linha:
Versos Indizíveis
(Socorro Guterres)
No escuro da rua
De noites tão frias
Eles se encolhem
Em lúgubres moradias.
Pedaços de papelão,
Sobras de madeira,
Restos de plásticos,
Resíduos do lixão
São os elementos
Desta construção.
Ao largo transitam
Nas amplas avenidas,
Pertinho onde habitam,
Os carros modernos,
Que num desejo irrefreado
Conseguem tocar
Ao pedir um trocado
Por limpar as vidraças
Nos segundos parados
Na sinalização.
E assim corre o dia
Na busca do pão,
Até a noitinha
Em que se escondem
Nas suas casinhas
De papel macĥê
E encanto vão.
Sem luz, sem água
Encolhem-se ao vento
Da fria estação.
E o pouco alimento
É mais um tormento,
Mas nem um lamento
Em tal sofrimento
Escapa das bocas
Cerradas ao mundo
Que finge não ver
Tal população
Que habita o medo
A dor e a fome
Na escuridão.
E se a chuva cai
Em correnteza
A casinha se vai.
Ficando os farrapos
Colados ao corpo
E alguns utensílios:
Velhas canecas,
Latas enferrujadas,
Que eles recolhem
Como preciosidades
A serem guardadas.
Enfrentando o tempo
Buscam alguma marquise
Para o acolhimento
De uma dignidade
Que se foi ao léu.
Mas ninguém os quer ver
E assim continuam
Na jornada dura
Da vida na rua.
Catam outro material
Descartado, sem uso,
O lixo do luxo
E recomeçam a habitação.
Invisíveis humanos
No abandono cruel
De uma civilização.
Num momento de breve estiagem
A lua aparece e espia entre véus.
É a divina lâmpada
Que ainda ilumina
Os homens soturnos
Enlameados,
Desesperançados.
Nas ruas ilhados,
Entre carros e torres de arranha-céus.
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