
Aluísio Seabra Marques Ribeiro
Depois de ler o texto Diante de mim, um quadro negro, neste conceituado site, confesso que senti um misto de várias sensações, desde o desejo de vomitar até de deitar-me e esperar a chegada do apocalipse, com a sua fúria, destruindo tudo na terra.
Mas... eis que pensei, pensei e pensei... Fui até a estante e, por uma dessas fatalidades que descem do além, meus olhos deram diretamente no livro Espumas Flutuantes, de Castro Alves. Peguei-o e o abri, sem necessariamente procurar um poema específico. E eis que, na página 2, me deparo com “O Livro e a América”. Os meus olhos parecem mergulhar numa luz – quem sabe divina! Meu peito se enche de energia: “Oh! Bendito o que semeia / Livros... livros à mão cheia.../ E manda o povo pensar!” Sento-me e vejo-me diante de uma sala de aula. O quadro negro se enche de luz. De repente... Um arauto da grande luz.
E logo meu pensamento voa, como um raio que corta o horizonte. Imagino uma escola. Pobre, com instalações precárias, com alunos sem acesso ao mundo dos livros. Há uma professora dentro da sala. Ela humildemente conversa com os seus discípulos, que, pela aparência, devem estar num terceiro ou quarto ano. Lança um desafio. Tira da bolsa um monte de revistas velhas e propõe que os alunos peguem uma. Assim é feito. A professora pede que eles vejam alguma foto, uma imagem ou propaganda e escrevam sobre ela. Se quiserem, podem ler algum trecho antes de escrever. E o desafio: Vamos fazer uma espécie jogo: quem escrever o melhor texto ganhará o primeiro pedaço do bolo. E diante da pergunta de todos: “Que bolo?!” Ela apenas diz: “Surpresa!” Antes do horário previsto, a professora tem quase todos os textos dos alunos sobre a mesa. Ela sorri e pensa: “Ah, minha profissão! Como é linda!”
Volto à realidade, perguntando-me o que anda acontecendo com as nossas salas de aula. Que pecado a pobre escola brasileira cometeu, para ser tão duramente castigada... O mundo evoluiu, mas a escola permaneceu como se fosse condenada a viver sempre num marasmo, com alunos apáticos, professores doentes, com vontade de desistir da profissão... e alguns até da vida...
Urge que façamos alguma coisa. São os salários? São os pais? A sociedade? O governo? Quem será o feiticeiro que condenou a escola à miséria em que vive?
E, descoberto o feiticeiro, devemos – os professores – iniciar uma luta voraz, dura, sem tréguas, contra todos aqueles que querem uma escola miserável, com ensino e aprendizagem abaixo do que seja ideal no mundo em que vivemos. E como fazer isso?
Não há receitas, mas há modelos. E esses modelos estão não muito distantes de nós. Com a internet nos conectando ao mundo, por que não vemos o que os sul-coreanos fizeram para que o progresso e a evolução chegassem tão velozmente a seu país? E os professores da Alemanha? O que fizeram? Será que receberam luz diretamente dos céus? E a escola do Japão? Tem, por acaso, algum mistério que leva os alunos a mergulharem no mundo do conhecimento?
Deve haver algum meio de nos orientarmos neste mar de desilusão, angústia e – acho – naufrágio.
E devemos começar por um amplo, contínuo e rigoroso planejamento. Mas não aqueles famigerados planejamentos que somos obrigados a todo início de ano letivo fazer na escola, para cumprir aquela maldita semana que antecede o retorno dos alunos à sala de aula. Que tal cada professor dizer o que gostaria de fazer no ano? E que tal todo professor ficar responsável por um concurso? Pode até ser quem conseguir cuidar melhor de uma árvore plantada no primeiro dia de aula... Ah!... mas onde conseguiríamos dinheiro para os prêmios desses concursos? Há sempre as vozes que insistem em sair dos túmulos dos cemitérios. São professores que já deveriam estar “enterrados” há tempos num cemitério bem distante da escola, para que a sua voz de agouro, parecendo um abutre, não seja ouvida. O prêmio pode ser uma visita ao palácio do governador, com direito à retrato e tudo mais...
Uma coisa deve estar bem clara: não há mais espaço na sala de aula para aquelas aulas que víamos nos anos 80, com o professor copiando no quadro, e os alunos escrevendo num caderno de matéria... O mundo evoluiu muito rápido. Equações postas no quadro para o aluno resolver no caderno... Nem pensar... Imaginemos que ele tenha que resolver: 22% de 120,00. Qual o cidadão alfabetizado que, com uma calculadora na mão, não faz essa continha boba num piscar de olhos? Urge que façamos uma revolução na sala de aula... Não. Não tem nada a ver com comunismo. Revolução do sentido de industrial. Por exemplo: não se deve aceitar mais uma única sala de aula sem equipamentos necessários – datashow, caixa de som, internet, boa ventilação, etc.
Alguém já viu um Fórum sem nenhuma estrutura? Nem na cidade mais pobre do Brasil existe. Todos são bem equipados. No dia em que os professores se recusarem, assim como os juízes se recusam a fazer uma audiência debaixo de uma mangueira, a entrarem numa sala de aula sem as mínimas condições, teremos avançado um bom degrau. Mas... tenhamos plena certeza: os professores não conseguirão essa conquista (ter uma escola bem estruturada) gritando sozinhos. Isso nunca. Precisamos de união de todos. Sem essa união, seremos nós professores eternos excluídos dentro do nosso país que, no discurso, finge tratar a educação com extrema importância.
É necessário também ter aliados na outra ponta. Os professores sozinhos não darão conta nunca de uma luta que se mostra longa e espinhosa. Os professores precisam mostrar aos alunos que eles têm potencial para alcançar melhores condições de vida, se investirem pesado nos estudos. Para isso, um professor que grita, põe alunos para fora da sala de aula, tira o recreio de uma criança, porque ela fez alguma coisa errada na hora da aula, no lugar de ter um aliado, terá um inimigo. Na próxima aula, por mais que o docente leve uma anedota, um filme, uma tirinha de jornal, uma música, um vídeo, o aluno verá o docente como vilão.
É preciso que as aulas sejam menos frias, duras, com um monte de informações sem muito sentido para os discentes. É necessário que o aluno se sinta presente dentro do debate. Um aluno que se senta no fundo da sala e nunca é chamado sequer pelo nome nunca vai ter vontade de participar de uma atividade. Sempre a fará por obrigação de notas. Urge fazê-lo crer que ele é peça fundamental na sala. Sem sua presença, nem o professor estaria ali.
A escola tem que ser vista pelos próprios alunos como um portal para outro mundo, outro modo de vida, menos desfavorável. Eles precisam ter certeza de que muitos podem mudar de vida por outros meios, como o esporte, a música, etc. Mas que a escola é uma possibilidade a mais... Quem não conseguir por outros meios, terá a escola e sua instrução como uma possiblidade. E aí devemos mostrar infinidades de pessoas miseráveis que transformaram a vida de sua família por terem acreditado na escola.
Exemplos não faltam. Falta coragem para o professor pegar o leme do barco, pôr os alunos dentro e viajar em busca de um porto seguro para todos nós. O Brasil e o seu futuro agradecem.
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Convidado: ALUÍSIO SEABRA MARQUES RIBEIRO
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