
Mãe África, de Edmar Leal (Estudante universitário de São Tomé e Príncipe)
Diz-me, mãe...
Onde está minha mãe, África?
Mulher trajada de lenço, vestida de África,
Corpo incansável, alma calejada.
Sim... nesta África injustiçada,
O estômago guarda memórias inesquecíveis.
O “Dia da Mulher Africana” foi instituído em 1962, na Conferência das Mulheres Africanas, realizada na cidade de Dar-Es-Salaam (Tanzânia - onde o MST atua com a Brigada Internacionalista Samora Machel). Na mesma ocasião, foi criada a Organização Pan-Africana das Mulheres, para fomentar o compartilhamento de experiências e a soma de esforços para a emancipação feminina. O dia celebra as conquistas e a luta das mulheres africanas em diversas áreas, além de reconhecer a importância do seu papel no desenvolvimento social, econômico e cultural do continente. De acordo com Vera Duarte (Desembargadora e Escritora, de Cabo Verde, África Ocidental), a mulher caboverdiana “plantou o grão, colheu o milho e preparou a cachupa com que alimentou o povo ilhéu...mas foram as mulheres escritoras que espalharam ao vento a maravilhosa história de resistência, resiliência e coragem das mulheres destas ilhas no meio do mundo plantadas”.
Esta data tem papel importante também para a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab), instituição caracterizada pelo “intercâmbio acadêmico e solidário com países membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), especialmente os países africanos” (conforme Lei nº 12.289/2010). Segundo dados extraídos do Sistema Integrado de Gestão de Atividades Acadêmicas (Sigaa), de 2021, a Unilab possui 378 matrículas de estudantes africanas em atividade, sendo 361 da graduação, 13 dos cursos de especialização e 4 dos cursos de mestrado, além de 3 professoras em atividade, duas docentes lotadas no Ceará (ocupando cargos de gestão) e uma na Bahia. Segundo Thainicy Delgado (natural de Malanje, Angola - professora e comunicóloga), há uma “germinação vertical na reconstrução identitária da Mulher Africana, na qual está discorrida em pontos de alinhamentos e firmeza nas suas lutas e glórias. África está movida pelas Mulheres Pontes que, mesmo com os muros políticos, sociais e culturais impulsionam o seu desenvolvimento sustentável”.
Na Unilab, no dia 31 de julho do ano de 2017, foi criada a Rede Internacional de Mulheres Africanas (Rima). Por ocasião de seu lançamento, a Rima convidou pessoas de várias nacionalidades para a sua composição, incluindo brasileiras(os), mulheres e homens negros(as), além de buscar o apoio de pró-reitorias e demais projetos correlatos. Também conhecida como Rede ÔPÉBAMU, é uma organização que visa unir as mulheres africanas da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) e promover a liderança feminina com viés acadêmico, além de construir e promover sororidade, com foco na transformação das mentalidades e comportamentos culturais. A RIMA se baseia na visão de Amílcar Cabral sobre a importância da mulher na sociedade africana e busca ser uma voz única para as mulheres africanas na Unilab. Conforme Nsambu Vicente (historiador, professor universitário e investigador angolano. Licenciado e Mestre em História, Doutor em História Contemporânea pela Universidade de Évora - Portugal), onde desenvolveu a tese: “As mulheres da UPA/FNLA na Luta de Libertação Nacional de Angola: A Associação das Mulheres de Angola, entre a visibilidade e o silêncio (1961–1974)”.
É autor de vários artigos, comunicações e projetos. E é a partir dessa base que propõe esta reflexão intitulada Elas deram nome à liberdade, mas não aos lugares: “Esta frase é o ponto de partida para pensarmos um paradoxo profundo. Em Angola, como em muitos outros países que enfrentaram a colonização, as mulheres estiveram na linha da frente da resistência: organizaram, alimentaram, esconderam combatentes, cuidaram dos feridos, evangelizaram a esperança e, muitas vezes, morreram sem sequer um nome nos livros.
No entanto, quando percorremos as ruas das cidades angolanas — especialmente Luanda — percebemos algo inquietante: as mulheres estão ausentes da paisagem toponímica. São raríssimas as escolas, ruas, bairros, avenidas com nomes femininos. E, quando existem, pertencem em geral a mulheres ligadas ao partido dominante, o que revela uma construção seletiva da memória histórica e política.
Mas o problema é ainda mais profundo: não se trata apenas de nomes ausentes, mas de vidas silenciadas. A toponímia, que parece um simples acto administrativo, é, na verdade, um campo de disputa simbólica. Quem é nomeado, é lembrado. Quem não é, é apagado da memória coletiva.
Há um silêncio sobre figuras como Maria Lombo, mulher de fé e de resistência familiar; sobre as militantes da AMA, a Associação da Mulher Angolana no seio da UPA/FNLA; sobre mulheres que foram presas, violadas, mortas ou exiladas por ousarem sonhar a liberdade. Mulheres do Kwanza Norte, do Zaire, do Uíge, que hoje sobrevivem apenas na oralidade e no afeto de suas comunidades.
E por que isso importa internacionalmente?
Porque estamos num tempo em que os países repensam os seus monumentos, as suas ruas, as suas estátuas. Porque a descolonização da memória é um processo global. O apagamento das mulheres na paisagem urbana de Angola não é um caso isolado — ele espelha o que ocorre no Brasil, em Moçambique, na Colômbia, nos Estados Unidos.
A ausência das mulheres nos nomes dos lugares é uma extensão do patriarcado e da colonialidade. Por isso, nomear mulheres não é um gesto simbólico. É um ato político. É uma reparação. É reinscrever estas mulheres na história, na dignidade e no futuro.
Como pesquisador, tenho proposto ações concretas: cartografias afetivas da luta de libertação, recolha de histórias de vida, escuta às vozes esquecidas — especialmente de mulheres idosas que ainda resistem com a memória intacta.
Porque, como dizia Amílcar Cabral: ‘não se pode libertar um povo escondendo-lhe a verdade da sua própria história’. Que o futuro das nossas cidades seja também o futuro das nossas mulheres. Que cada rua sem nome seja um convite à memória. Que cada nome de mulher numa placa seja uma semente de justiça”. Assista à entrevista de Nsambu Vicente no Programa Pauta Nossa, da Mundial News RJ, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XIl618OibR0&t=7s
Entrevista com Andreia Tavares de Sousa (nasceu em Santa Catarina, Ilha de Santiago, em Cabo Verde. Escritora e poeta, é defensora da língua cabo-verdiana, tendo feito estudos de literatura-cabo-verdiana na Universidade Nova de Lisboa. É autora dos livros de poesia Poetas para o ano II (2019) e N kre ser pueta (2020). Em 2025 publica seu primeiro romance, Nuninha).
1- Qual o impacto da data 31 de julho na realidade das mulheres africanas contemporâneas? Andreia Tavares de Sousa: Eu acho que o impacto da data 31 de julho na realidade das mulheres africanas contemporâneas é positivo e revolucionário. Hoje as mulheres ganharam direito, no espaço político, econômico, e na sociedade, as mulheres africanas estão no mercado do trabalho, como no setor de saúde, setor jurídico, académico, comunicação, entre outros e mesmo no setor da construção, as mulheres, são independente financeiramente, elas estudam, se formam, elas são corajosas, resilientes, lutadoras, determinadas à carregar o destino com ombro firme e mente livre, com muita coragem, mais também elas visualizam o futuro além do horizonte, as mulheres tem um papel importantíssimo na construção do futuro, e continua a lutar para a igualdade do género, igualdade financeira, respeito mais também pelos direitos humanos. Sem esquecer que as mulheres africanas são as mães da humanidade, mães dos grandes homens e das grandes mulheres. Além de comemorar o dia das mulheres africanas, em Cabo verde, o dia 31 de julho instituído como o dia nacional do batuco, uma proposta de lei aprovada por unanimidade dos deputados durante a última sessão parlamentar da lesgislativa na presença de dezenas de batucadeiras. O batuco é um género musical da ilha de Santiago, a primeira ilha descoberta e povoada, a ilha mais grande do arquipélago' o batuco é dominado por mulheres, é um género mais antigo de Cabo Verde, desde XVIII século, essa manifestação musical foi proibida durante o período da colonização mais ela resistiu, evoluiu, até hoje.
2- Qual é o espaço das literaturas em Cabo Verde? Andreia Tavares de Sousa: A literatura em Cabo Verde, está a ganhar quanto mais grandes palcos, nacionais e internacionais. Temos dois autores prémiado com o prémio Camões, O Arménio Vieira em 2009 e o Germano Almeida em 2018, temos Joaquim Arena com prémio Oceano, temos o José Luis Tavares com vários prémios, ele é o escritor mais prémiado na história da literatura caboverdeana. Ainda temos vários autores e autoras prémiadas como Dina Salustio, Fatima Bettencourt, Vera Duarte, Samira Lelis, Evel Rocha entre outros, mais também temos poetas, escritores da nova geração que estão a jugar um papel fundamental nessa caminhada, carregar esse legado literário com orgulho e determinação além de escrever em língua materna. Cabo Verde sempre foi uma terra de escritores, desde começo da imprensa, em 1800 e tal. O Poeta, jornalista, escritor, compositor Eugénio Tavares, foi um dos primeiros. O Baltasar Lopes da Silva, Jorge Barbosa, Manuel Lopes, criadores do movimento claridoso e da revista claridade, Jaime Feguereido, Pedro Cardoso, Amilcar Cabral entres outros que jogaram um papel crucial na literatura caboverdeana. Hoje temos concursos, festivais literários em cabo Verde e na diáspora, justamente, no mês de junho foi convidada pela minha editora Rosa de Porcelana para assistir o festival da literatura mundo na ilha de Sal em Cabo Verde, durante 4 dias, essa ilha plana foi o palco de encontro, partilhas e convivências literários com escritores do mundo, académicos, cientistas, professores, tradutures, alunos etc.
Concluímos esta breve reflexão primeiro com um texto da escritora de Guiné Bissau Kátia Casimiro (autora de obras infantojuvenis como A cana de bambu e Bolota mágica:
A mulher africana é essência primeira,
no peito carrega histórias inteiras.
Mãe que embala com canto e ternura,
guardiã da vida, da alma mais pura.
Trabalhadora que vence a fadiga,
mãos calejadas que brotam sementes, e
olhos onde brilham sonhos ardentes.
Humana em cada gesto, em cada passo,
abraça o mundo com coragem e abraço.
Chora, sorri, cai e se levanta,
seu coração é um tambor que encanta.
Amiga leal, companheira de jornada,
solidária, firme, sempre abençoada.
Nos seus passos há força e tradição,
na sua voz, o eco da revolução.
É rai, flor, céu e chão,
história viva, libertação.
Mulher africana, alma imensa e guerreira,
Valor eterno, pura luz verdadeira.
E, por último, com uma homenagem a minha patronesse “A mãe dos poetas moçambicanos”: Noémia de Sousa (escritora moçambicana - jornalista e tradutora), cadeira número 18, no Grêmio Literário Internacional Poesiarte. Seus textos apresentam elementos nacionalistas, crítica social e valorizam o universo feminino. Em 2001, toda a poesia de Noémia de Sousa foi reunida no seu único livro Sangue negro. Suas poesias da autora valorizam a identidade negra e o universo feminino.
“E então, uma vez, inocentemente, olhou para um Homem e disse “Irmão… Mas o Homem pálido fulminou-o duramente com seus olhos cheios de ódio e respondeu-lhe: “Negro” (poema Lição).
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