Terça, 25 de Agosto de 2026 13:37
(xx) xxxxx-xxxx
A História Conta GONÇALVES DIAS

A Relação entre História, Política e a Poesia em Gonçalves Dias

Então, a pergunta que não quer calar: os poetas de hoje são mais político-ideológicos, que historiadores-poetas?

12/09/2025 09h39 Atualizada há 11 meses atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln/Facetubes
Título A morte de Gonçalves Dias ou O Naufrágio de Gonçalves Dias. Autor Eduardo de Sá
Título A morte de Gonçalves Dias ou O Naufrágio de Gonçalves Dias. Autor Eduardo de Sá

 

*Departamento de Pesquisa e Extensão do Facetubes c/Mhario Lincoln

 

Continua após a publicidade
Continua após a publicidade

Nesta semana de agosto de 2025, comemora-se o 202º aniversário de nascimento de Antônio Gonçalves Dias – poeta maranhense maior; e um perspicaz pensador da História. Foi Gonçalves Dias quem observou certa vez que, "para ser um bom historiador, o indivíduo precisa possuir uma de duas qualidades essenciais: ser político ou ser poeta".

Essa afirmação, citada anos depois pelo escritor José Sarney em uma introdução histórica, (José Sarney, in Introdução a Berredo, Bernardo Pereira de. ”Anais históricos do Estado do Maranhão", 4a. ed. Rio. (Coleção Documentos Maranhenses), propunha que “o historiador político escreverá o livro do povo; o poeta-historiador escreverá o evangelho da humanidade”.

A frase provoca reflexão imediata sobre os rumos da historiografia: a História seria melhor servida pela objetividade pragmática do político ou pela visão inspirada do poeta? E poderia um mesmo autor reunir em si ambos os perfis?

Nesse ponto, este texto reaviva na memória do leitor que Gonçalves Dias transitou divinamente bem entre esses dois mundos – o da criação literária e o da pesquisa histórica – encarnando, em certa medida, a figura híbrida do poeta-historiador.

Reconhecido sobretudo por poemas nacionais como “Canção do Exílio” (cujo verso “Minha terra tem palmeiras...” todo brasileiro conhece de cor), ele também foi um estudioso incansável: linguista, etnógrafo, professor e pesquisador de documentos históricos.

Durante sua formação em Coimbra e em viagens à Europa, Gonçalves Dias recolheu arquivos em busca das raízes da história brasileira. Produziu um dicionário da língua tupi, investigou lendas indígenas e resgatou registros coloniais esquecidos. E tal fato acabou influenciando de forma muito positiva a voz e alma emprestada aos heróis nativos e às matas tropicais, como em “Os Timbiras”.

Continua após a publicidade

O resultado, que queiram ou não queiram, é notadamente - esse grito lírico - uma visão histórica singular, em que o passado do Brasil não era mero apêndice da história europeia, mas um drama próprio, protagonizado por indígenas, negros e lusos, em solo nativo – uma história cheia de versos contada com senso crítico e, ao mesmo tempo, com profundo lirismo humanista.

Ginai c/mhl

Desta forma, que tal discutir também esse lado da história que G.Dias embutiu em seus poemas? Passados dois séculos desde o nascimento do nosso poeta maior, suas palavras continuam surpreendentemente atuais. Portanto, a história não precisa ser um inventário frio de datas e acontecimentos, assim como poesia não deve fugir dos dilemas concretos de seu tempo.

Aí, exatamente aí, a beleza do outro lado de Gonçalves Dias. Além de poeta, um historiador quando assume a consciência cívica de um político e a empatia visionária de um poeta: resumidamente: ele transcende ao escrito, faz literatura viva, capaz de educar, mobilizar e elevar.

Dias é esse poeta-historiador, que, por sua vez, opera em outro patamar (além do simplesmente poético), de abrangência e sensibilidade.

Aliás, Gonçalves Dias tornou fácil esse entendimento ao avançar na história poética do indianismo brasileiro, (e olha que loucura para a época, quando ele buscou uma identidade nacional brasileira distinta, distanciando-se da influência europeia e focando nos elementos nativos), produzindo épicos como "I-Juca-Pirama" e "Os Timbiras", relatos históricos e heroicos que reproduzem muito bem a frase que comecei este texto. Senão, em I-Juca Pirama (A pronúncia correta, após consultar especialistas é [Piramá]):

 

Continua após a publicidade
Continua após a publicidade

"(...) Soltai-o! - diz o chefe. Pasma a turba;

Os guerreiros murmuram: mal ouviram,

Nem pode nunca um chefe dar tal ordem!

Brada segunda vez com voz mais alta,

Afrouxam-se as prisões, a embira cede,

A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo.

Timbira, diz o índio enternecido,

Solto apenas dos nós que o seguravam:

És um guerreiro ilustre, um grande chefe,

Tu que assim do meu mal te comoveste,

Nem sofres que, transposta a natureza,

Com olhos onde a luz já não cintila,

Chore a morte do filho o pai cansado,

Que somente por seu na voz conhece.

- És livre; parte.

- E voltarei.

- Debalde.

- Sim, voltarei, morto meu pai.

- Não voltes! (...)".

 

Continua após a publicidade
Continua após a publicidade

 

Continua após a publicidade
Continua após a publicidade
Anotações. (foto 02).

Claro e evidente que Gonçalves Dias advogava por uma história que fosse, simultaneamente poética-humanista. Uma crônica fiel dos acontecimentos? Poderia até ser! Mas com aquele tempero incrivelmente raro na construção lírica de Dias: mais que poesia, em "I-Juca Pirama", ou mesmo em "Os Timbiras", há uma história cheia de interpretações de elevado teor humano.

Então, a pergunta que não quer calar: os poetas de hoje são mais político-ideológicos, que historiadores-poetas? É uma tese interessante para se discutir, especialmente partindo da frase (ipsis litteris) atribuída ao nosso aniversariante da semana, mestre-romântico Gonçalves Dias:  "Quem quer que for bom historiador deve ter uma destas duas qualidades: ser político e poeta. O historiador político, escreverá o livro do povo; o poeta historiador escreverá o evangelho da humanidade, diz Gonçalves Dias”.

(Pelo menos é assim que li, conforme página publicada, em foto 02).

O caríssimo leitor que ora lê este texto, o que acha? Deixa sua opinião abaixo.

-----------------------

Pesquisa e Análises: pt.scribd.com/repositorio.ufjf.br/britannica.com/pt.wikiquote.org/sou.ucs.br

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Jaime Há 11 meses atrásBSB/DFTexto reflexivo e de muita erudição.
João Pedro Borges,Há 1 ano atrásWhatsApp Belíssimo artigo e muito interessante a temática sobre a obra desse maravilhoso poeta. Já li, mas vou continuar relendo de tão bom que achei!
Dr Sérgio TamerHá 1 ano atrás WhatsApp Excelente. Coloquei no grupo da nossa Academia (AMCJSP).
CARLOS NINAHá 1 ano atrásWHATSAPP1 - Parabéns, querido amigo Mhario. Pela sua dedicação à cultura. Você é um desses raros exemplos de resistência ao cultivo da ignorância, da estupidez. Exemplo de dedicação à promoção da informação que procura preservar valores morais e éticos. Esse trabalho sobre Gonçalves Dias é um belo exemplo disso.
CARLOS NINAHá 1 ano atrásWHATSAPP2 - Um dos mais fantásticos poetas, com sua obra ainda desconhecida na sua essência, apesar de citado com frequência. Bastaria esse exemplo do Timbira para se ter uma ideia dos valores que a obra de Gonçalves Dias propicia. A palavra dada. A honra. O compromisso. Veja-se, agora, o exemplo que as autoridades (todos os Poderes) públicas, que deveriam dar o melhor, oferecem …Não sei por que falar nessa gente me lembra Versos Íntimos, de Augusto dos Anjos.
Mostrar mais comentários
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
Atualizado às 12h01
15°
Tempo nublado

Mín. Máx. 20°

14° Sensação
4.63 km/h Vento
74% Umidade do ar
23% (0.22mm) Chance de chuva
Amanhã (26/08)

Mín. 11° Máx. 18°

Chuvas esparsas
Quinta (27/08)

Mín. 12° Máx. 26°

Tempo limpo
Ele1 - Criar site de notícias