
João Ewerton, especial para o Facetubes.
Enfim se cumpriram as 3 noites de Festival em Parintins, onde se teve um grande diferencial nas apresentações, pois este ano, o Caprichoso seguiu a linha da resistência indígena, enquanto o Garantido manteve seu estilo lírico e mitológico, com os temas isolados distribuídos nas três noites, sendo: na primeira noite, "Jurupari: O Guardião da Floresta"; na segunda noite, "Carimbó: o Tambor da Amazônia"; e na terceira noite, "O Reino Encantado da Vitória-Régia". O Garantido manteve a divisão tradicional de espetáculos específicos por noite, o Caprichoso apostou num enredo político e ancestral, dividido em três atos: um ato para cada noite.
Este ano o Boi Garantido foi o grande vencedor do Festival Folclórico de Parintins 2025, conquistando seu 33º título e encerrando um jejum de vitórias que durava desde 2019. O Garantido venceu o Caprichoso por uma diferença de 1,1 ponto, totalizando 1.259 pontos contra 1.257,9 do Boi Azul, deixando as torcidas sem fôlego durante a apuração do resultado que faz a cidade parar.
Só quem presencia este espetáculo magnífico pode entender por que o Festival Folclórico de Parintins, hoje em dia, é considerado um dos maiores tesouros culturais do Brasil, representando muito mais que uma competição entre os bois Garantido e Caprichoso. Sua relevância se destaca em três importantes dimensões: sendo a primeira delas a sua colaboração para a preservação da identidade amazônica, mantendo vivas as lendas, rituais e tradições da região, além dos cantos indígenas, integrando elementos caboclos, afro-brasileiros e nativos.
Além disso, o Festival de Parintins é uma celebração da cultura ribeirinha, com toadas, danças e alegorias que retratam a vida na floresta e nos rios, e o imaginário desses povos que habitam esse universo das águas.
Na arena do Bumbódromo, as expressões artísticas e as inovações se tornaram a tônica principal desses espetáculos de arte em movimento, combinando teatro, música, esculturas gigantes e performances que rivalizam com o Carnaval do Rio ou de São Paulo em criatividade, além de servir como palco para artistas locais, compositores e artesãos, movimentando a economia criativa da região.
Devido à sua singularidade e apelo inovador, o Festival de Parintins hoje é reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil. Foi esse festival que projetou a Amazônia no imaginário nacional, mostrando sua riqueza cultural pulsante, além do seu exuberante bioma.
O Festival de Parintins, no meu ponto de vista, é a materialização de um trecho da letra da canção visionária, “Um Índio”, de Caetano Veloso, quando ele diz:
“Um índio preservado em pleno corpo físico, em todo sólido, todo gás e todo líquido, em átomos, palavras, alma, em cor, em gesto, em cheiro, em sombra, em luz, em som magnífico. Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico, do objeto sim resplandecente descerá o índio. E as coisas que eu sei que ele dirá, fará, não sei dizer assim de um modo explícito!...”
É isso que senti ao ver a exuberância e a ousadia estética dos espetáculos dos dois bois de Parintins, dando uma roupagem singular à alma dos povos originários e aos temas atuais como resistência indígena e preservação ambiental, que são abordados com muito vigor, transformando o evento num manifesto político-cultural. Como por exemplo, quando o Caprichoso aposta na estética engajada com o sociocultural e com as tecnologias cênicas.
Em resumo, Parintins não é só um festival: é a alma da Amazônia materializada naquela arena do Bumbódromo, em todo um conjunto titânico de performances, no número de figurantes e nas gigantescas alegorias, que se tornaram um símbolo de resistência cultural e uma das mais autênticas expressões culturais do Brasil.
Aliás, considero que as alegorias colossais dos bois de Parintins não são apenas estruturas de aço, espuma e tinta: elas são monumentos em movimento, erguidos com a força da coletividade, da ancestralidade e do sonho amazônico. Elas desfilam, não sobre o chão, mas sobre o imaginário do povo, materializando lendas, mitos, encantarias e memórias. Cada figura gigantesca que se revela na arena é uma entidade viva, uma oferenda de cor e som à floresta, ao rio e aos espíritos que habitam a cultura cabocla. É como se a alma do Brasil profundo se tornasse visível em forma dos mitos que habitam os rios e florestas. E o que se vê ali, diante dos olhos extasiados da multidão, não é apenas um espetáculo — é um ritual de pertencimento, uma afirmação visual da grandiosidade amazônica. O colosso das alegorias não está apenas no tamanho: está na potência simbólica de uma arte que resiste, encanta e canta o que é visível, assim como revela o que há de mais precioso dos ícones do invisíveis. Aquelas obras titânicas não são apenas alegorias restritas ao espetáculo na arena; elas simbolizam a grandiosidade de tudo aquilo que compõe o universo amazônico, gigantesco em todos os seus aspectos.
Mas Parintins não é o único festival do Amazonas, pois ali ocorrem outros importantes festivais, como:
O Festival Folclórico de Barreirinha, realizado anualmente nesse município próximo a Parintins, é uma manifestação tradicional que celebra a cultura local por meio da disputa entre dois bois folclóricos: o Touro Branco e o Touro Preto. A edição de 2025 acontecerá agora em agosto, entre os dias 28 e 30, na Arena do Touródromo, e inclui eventos como Encontro das Torcidas, Ensaio Técnico e a noite decisiva de competição, além de atividades paralelas que valorizam artes plásticas, economia criativa e identidade amazônica.
A Festa do Guaraná de Maués, realizada anualmente em novembro, na cidade amazonense de Maués, é um dos festivais folclóricos mais tradicionais da região Norte, celebrando o guaraná como símbolo cultural, econômico e mítico do povo local. O evento foi concebido a partir de lendas indígenas sobre a origem do guaraná, nascido das lágrimas de uma criança sagrada, valorizando a história local da tribo Sateré-Mawé em Maués. Consolidou-se como evento socioeconômico e turístico, focado no fruto e na identidade regional.
Temos ainda o Festival Folclórico de Humaitá — às vezes chamado de “Mangabafest” —, combinado com o Festival Folclórico, um evento real e tradicional no município de Humaitá, localizado no sul do Amazonas, próximo à divisa com Rondônia.
Esse evento ocorre normalmente em agosto, com programação de dois a três dias, e reúne apresentações de diversos bois-bumbás e quadrilhas juninas, criadas por agremiações locais como os grupos: Filhos da Selva, Fogo Azul, Marupiara e Flor da Mangaba.
Outro importantíssimo evento amazônico é o Festival das Tribos do Alto Rio Negro, que acontece no município amazônico de São Gabriel da Cachoeira, na fronteira do Amazonas com a Colômbia e Venezuela. São Gabriel da Cachoeira é um dos municípios mais indígenas do Brasil, com predominância das etnias Baniwa, Tukano, Yanomami e outras, e tem como principal evento o Festival Cultural das Tribos Indígenas do Alto Rio Negro, conhecido como Festribal, que reúne as principais etnias da região, Tukano e Baré. O evento é realizado no Ginásio Arnaldo Coimbra, entre agosto e setembro, e celebra a diversidade cultural indígena por meio de danças, músicas, alegorias e exposições, sendo a maior manifestação cultural dos povos originários da floresta amazônica e um espaço fundamental para preservar e difundir suas tradições ancestrais.
Diferentemente dos bois-bumbás de Parintins, este evento é focado nas tradições indígenas, sem influência do folclore caboclo ou afro-brasileiro.
Durante o festival, os grupos de diferentes etnias se apresentam com trajes típicos, pinturas corporais e instrumentos tradicionais, tais como as flautas de taboca e maracás. Paralelamente ao evento, acontecem exposições de artesanato, vendas de comidas típicas e debates sobre direitos indígenas e sustentabilidade.
Embora não seja no estado do Amazonas, o Festival de Parintins influenciou a Festa do Sairé, realizada anualmente em Alter do Chão, Santarém, no Pará — uma celebração tradicional que combina rituais indígenas e influências jesuíticas, destacando-se pelo Ritual dos Botos, uma disputa entre dois grupos folclóricos denominados Boto Tucuxi e Boto Cor-de-Rosa, que encenam a lenda do boto amazônico. Essa competição artística segue o modelo do tradicional Boi-Bumbá de Parintins, com apresentações coreografadas, figurinos elaborados e enredos temáticos. O festival, que ocorre anualmente em setembro, é considerado a maior manifestação cultural do oeste do Pará e atrai milhares de visitantes. Esses festivais fortalecem a identidade cultural da Amazônia, especialmente nas comunidades ribeirinhas, e são uma extensão da tradição do Boi-Bumbá de Parintins.
Além da disputa dos botos, o evento reúne manifestações culturais, religiosas, danças, artesanato e culinária típica, sendo reconhecido como patrimônio cultural nacional pela sua importância na preservação da identidade amazônica.
Após a última noite do festival, sigo pela rua da Marujada em busca de atravessar a Avenida das Nações, num trajeto super demorado, tentando abrir espaço entre o mundo de gente que se acotovela em busca de caminho para seguir em frente e chegar a qualquer lugar onde se possa respirar e aliviar o calor infernal que faz naquele momento. Agora, sigo minha aventura pelo Rio Amazonas, em busca das memórias do meu avô.
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