
Por Mhario Lincoln
Há artistas que produzem para enfeitar paredes. Outros, para provocar. José Cordeiro Filho, não. Ele pinta para salvar do esquecimento aquilo que o tempo insiste em levar. Seus traços não são apenas desenhos — são atos de resistência. Guardam o rosto, a postura e até o som dos passos de quem já não anda mais por nossas ruas. Ex-vereador, homem público, integrante da comissão que devolveu vida e cor ao Centro Histórico de São Luís, no "Projeto Reviver", Cordeiro Filho faz mais: tenta devolver à cidade o que lhe é de mais belo, não apenas as fachadas (poucas ainda reluzem), mas o pulsar do que nelas vivia. Esse foi o mote para chegar à Academia Poética Brasileira, Cadeira 41, como patrono-fundador, e receber todo o reconhecimento de uma vida-labuta 'a pro' uma São Luís cada vez mais desgastada por insensíveis.
Muitos méritos para Cordeirinho, como é amiúde, chamado. E quem o conhece sabe que ele recolheu com memória afetiva, mesmo, um a um, os pregões que embalavam as manhãs da nossa infância para retratá-los com sua pena infalível, carregada de tinta de pertencimento. Os pregoeiros — herança de um tempo colonial em que mercadores, de porta em porta, anunciavam suas mercadorias a pulmões inteiros — povoam seu papel com dignidade e poesia.
Ainda lembro de quando morava na Rua do Passeio, lá pelos anos 70, e minha mãe recebia 2 vezes por semana, à porta, verdureiros, vendedores de peixe (nem sempre) fresquinhos, - porque caminhar do Desterro até a Rua do Passeio, sob um sol de 40 graus, já viu), ovos-caipiras, leite em canjirões de 20 livros (lembra?); enfim, todos ganham eternidade no construir linha por linha, do artista.
Uma vez eu disse para ele: Cordeiro você é mais que genial porque cada desenho seu é um reencontro; cada rosto, uma rua inteira de lembranças. Você me fez reviver e chorar, especialmente quando li "Brinquedos e Brincadeiras de Criança", livro-guia (além de mostrar o desenho ensina a construir os artefatos), publicado em 2015. Realmente uma pérola. (Ainda vou escrever sobre ele).
Pois bem! E como diria o poeta maranhense Lopes Bogéa, “... os pregoeiros de Cordeirinho, são as pedras da rua; imortais e inesquecíveis”. E eu complemento: no traço simples e preciso (difícil) de Cordeiro Filho, essas pedras falam, cantam e, pelo menos para mim, contam belíssimas histórias.
Com certeza, amigo Cordeiro, essa é a fórmula que só você encontrou para fazer a velha e esquecida São Luís - que nem tem culpa da síndrome do autoesquecimento - voltar a si, voltar a se reconhecer como sempre deveria: bela, resistente, única, no espelho da sua própria memória.
Obrigado Cordeiro Filho, por tanta insistência.
Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira.
A EXPOSIÇÃO
Com suas aquarelas, crônicas gráficas e olhar de quem ama São Luís — como diria Lopes Bogéa — “são as pedras da rua imortais e inesquecíveis”. Cordeiro Filho as faz durar para sempre.
José de Ribamar Cordeiro Filho: Entre memórias gráficas e o renascimento da cidade — exposição "Dois em Um".
A partir de 15 de agosto de 2025, o Centro Cultural do Ministério Público, no coração de São Luís (Rua Oswaldo Cruz, 1396), abre suas portas para uma mostra com toque poético e profundo carinho pela cidade — a exposição “Dois em Um”, de José Cordeiro Filho, com visitação gratuita de segunda a sexta, das 8h às 15h. A abertura oficial acontece às 9h na sexta-feira, marcando o início de uma celebração visual do patrimônio ludovicense.
Quem é José Cordeiro Filho?
Filho de São Luís, nascido em 31 de dezembro de 1950, Cordeiro Filho é artista gráfico, cartunista, caricaturista, escritor e ex-vereador (1982–1992). Formado em Desenho e Plástica pela UFMA, rapidamente se destacou nas Feiras do Livro com suas coleções poéticas de desenhos, principalmente dedicadas aos pregoeiros e feiras da cidade.
Da rua ao papel: os pregoeiros e a memória afetiva
Cordeiro Filho construiu uma carreira voltada ao resgate emocional de São Luís através da arte gráfica. Sua coleção “Pregoeiros e Praças de São Luís Antiga” — apresentada desde 2015 e reeditada em diversas versões, inclusive em 2015 com dez peças em papel A4 exibindo vendedores tradicionais e cenários típicos — é um dos seus trabalhos mais emblemáticos. Esses personagens anônimos que entoavam seus pregões pelas ruas — oferecendo sorvete de coco, peixe fresco, pamonha quentinha, frutas típicas, verduras ou "bolo podre" - bolo de tapioca, — ganham vida nos traços fortes e poéticos do artista, devolvendo-lhes o devido reconhecimento cultural (Reportagem do Facetubes).
O gestor cultural e o Projeto Reviver
Sua contribuição não se limitou às artes visuais. Nomeado por Epitácio Cafeteira em 1988, Cordeiro Filho tornou-se coordenador do Projeto Reviver, iniciativa que restituiu cores, calçadas e vida ao Centro Histórico — especialmente à Praia Grande — inaugurado em 1989 e considerado um marco de revitalização urbana. A partir daí, seguiu atuando nos governos da prefeita Conceição Andrade e dos prefeitos Jackson Lago e Tadeu Palácio em cargos como assessor especial, diretor da Fundac, superintendente da Fundação do Patrimônio Histórico (FUMPH) e diretor de cultura e documentação na Câmara Municipal.
Sua trajetória evidencia um compromisso duradouro com o patrimônio material e imaterial de São Luís — um verdadeiro guardião cultural.
Reconhecimento artístico e acadêmico
Em 2022, Cordeiro Filho foi agraciado com a comenda de imortal da Academia Poética Brasileira (APB), em cerimônia realizada pela AMEI, como reconhecimento de sua vasta obra gráfica e dedicação às artes e à memória regional. Na ocasião, Mhario Lincoln, presidente APB, disse: "Cordeiro sempre foi imortais, especialmente por seu imortal amor a São Luís do Maranhão, retratado com sensibilidade em seu incansável trabalho, como um autêntico artista, guardião da alma ludovicense".
Estão todos convidados.
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