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JOÃO EWERTON: “Água e Folhas do Amazonas”. Episódio XXIV

João Ewerton é membro da Academia Poética Brasileira.

16/08/2025 às 11h50
Por: Mhario Lincoln Fonte: JOÃO EWERTON
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João Ewerton (exclusivo Facetubes).
João Ewerton (exclusivo Facetubes).

JOÃO EWERTON

 

Por que a Arte Importa:

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Antes de entrar na narrativa, peço licença aos “leitores de bem” para solicitar aos seres de IDH abaixo do risco da cobra que, por favor, não avaliem o que soletram por aqui com o olhar cego da ignorância de vocês, para municiar comentários estúpidos que tentam denegrir minha imagem por entendimento isolado e interpretação turvada pelo partidarismo idiota. Não escrevo para vocês; escrevo para aqueles que têm lastro cultural, decência e educação para conviver numa sociedade saudável, livre de seres dessa escória, vítimas da lavagem cerebral do grupo de WhatsApp das tias. Sugiro que, antes de verter seus venenos, leiam desde os primeiros episódios, para não precipitarem conclusões equivocadas e insultuosas. Eu respeito e exijo o mesmo. Aliás, desses seres, prefiro a distância absoluta. Desculpem-me os leitores de bem, mas precisava deixar esse recado diante de tanta coisa repugnante que esses infelizes escrevem nos comentários, que, por isso mesmo, não são publicados. (João Ewerton)

 

Agora, vamos retomar o fluxo da normalidade. 

É chegado o dia de sair de Parintins e voltar a navegar pelo Rio Amazonas para chegar até Belém de navio, refazendo o trajeto do mau avô.

Embora o festival tenha encerrado, a ilha de Parintins ainda respira os ares do Caprichoso e do Garantido, irradiando uma energia vibrante de regozijo, encantamento e positividade.

Durante os preparativos, Parintins se transforma completamente. Suas ruas, casas e estabelecimentos ganham as cores dos bois — azul do Caprichoso e vermelho do Garantido — refletindo uma estética que é ao mesmo tempo visual e vivencial. Este colorido invade placas, fachadas, embalagens de produtos e reforça a rivalidade de modo festivo e simbólico. Aqui, a Brahma e a Coca-Cola mudam sua cor para o azul quando estão do lado do Caprichoso. Vi uma vitrine da Yamaha toda pronta com elementos dos dois bois anunciando o lançamento de uma moto, como se essa fosse prata de Parintins. Isso é resultado da força da economia criativa.

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Navio que cobriu o trajeto Parintins (x) Belém.

A estética dos bois ganha vida em toda a cidade, demonstrando o quanto a criação dos artistas dos dois bois se comunica com a cidade, seu povo e seus visitantes, pois estilistas dos bois, por exemplo, não criam apenas roupas, mas constroem narrativas visuais onde cada indumentária é resultado de muita pesquisa, temática e simbologia, materializada nos bordados, texturas e materiais que expressam histórias da floresta, da milenar cultura indígena e da inigualável identidade visual do Festival de Parintins. O Bumbódromo, com sua forma de cabeça de boi, funciona como arena simbólica onde se realizam aspectos performáticos e espetaculares dos dois bois. Ali, elementos cênicos, narrativas ancestrais e modernidade tecnológica dialogam e constroem essa singular identidade cultural parintinense.

Os dois bois do Festival encenam mais do que folclore; eles nos mostram um mundo mágico e envolvente, onde revelam a magnífica riqueza das trajetórias dos povos indígenas, dos caboclos e dos quilombolas, que até então estavam invisibilizados pela narrativa histórica oficial. O festival é um teatro identitário amplificado, onde personagens como pajé, cunhã-Poranga, Catirina, Pai Francisco e o Cazumbá são carregados de camadas de significados políticos e culturais. O Festival é o laboratório de uma estética de resistência que transforma trauma em afirmação visível, coletiva e pulsante.

Os “Bumbás” de Parintins são um motor econômico e artístico que impulsionam uma ampla cadeia produtiva na cidade, favorecendo artesãos e artistas locais que se organizam para produzir móveis, adereços, miniaturas dos bois e acessórios em madeira, penas, sementes e outros materiais naturais, que não apenas refletem identidade, mas sustentam financeiramente a comunidade — sem contar com o comércio de alimentos feito por estabelecimentos e por moradores, nas mais diversas modalidades, assim como a rede hoteleira e proprietários de imóveis que oferecem aos visitantes as mais diversas modalidades de hospedagem. Toda a cidade ganha com o Festival; estima-se que o evento injete aproximadamente R$ 160 milhões na economia local.

Além disso, é importante frisar que a atuação artística vinculada aos bois bumbás também impactou a formação urbana e cultural de Parintins, onde o talento dos artistas locais está profundamente ligado à ancestralidade indígena e à espetacularidade do festival, que permite espaço para que a arte floresça, absorvendo inspiração e gerando inovação visual e performática. Um grande exemplo disso são as esculturas que apresentam a cultura amazônica para quem chega no porto de Parintins. Aquelas são mais do que obras de arte; são um elo entre o passado mítico e o presente vibrante da Amazônia. Com figuras de proporções expressivas que retratam lendas, cenas cotidianas do povo ribeirinho e alegorias sobre a vida amazônica, essa instalação transcende a mera representação visual, tornando-se um testemunho da identidade cultural da região.

Além de retratar a alma amazonense, inspiradas nas tradições do Festival Folclórico de Parintins, onde alegorias desempenham papel crucial na narrativa das histórias do boi-bumbá, as esculturas do porto seguem a mesma lógica de celebração e preservação cultural. Assim como as alegorias no festival são grandes estruturas artísticas que funcionam como suporte e cenário para apresentações, representando o item 16 da competição, as esculturas do porto, instaladas como cartão de visitas da cidade para os visitantes que desembarcam, também são avaliadas por sua beleza, criatividade e originalidade — que impressionam e já dizem ao visitante que ele está chegando a uma ilha diferente de tudo que já tenha visto.

A escultura no porto de Parintins é uma extensão do movimento artístico que permeia a cidade. Projetos como o “Roteiro das Artes”, uma iniciativa da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas, com execução por meio do Centro Cultural de Parintins, o Bumbódromo e apoio do Liceu de Artes e Ofícios Cláudio Santoro, Unidade Parintins. Essa galeria a céu aberto, que cobre mais de dois mil metros quadrados na Ilha Tupinambarana, visa promover a arte local em diversos pontos turísticos e ruas da cidade, sendo a sua principal obra, o mural "Vitória da Cultura Popular", localizado na fachada do Bumbódromo, assinado pela dupla de artistas parintinenses Curumiz (Alziney Pereira e Kemerson Freitas).

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O projeto também integra o programa “Circuito+Cultura”, que oferece opções culturais gratuitas à população.

Esse projeto incentivou a arte parintinense em suas variadas formas, cores e manifestações. Essa iniciativa transformou o espaço público num museu vivo, acessível a todos, e reforça o papel da arte como elemento de pertencimento e orgulho local, estimulando o público a refletir sobre identidade, espaço e pertencimento, porque, ao contemplar peças como essas esculturas do porto, o observador é convidado a mergulhar nas profundezas da cultura amazônica, reconhecendo nela não apenas uma obra de arte, mas um reflexo da alma da região.

Parintins põe em prática e nos apresenta objetivamente tudo aquilo que, ao longo da história, filósofos e teóricos enxergaram na arte como algo muito além do entretenimento, conforme foi dito por Tolstói, quando afirma que a arte é ponte de emoções que une as pessoas. Enquanto Benedetto Croce diz que a arte é a expressão pura da intuição. Aquelas esculturas enfatizam aquilo que Walter Benjamin escreveu sobre a obra de arte, com algo que tem poder crítico e político, capaz de questionar o mundo e democratizar ideias. Essas obras parecem sincronizadas com o pensamento de Nietzsche e Heidegger, quando estabelecem que a arte é o sentido para a existência e a revelação do que está oculto. Acho que essas peças ilustram também o que Brecht e Paulo Freire ressaltam quando dizem que a arte tem papel social, de despertar consciência e libertar as mentes. Enfim, se formos pensar mais, aquelas peças estão enquadradas perfeitamente naquilo que Kant e John Dewey escreveram ao analisar a experiência estética como espaço de liberdade e integração com a vida. Em todas essas visões, a arte se mostra indispensável: um campo onde o humano se reconhece, se desafia e se transforma. Isso é o que ficou na minha mente diante daquelas obras tão arrebatadoras.

Seria bom que os nossos gestores e o nosso povo entendessem que a arte é necessidade vital. Ela não é luxo, não é mero enfeite e tampouco algo reservado a uma elite sensível. Ela atravessa nossas formas de pensar, sentir e agir, funcionando como espelho e como farol.

Depois de tantos pensamentos fervilhantes, despertados pelo encantamento daquelas esculturas impressionantes, fiquei meditando um pouco na sala de espera moderna do porto, com portas e janelas expressivas, em vidro blindex, muito bem climatizada, complementando a estrutura do porto, todo milimetricamente planejado para receber bem o visitante. Naquela sala confortável, fiquei aguardando o navio Itaberaba I, que me levará até Belém. Antes que alguém ache que estou a serviço da Secretaria de Turismo de Parintins, quero deixar claro, que, quem me conhece sabe que não meço palavras para denunciar o lado negativo, como também sabe do meu grau de justiça em falar daquilo que realmente for positivo.

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Diolinda de Freitas, professo da Rede PúblicaHá 10 meses Vassouras RJSerá que tem razão para tantos elogios, caro sr. Ewerton? Qual seria a diferença básica (em marketing) para outras manifestações (especialmente no Nordeste) que o sr. conhece? Agradeço sua atenção para comigo. Quero organizar um boi aqui em meu município e preciso de orientação. Será que faço igual Parintins ou Maranhão ou o que faço? Estou no Rio.
Antonio Oliveira SilvaHá 10 meses São Luís do Maranhão0"Esse projeto incentivou a arte parintinense em suas variadas formas, cores e manifestações. Essa iniciativa transformou o espaço público num museu vivo, acessível a todos". João, eu li isso mesmo. É sério?
Maria Zuê e família ZuêHá 10 meses Manaus AMSr. Ewerton. Agradeço mais uma vez esse seu gesto incrível de bem querer ao divulgar nosso folclóre para o Mundo através deste blog.
Souto MaiorHá 10 meses Brasília DFCara Marli. Concordo em gênero, número e grau.
Marli TeixeiraHá 10 meses Minha mãe era do Maranhão e morreu aqui no Rio.O maranhão é engraçado. Poucos fazem e quando esses poucos fazem aqueles que nada fazem criticam os poucos que fazem. essa é a razão desse estado nunca evoluir culturalmente e ainda tem a infelicidade de ter políticos xiitas porque tanto a esquerda quanto a direita extremistas são desnecessárias e amaldiçoadas.
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