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31 de julho, Dia da Mulher Africana. Por: Renata Barcellos (BarcellArtes)

Renata Barcellos é colunista da Plataforma Nacional do Facetubes

29/07/2025 às 20h12
Por: Mhario Lincoln Fonte: Facetubes/Renata Barcellos
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Original do texto.
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Mãe África, de Edmar Leal (Estudante universitário de São Tomé e Príncipe)

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Diz-me, mãe...

Onde está minha mãe, África?

Mulher trajada de lenço, vestida de África,

Corpo incansável, alma calejada.

 

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Sim... nesta África injustiçada,

O estômago guarda memórias inesquecíveis.

 

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O “Dia da Mulher Africana” foi instituído em 1962, na Conferência das Mulheres Africanas, realizada na cidade de Dar-Es-Salaam (Tanzânia - onde o MST atua com a Brigada Internacionalista Samora Machel). Na mesma ocasião, foi criada a Organização Pan-Africana das Mulheres, para fomentar o compartilhamento de experiências e a soma de esforços para a emancipação feminina. O dia celebra as conquistas e a luta das mulheres africanas em diversas áreas, além de reconhecer a importância do seu papel no desenvolvimento social, econômico e cultural do continente. De acordo com Vera Duarte (Desembargadora e Escritora, de Cabo Verde, África Ocidental), a mulher caboverdiana “plantou o grão,  colheu o  milho e preparou a cachupa com que alimentou o povo  ilhéu...mas foram as mulheres escritoras que espalharam ao vento a maravilhosa história de resistência,  resiliência e coragem das mulheres destas ilhas no meio do mundo plantadas”.

Esta data tem papel importante também para a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab), instituição caracterizada pelo “intercâmbio acadêmico e solidário com países membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), especialmente os países africanos” (conforme Lei nº 12.289/2010). Segundo dados extraídos do Sistema Integrado de Gestão de Atividades Acadêmicas (Sigaa), de 2021, a Unilab possui 378 matrículas de estudantes africanas em atividade, sendo 361 da graduação, 13 dos cursos de especialização e 4 dos cursos de mestrado, além de 3 professoras em atividade, duas docentes lotadas no Ceará (ocupando cargos de gestão) e uma na Bahia. Segundo Thainicy Delgado (natural de Malanje, Angola - professora e comunicóloga), há uma “germinação vertical na reconstrução identitária da Mulher Africana, na qual está discorrida em pontos de alinhamentos e firmeza nas suas lutas e glórias. África está movida pelas Mulheres Pontes que, mesmo com os muros políticos, sociais e culturais impulsionam o seu desenvolvimento sustentável”.

Na Unilab, no dia 31 de julho do ano de 2017, foi criada a Rede Internacional de Mulheres Africanas (Rima). Por ocasião de seu lançamento, a Rima convidou pessoas de várias nacionalidades para a sua composição, incluindo brasileiras(os), mulheres e homens negros(as), além de buscar o apoio de pró-reitorias e demais projetos correlatos. Também conhecida como Rede ÔPÉBAMU, é uma organização que visa unir as mulheres africanas da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) e promover a liderança feminina com viés acadêmico, além de construir e promover sororidade, com foco na transformação das mentalidades e comportamentos culturais. A RIMA se baseia na visão de Amílcar Cabral sobre a importância da mulher na sociedade africana e busca ser uma voz única para as mulheres africanas na Unilab. Conforme Nsambu Vicente (historiador, professor universitário e investigador angolano. Licenciado e Mestre em História, Doutor em História Contemporânea pela Universidade de Évora - Portugal), onde desenvolveu a tese: “As mulheres da UPA/FNLA na Luta de Libertação Nacional de Angola: A Associação das Mulheres de Angola, entre a visibilidade e o silêncio (1961–1974)”.                       

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É autor de vários artigos, comunicações e projetos. E é a partir dessa base que propõe esta reflexão intitulada Elas deram nome à liberdade, mas não aos lugares: “Esta frase é o ponto de partida para pensarmos um paradoxo profundo. Em Angola, como em muitos outros países que enfrentaram a colonização, as mulheres estiveram na linha da frente da resistência: organizaram, alimentaram, esconderam combatentes, cuidaram dos feridos, evangelizaram a esperança e, muitas vezes, morreram sem sequer um nome nos livros.

No entanto, quando percorremos as ruas das cidades angolanas — especialmente Luanda — percebemos algo inquietante: as mulheres estão ausentes da paisagem toponímica. São raríssimas as escolas, ruas, bairros, avenidas com nomes femininos. E, quando existem, pertencem em geral a mulheres ligadas ao partido dominante, o que revela uma construção seletiva da memória histórica e política.

Mas o problema é ainda mais profundo: não se trata apenas de nomes ausentes, mas de vidas silenciadas. A toponímia, que parece um simples acto administrativo, é, na verdade, um campo de disputa simbólica. Quem é nomeado, é lembrado. Quem não é, é apagado da memória coletiva.

Há um silêncio sobre figuras como Maria Lombo, mulher de fé e de resistência familiar; sobre as militantes da AMA, a Associação da Mulher Angolana no seio da UPA/FNLA; sobre mulheres que foram presas, violadas, mortas ou exiladas por ousarem sonhar a liberdade. Mulheres do Kwanza Norte, do Zaire, do Uíge, que hoje sobrevivem apenas na oralidade e no afeto de suas comunidades.

E por que isso importa internacionalmente?

Porque estamos num tempo em que os países repensam os seus monumentos, as suas ruas, as suas estátuas. Porque a descolonização da memória é um processo global. O apagamento das mulheres na paisagem urbana de Angola não é um caso isolado — ele espelha o que ocorre no Brasil, em Moçambique, na Colômbia, nos Estados Unidos.

A ausência das mulheres nos nomes dos lugares é uma extensão do patriarcado e da colonialidade. Por isso, nomear mulheres não é um gesto simbólico. É um ato político. É uma reparação. É reinscrever estas mulheres na história, na dignidade e no futuro.

Como pesquisador, tenho proposto ações concretas: cartografias afetivas da luta de libertação, recolha de histórias de vida, escuta às vozes esquecidas — especialmente de mulheres idosas que ainda resistem com a memória intacta.

Porque, como dizia Amílcar Cabral: ‘não se pode libertar um povo escondendo-lhe a verdade da sua própria história’. Que o futuro das nossas cidades seja também o futuro das nossas mulheres. Que cada rua sem nome seja um convite à memória. Que cada nome de mulher numa placa seja uma semente de justiça”. Assista à entrevista de Nsambu Vicente no Programa Pauta Nossa, da Mundial News RJ, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XIl618OibR0&t=7s

 

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Entrevista com Andreia Tavares de Sousa (nasceu em Santa Catarina, Ilha de Santiago, em Cabo Verde. Escritora e poeta, é defensora da língua cabo-verdiana, tendo feito estudos de literatura-cabo-verdiana na Universidade Nova de Lisboa. É autora dos livros de poesia Poetas para o ano II (2019) e N kre ser pueta (2020). Em 2025 publica seu primeiro romance, Nuninha).

 

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1- Qual o impacto da data 31 de julho na realidade das mulheres africanas contemporâneas? Andreia Tavares de Sousa: Eu acho que o impacto da data 31 de julho na realidade das mulheres africanas contemporâneas é positivo e revolucionário. Hoje as mulheres ganharam direito, no espaço político, econômico, e na sociedade, as mulheres africanas estão no mercado do trabalho, como no setor de saúde, setor jurídico, académico, comunicação, entre outros e mesmo no setor da construção, as mulheres, são independente financeiramente, elas estudam, se formam, elas são corajosas, resilientes, lutadoras, determinadas à carregar o destino com ombro firme e mente livre, com muita coragem, mais também elas  visualizam o futuro além do horizonte, as mulheres tem um papel importantíssimo na construção do futuro, e continua a lutar para a igualdade do género, igualdade financeira, respeito mais também pelos direitos humanos. Sem esquecer que as mulheres africanas são as mães da humanidade, mães dos grandes homens e das grandes mulheres. Além de comemorar o dia das mulheres africanas, em Cabo verde, o dia 31 de julho instituído como o dia nacional do batuco, uma proposta de lei aprovada por unanimidade dos deputados durante a última sessão parlamentar da lesgislativa na presença de dezenas de batucadeiras. O batuco é um género musical da ilha de Santiago, a primeira ilha descoberta e povoada, a ilha mais grande do arquipélago' o batuco é dominado por mulheres, é um género mais antigo de Cabo Verde, desde XVIII século, essa manifestação musical foi proibida durante o período da colonização mais ela resistiu, evoluiu, até hoje.

2- Qual é o espaço das literaturas em Cabo Verde? Andreia Tavares de Sousa: A literatura em Cabo Verde, está a ganhar quanto mais grandes palcos, nacionais e internacionais. Temos dois autores prémiado com o prémio Camões, O Arménio Vieira em 2009 e o Germano Almeida em 2018, temos Joaquim Arena com prémio Oceano, temos o José Luis Tavares com vários prémios, ele é o escritor mais prémiado na história da literatura caboverdeana. Ainda temos vários autores e autoras prémiadas como Dina Salustio, Fatima Bettencourt, Vera Duarte, Samira Lelis, Evel Rocha entre outros, mais também temos poetas, escritores da nova geração que estão a jugar um papel fundamental nessa caminhada, carregar esse legado literário com orgulho e determinação além de escrever em língua materna. Cabo Verde sempre foi uma terra de escritores, desde começo da imprensa, em 1800 e tal. O Poeta, jornalista, escritor, compositor Eugénio Tavares, foi um dos primeiros. O Baltasar Lopes da Silva, Jorge Barbosa, Manuel Lopes, criadores do movimento claridoso e da revista claridade, Jaime Feguereido, Pedro Cardoso, Amilcar Cabral entres outros que jogaram um papel crucial na literatura caboverdeana. Hoje temos concursos, festivais literários em cabo Verde e na diáspora, justamente, no mês de junho foi convidada pela minha editora Rosa de Porcelana para assistir o festival da literatura mundo na ilha de Sal em Cabo Verde, durante 4 dias, essa ilha plana foi o palco de encontro, partilhas e convivências literários com escritores do mundo, académicos, cientistas, professores, tradutures, alunos  etc.

 

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Concluímos esta breve reflexão primeiro com um texto da escritora de Guiné Bissau Kátia Casimiro (autora de obras infantojuvenis como A cana de bambu e Bolota mágica:

 

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A mulher africana é essência primeira,

no peito carrega histórias inteiras.

Mãe que embala com canto e ternura,

guardiã da vida, da alma mais pura.

Trabalhadora que vence a fadiga,

 mãos calejadas  que brotam sementes, e

 olhos  onde brilham sonhos ardentes.

 

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Humana em cada gesto, em cada passo,

abraça o mundo com coragem e abraço.

Chora, sorri, cai e se levanta,

seu coração é um tambor que encanta.

Amiga leal, companheira de jornada,

solidária, firme, sempre abençoada.

Nos seus passos há força e tradição,

na sua voz, o eco da revolução.

 

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É rai, flor,  céu e chão,

história viva,  libertação.

Mulher africana, alma imensa e guerreira,

Valor eterno, pura luz verdadeira.

 

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E, por último, com uma homenagem a minha patronesse “A mãe dos poetas moçambicanos”: Noémia de Sousa (escritora moçambicana - jornalista e tradutora), cadeira número 18, no Grêmio Literário Internacional Poesiarte. Seus textos apresentam elementos nacionalistas, crítica social e valorizam o universo feminino. Em 2001, toda a poesia de Noémia de Sousa foi reunida no seu único livro Sangue negro. Suas poesias da autora valorizam a identidade negra e o universo feminino.

 “E então, uma vez, inocentemente, olhou para um Homem e disse “Irmão… Mas o Homem pálido fulminou-o duramente com seus olhos cheios de ódio e respondeu-lhe: “Negro” (poema Lição).

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JaimeHá 6 meses BSB-DFUm artigo de altíssimo valor cultural. Parabéns!!!
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Entrevistas, textos acadêmicos e ensaios da profesora carioca Renata Barcellos.
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