
Editoria de Literatura e Arte
Em setembro de 1972, a coluna de Odylo Buzar em O Imparcial registrou um momento raro de irreverência na Academia Maranhense de Letras: o compositor popular Lopes Bogéa, violão ao lado do professor Osvaldo Costa, invadiu a solenidade de posse do jornalista Erasmo Dias e transformou o cerimonial acadêmico em espetáculo musical.
A cena ocorreu logo após o discurso de recepção proferido pelo poeta Manuel Caetano Bandeira de Melo. Surpreendido pelo pedido de palavra do visitante, o presidente da Casa concedeu‑lhe o microfone. Bogéa então afinou a voz e, acompanhado pelo pinho seguro por Costa, entoou "Não Volto Não", dedicando a canção ao novo imortal.
O impacto dividiu o plenário: alguns acadêmicos indignaram‑se com a quebra do protocolo, enquanto outros – amparados pela vibração das galerias – viram na performance uma lufada de frescor necessária às velhas liturgias letradas. Sem oposição visível, Bogéa prosseguiu com "A Lenda dos Lençóis" e "Rasga Mortalha", recebendo palmas ritmadas que logo se espalharam entre público e confrades.
Quando as cordas silenciaram e a dupla se retirou, a polêmica estava instaurada. Para os puristas, a dignidade do recinto fora maculada; para os modernistas, abrira‑se precedente valioso que aproximava a Casa de Antônio Lobo do pulsar popular das ruas. Buzar anotou que nenhum sodalício do mundo assistira a coisa igual.
Cinco décadas depois, o episódio ainda reverbera como símbolo do embate entre tradição e espontaneidade na vida cultural maranhense. A crônica de Buzar – publicada em O Imparcial em 1972 – permanece testemunho vívido de que, mesmo entre imortais, a arte não aceita algemas quando a emoção decide ocupar o palco.
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