
*Departamento de Pesquisa e Extensão do Facetubes c/Mhario Lincoln
Nesta semana de agosto de 2025, comemora-se o 202º aniversário de nascimento de Antônio Gonçalves Dias – poeta maranhense maior; e um perspicaz pensador da História. Foi Gonçalves Dias quem observou certa vez que, "para ser um bom historiador, o indivíduo precisa possuir uma de duas qualidades essenciais: ser político ou ser poeta".
Essa afirmação, citada anos depois pelo escritor José Sarney em uma introdução histórica, (José Sarney, in Introdução a Berredo, Bernardo Pereira de. ”Anais históricos do Estado do Maranhão", 4a. ed. Rio. (Coleção Documentos Maranhenses), propunha que “o historiador político escreverá o livro do povo; o poeta-historiador escreverá o evangelho da humanidade”.
A frase provoca reflexão imediata sobre os rumos da historiografia: a História seria melhor servida pela objetividade pragmática do político ou pela visão inspirada do poeta? E poderia um mesmo autor reunir em si ambos os perfis?
Nesse ponto, este texto reaviva na memória do leitor que Gonçalves Dias transitou divinamente bem entre esses dois mundos – o da criação literária e o da pesquisa histórica – encarnando, em certa medida, a figura híbrida do poeta-historiador.
Reconhecido sobretudo por poemas nacionais como “Canção do Exílio” (cujo verso “Minha terra tem palmeiras...” todo brasileiro conhece de cor), ele também foi um estudioso incansável: linguista, etnógrafo, professor e pesquisador de documentos históricos.
Durante sua formação em Coimbra e em viagens à Europa, Gonçalves Dias recolheu arquivos em busca das raízes da história brasileira. Produziu um dicionário da língua tupi, investigou lendas indígenas e resgatou registros coloniais esquecidos. E tal fato acabou influenciando de forma muito positiva a voz e alma emprestada aos heróis nativos e às matas tropicais, como em “Os Timbiras”.
O resultado, que queiram ou não queiram, é notadamente - esse grito lírico - uma visão histórica singular, em que o passado do Brasil não era mero apêndice da história europeia, mas um drama próprio, protagonizado por indígenas, negros e lusos, em solo nativo – uma história cheia de versos contada com senso crítico e, ao mesmo tempo, com profundo lirismo humanista.
Desta forma, que tal discutir também esse lado da história que G.Dias embutiu em seus poemas? Passados dois séculos desde o nascimento do nosso poeta maior, suas palavras continuam surpreendentemente atuais. Portanto, a história não precisa ser um inventário frio de datas e acontecimentos, assim como poesia não deve fugir dos dilemas concretos de seu tempo.
Aí, exatamente aí, a beleza do outro lado de Gonçalves Dias. Além de poeta, um historiador quando assume a consciência cívica de um político e a empatia visionária de um poeta: resumidamente: ele transcende ao escrito, faz literatura viva, capaz de educar, mobilizar e elevar.
Dias é esse poeta-historiador, que, por sua vez, opera em outro patamar (além do simplesmente poético), de abrangência e sensibilidade.
Aliás, Gonçalves Dias tornou fácil esse entendimento ao avançar na história poética do indianismo brasileiro, (e olha que loucura para a época, quando ele buscou uma identidade nacional brasileira distinta, distanciando-se da influência europeia e focando nos elementos nativos), produzindo épicos como "I-Juca-Pirama" e "Os Timbiras", relatos históricos e heroicos que reproduzem muito bem a frase que comecei este texto. Senão, em I-Juca Pirama (A pronúncia correta, após consultar especialistas é [Piramá]):
"(...) Soltai-o! - diz o chefe. Pasma a turba;
Os guerreiros murmuram: mal ouviram,
Nem pode nunca um chefe dar tal ordem!
Brada segunda vez com voz mais alta,
Afrouxam-se as prisões, a embira cede,
A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo.
Timbira, diz o índio enternecido,
Solto apenas dos nós que o seguravam:
És um guerreiro ilustre, um grande chefe,
Tu que assim do meu mal te comoveste,
Nem sofres que, transposta a natureza,
Com olhos onde a luz já não cintila,
Chore a morte do filho o pai cansado,
Que somente por seu na voz conhece.
- És livre; parte.
- E voltarei.
- Debalde.
- Sim, voltarei, morto meu pai.
- Não voltes! (...)".
Claro e evidente que Gonçalves Dias advogava por uma história que fosse, simultaneamente poética-humanista. Uma crônica fiel dos acontecimentos? Poderia até ser! Mas com aquele tempero incrivelmente raro na construção lírica de Dias: mais que poesia, em "I-Juca Pirama", ou mesmo em "Os Timbiras", há uma história cheia de interpretações de elevado teor humano.
Então, a pergunta que não quer calar: os poetas de hoje são mais político-ideológicos, que historiadores-poetas? É uma tese interessante para se discutir, especialmente partindo da frase (ipsis litteris) atribuída ao nosso aniversariante da semana, mestre-romântico Gonçalves Dias: "Quem quer que for bom historiador deve ter uma destas duas qualidades: ser político e poeta. O historiador político, escreverá o livro do povo; o poeta historiador escreverá o evangelho da humanidade, diz Gonçalves Dias”.
(Pelo menos é assim que li, conforme página publicada, em foto 02).
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