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Entretenimento MARANHÃO NA ROTA

Navios negreiros escancaram cinismo do comércio de seres humanos no Oceano Atlântico.

O Maranhão estava na rota.

07/11/2020 22h15 Atualizada há 4 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: https://www.geledes.org.br/
Tortura e morte.
Tortura e morte.

Navios negreiros escancaram cinismo dos comerciantes de seres humanos no Oceano Atlântico. O Maranhão estava na rota. Um deles, o "Amável Donzela":

No Brasil, o destino dos homens, mulheres e crianças desta região era o Maranhão, onde serviriam como mão de obra para a cadeia do algodão, que vigorou no norte do Brasil. A produção era exportada principalmente para a Grã-Bretanha, em pleno desenvolvimento industrial.

 

 

Amável Donzela

(1788 a 1806)

Bandeira: Portugal

Tipo de embarcação: galera

Travessias realizadas: 11

Escravos transportados: 3.838

Escravos mortos durante a viagem: 298

Escravos desembarcados no Brasil: 3.540

Tripulação (média) = 31

Foi no dia 2 de outubro de 1788 que o capitão José de Azevedo Santos e mais 33 tripulantes deixaram Portugal para inaugurar uma lamentável história a bordo da galera Amável Donzela. Nos 7 anos seguintes, o barco realizou 7 viagens assassinas, sempre traçando o mesmo caminho de horror: de Lisboa para o porto de Cacheu, no centro-oeste africano, e de lá, entupido de seres humanos acorrentados, para o Maranhão, no Brasil.

À época, Cacheu era uma pequena cidade que se formava em volta do movimentado porto da primeira colônia fundada pelos portugueses na região, onde hoje é Guiné-Bissau, a Guiné Portuguesa. Desde 1675, havia em Cacheu um intenso comércio escravagista, demérito do principal fomentor do setor por ali, a Companhia de Cacheu.

Os escravos eram subjulgados em uma região um pouco mais ao norte, na Senegâmbia (hoje: Senegal e Gâmbia). Não era fácil vencer os escravos na Senegâmbia, região com alto índice de muçulmanos. O historiador Daniel Domingues da Silva, um dos responsáveis pelo estudo, aponta que a rejeição à escravidão em áreas muçulmanas era muito mais violenta do que em outras partes da África.

No Brasil, o destino dos homens, mulheres e crianças desta região era o Maranhão, onde serviriam como mão de obra para a cadeia do algodão, que vigorou no norte do Brasil. A produção era exportada principalmente para a Grã-Bretanha, em pleno desenvolvimento industrial.

Na primeira viagem da Amável Donzela,

186 escravos embarcaram, só 168 chegaram ao Brasil.

As travessias de 1790, 1793 e 1796 foram as mais violentas dessa primeira fase da Amável Donzela: 22, 26 e 27 pessoas morreram em viagens que duravam, em média, pouco menos de um mês.

É claro que ninguém tinha direito a um enterro. Para evitar contaminação no barco, o que significaria perda de mais mercadoria, os corpos eram jogados no mar. Wilson Prudente garante que, muito adoentados, alguns escravos eram amarrados a pedras e lançados ao fundo do oceano ainda vivos.

Entre 1792 a 1796, o capitão Joaquim Adrião Rosendo, que boa pessoa não deveria ser, liderou a Amável Donzela. Passava quase metade do ano no trajeto Europa — África — Américas. Foi o fim da primeira era do barco, que só voltaria ao comércio negreiro em 1804, ainda mais cruel e assassino, já com outro itinerário.

Foto de um navio negreiro em 1882, feita por Marc Ferrez.

Em vez de passar em Cacheu para pegar escravizados da Senegâmbia, o caminho da Amável Donzela agora seguia para Benguela e Luanda, em Angola, ainda mais abarrotados — desta vez com humanos do Centro-Oeste da África, área mais profundamente dominada pelos portugueses em toda a costa atlântica da África à época. A política escravagista portuguesa na região, especialmente em Luanda, deu-se por uma complexa parceria com o reino do Congo, que esfacelou o reino do N’dongo a partir do século 16. Presos, hereges, adúlteros, segundo o historiador Daniel Domingues da Silva, já eram escravizados na região ainda antes da chegada dos portugueses.

Toda essa história, certamente, facilitou o trabalho assassino da Amável Donzela em 1804 e 1805, em direção ao Rio, e em 1806, em direção ao porto de Pernambuco. Começava, justamente nesta época, justamente neste trajeto Angola — Brasil, o maior boom escravagista de toda história do Atlântico. Apenas nessas três últimas viagens do barco, 1.704 seres humanos foram acorrentados e embarcados a força para a América.

Da África a América, a Amável Donzela agora era mais lenta. Em vez dos 30 dias médios da década passada, a viagem passou para cerca de 55 dias. Mais tempo de horror e morte dentro do barco. Só nestas últimas três travessias, 170 morreram, 10% dos embarcados.

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