
Editoria-geral do Facetubes
Nossa equipe de redação queria sair da mesmice e procurar um tema diferenciado para publicar neste Dia dos Pais. Desta forma decidimos, então, "viajar" em cima de uma proposta meio maluca: diferenciar o 'pai-comum' (vamos dizer assim) de um 'pai-poeta'.
Quais seriam essas as diferenças?
As ideias foram brotanto em nosso circulo de opiniões e de repente alguém perguntou: será que um 'pai-poeta' e um 'pai-comum' (um pai que não esteja ligado ao mundo literário-poético), podem partilhar o mesmo essencial, assim como, dar proteção, afeto, responsabilidade? Outro editor respondeu: claro que sim! E mais um completou: podem até partilhar, mas bem lá no fundo, eles vivem tensões diferentes.
Pronto! O mote foi devidamente debulhado e se abriu uma porta imensa para se escrever esse texto.
Começando por (hipoteticamente) essa diferença: do 'pai-poeta' do 'pai-comum'. Comecemos pela realidade: o poeta depende de silêncio, ritmo e recolhimento; a paternidade exige presença, rotina e disponibilidade.
Se o 'pai-comum' muitas vezes mede o dia pelo relógio, o 'pai-poeta' tende a medi-lo por imagens e palavras. Nesse encontro, surgem conflitos práticos (horários, prazos, sustento) e um ganho ético: a linguagem deixa de ser apenas matéria de ofício e passa a ser dever de cuidado.
Assim, abrir mão na concepção do 'pai-poeta', não é abdicar da arte, mas rearrumar o método. Em vez de longas jornadas noturnas, blocos curtos entre sonecas. No lugar da obsessão pela obra “definitiva”, rascunhos datados e versões “suficientemente boas”.
Isso quer dizer: menos eventos e mais banhos dados, lições de casa, acompanhadas e passeios sem celular. "A pauta vira a casa, e a ética, presença — ouvir sem gravador, olhar sem pressa — substitui a mitologia da inspiração contínua", disse por telefone, a Dra. Flora Guilhonm.
Desta forma, a relação direta pai-poeta/filho costuma corrigir o olhar do artista para o concreto. William Wordsworth resumiu essa relação com um verso que cabe num berço: “The Child is father of the Man” (a Criança é o pai do Homem). O filho ensina o poeta a reaprender o mundo por meios simples, e o poeta, se atento, devolve ao filho a nomeação atenta das coisas — uma pedagogia de linguagem e afeto.
Claro que o olhar filosófico tem que ter em qualquer produção desta Plataforma. Por isso, essa tensão entre vocação e dever - sob o ponto de vista filosófico, claro - é antiga.
Søren Kierkegaard, filósofo e teólogo dinamarquês, contrapôs o “estético” ao “ético”, tomando o casamento e a vida familiar como paradigma do compromisso que molda a liberdade — um contrapeso à vida solitária da criação.
Emmanuel Lévinas, filósofo francês, descreveu a paternidade como “fecundidade”, um vínculo que projeta o 'eu' para um futuro que não controla — o outro que pede responsabilidade antes de qualquer escolha.
E Santo Agostinho (cada dia mais ele se torna um editor espiritual do Facetubes), deixou um raro registro de um filósofo escrevendo com o próprio filho: o diálogo "De magistro", com Adeodato, onde pai e filho investigam juntos linguagem e sentido. Essas três chaves — compromisso, alteridade e diálogo — oferecem um mapa útil para o pai-poeta.
Na poesia, abundam retratos de paternidade. W. B. Yeats escreveu, logo após o nascimento de Anne, um desejo que é programa educativo: “May she be granted beauty, and yet not / Beauty to make a stranger’s eye distraught”. (“Que ela receba beleza, mas não / Beleza que perturbe os olhos de um estranho”.). É a voz do pai que pede virtude antes de brilho, caráter antes de carisma.
Ted Hughes, poeta e escritor de livros infantis britânico, transformou uma cena banal — fim de tarde e a filha chamando a lua — num momento poetica da atenção paterna: “A spider’s web, tense for the dew’s touch” (Uma teia de aranha, tensa ao toque do orvalho). O poema registra que a presença do pai não compete com a poesia; essa presença é a poesia. (Bonito isso).
No Brasil esse tema é fecundo. Ferreira Gullar levou essa tensão ao ponto da autocrítica. Em “Filhos” (de Muitas Vozes, 1999), o poeta registra um remorso que muitos artistas reconhecerão: “Só então me perguntei / por que / não lhes dera / maior / atenção…”.
O livro ainda traz outras peças em que a experiência paterna, inclusive o luto, determina a forma do poema — casos como “Visita”, texto curto e dilacerado sobre a perda de um filho. Aqui, a paternidade não é tema: é acontecimento que redefine a poesia.
Também oferece o raro quadro da conversa pública entre um ‘pai-poeta’ e um ‘filho-poeta’. Fabrício Carpinejar, filho de Carlos Nejar, transformou a relação em cena, recital e matéria de formação. Em depoimentos e apresentações, o filho reconhece não a sombra, mas a coragem herdada do pai; e o pai, por sua vez, lê ao lado do filho, como quem divide a própria casa. O gesto mostra que a tradição, quando viva, não é peso: é parceria.
No Brasil, ainda, Vinícius de Moraes confessou a ambivalência sorridente de criar filhos — “Filhos… Filhos? Melhor não tê-los! / Mas se não os temos…” — e terminou rendido ao óbvio: “que coisa linda que os filhos são!”. Carlos Drummond de Andrade encarou a pergunta que desarma qualquer vaidade literária — “Como fazer feliz meu filho?” — e admitiu que nenhum brilho intelectual substitui o tato cotidiano. É a lição do chão de casa contra o pedestal da poesia.
No fim, as diferenças básicas entre o 'pai-poeta' e o 'pai-comum' não estão na hierarquia de amores, mas na consciência do tempo. Se quiser prestar mais atenção ao filho, o 'pai-poeta' troca (intensidade produtiva) por vigilância — menos páginas, mais presença — e aceita que sua melhor obra, por alguns anos, pode ser invisível, feita de vocabulários compartilhados e risos noturnos. E sabe por quê? Porque a poesia não cessa; muda de lugar.
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Fontes: Poetry Foundation; Poets.org; Stanford Encyclopedia of Philosophy; Emmanuel Levinas, Totality and Infinity; Santo Agostinho, Confissões e De magistro; Fundação Vinícius de Moraes; Escritas.org.
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