
Autoras originárias da Amazônia ocupam o centro da programação do Sesc Santa Rita e transformam a presença em afirmação cultural, enfrentando desigualdades estruturais de acesso à produção editorial.
A 23ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty deixou claro que a literatura brasileira não pode mais silenciar as vozes que sempre estiveram à margem. O espaço do Sesc Santa Rita, onde se concentram debates e cafés literários, passou a abrigar com prioridade autoras indígenas e da Amazônia, num gesto que converte representatividade em prática. Essa visibilidade não é simbólica apenas: é cumprimento de uma urgência analisada por estudiosos, segundo a qual dar voz autoral aos povos originários é condição para corrigir distorções históricas do cânone e reconstruir uma narrativa nacional mais íntegra.
Entre as protagonistas está Sony Ferseck, indígena do povo Macuxi, professora, poeta e cofundadora da Wei Editora, a primeira editora independente de Roraima voltada à publicação de autores indígenas e obras bilíngues desde 2019. Em sua participação na mesa “Pluralidades editoriais e a criação literária”, ao lado da também editora independente Aline Cardoso, foi direto ao ponto: a possibilidade de dizer a um ancião no interior de Roraima que “o senhor pode fazer um livro” é uma potência transformadora, um gesto que reconecta a literatura à inclusão real e não apenas discursiva.
O reconhecimento, contudo, encontra limites logísticos e estruturais. Sony Ferseck descreveu a escassez de infraestrutura editorial em seu estado, onde a produção é penalizada pela ausência de recursos básicos: há apenas duas gráficas em todo o território de Roraima, o que encarece e restringe a difusão de obras. Essa realidade torna ainda mais relevante a projeção conquistada no festival, porque revela que a luta pela voz passa também pela superação de barreiras materiais que historicamente excluíram determinados autores do circuito literário formal.
A visibilidade das autoras indígenas na Flip se dá num contexto mais amplo de ampliação das presenças femininas e plurais promovidas pelo Sesc, que em 2025 trouxe 17 representantes femininas para a programação e colocou mulheres em destaque nas mesas de debate, reforçando uma agenda de pluralidade que atravessa identidade, gênero e origem. O festival, reconhecido como um dos principais do país, serve como plataforma de articulação — o que a própria configuração da Flip, com seu histórico de interlocução cultural nacional e internacional, torna estratégico para consolidar essas vozes emergentes.
A força dessas falas reside no encontro entre resistência e produção: não se trata apenas de ocupar um palco, mas de construir redes que conectem comunidades distantes aos circuitos de leitura, edição e distribuição, mudando de dentro para fora os parâmetros do que se entende por literatura brasileira. Esta matéria circula com a chancela da Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes.
Fontes: Agência Brasil; Rádio EBC; Cenariomt; PublishNews; Veja; Sesc Santa Rita/Flip 2025; estudo de Anurag Bhagat sobre a importância de dar voz aos povos indígenas na literatura; contexto institucional da Flip.
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