
Dino de Alcântara
O episódio que se verá a seguir me foi narrado por Ruy Castro. Estávamos tomando um café na Confeitaria Colombo num fim de tarde de setembro de 2023. Falou-me o escritor sobre os seus livros – sobretudo de O Anjo Pornográfico: A vida de Nelson Rodrigues –, de seus projetos e da política. Foi aí que, sem planejar nada (isso eu juro pela mão de Zé Sarney) meti a boemia do Rio de Janeiro de fins do Século XIX e início do XX na conversa. Queria saber do ilustre pesquisador sobre as farras de Olavo Bilac, Arthur Azevedo Coelho Neto, entre outros. Não que eu goste de falar da vida alheia, mas... há horas em que é melhor falar da vida dos nossos escritores do que da nossa velha e enlameada política.
Foi aí que o biógrafo tirou da bolsa um livro sobre a vida de Olavo Bilac e me perguntou se eu conhecia. Maravilhado, disse que não e que adoraria ler. Mas, ao contrário do que imaginava, não me presenteou. Decidi na hora que ia atrás do livro, nem que fosse num sebo. E me narrou alguns episódios da vida do autor de “Ora (direis) Ouvir Estrelas!” Por exemplo: me disse que os únicos seios, que tanto estavam presentes em sua poesia, que ele havia tocado eram os da sua mãe. Eu já imaginava isso. Mas a conversa foi em direção à relação dele com os amigos na boemia carioca e, sobretudo à sua amizade (quase eterna) com José do Patrocínio, o ilustre gênio da luta abolicionista.
Afirmou-me, entre um gole e outro de um café puro com torradas, que Bilac um dia – nos idos de 1902 – se deparou com uma notícia de capa de um jornal sobre um corpo achado numa praia carioca. E o dito jornal levantava a hipótese de ser de José do Patrocínio, que há semanas não dava as caras nas movimentas ruas do Rio.
Bilac, em desespero, quase em prantos, saiu correndo, pegando um tílburi e indo em disparada para o IML, que, na época, se chamava Serviço Médico-Legal. Lá chegando, com os batimentos cardíacos acelerados, entrou feito um foguete na sala dos exames cadavéricos. Deu de cara com o doutor Ribas, que, de pronto o reconheceu, falando do imenso prazer de receber tão ilustre visita.
Bilac não tinha ouvidos para elogio nenhum. Queria saber se era mesmo o seu velho amigo Patrocínio que estava ali pronto para ser levado ao túmulo sem nenhuma cerimônia.
O doutor Ribas lhe explicou que era muito difícil o reconhecimento porque o cadáver achado, embora fosse de um homem negro, estava sem a cabeça. Diante do espanto do poeta, o médico explicou que certamente o pobre homem havia sido morto de forma violenta, com o tronco lançado no mar. A cabeça não tinha sido encontrada.
Bilac, depois de pensar um pouco, pediu que o médico retirasse o pano que cobria os restos mortais do infeliz. O peito era muito semelhante ao do amigo. A barriga também.
As lágrimas começaram a cair, quando o médico tirou totalmente pano, deixando até o baixo ventre visível.
Bilac deu vivas e riu-se como uma criança que ganha um presente.
O Dr. Ribas quis saber porque estava tão feliz.
– Ora, doutor, então não vês que não é o corpo do Patrocínio que está diante de nós.
– Como tem tanta certeza?
– Doutor, esse pobre homem que aí está é um miserável, carente de tudo na vida... É um desprovido, um necessitado!
O médico ainda estava sem entender a autópsia feita por Bilac, quando este, indicando as genitálias do cadáver, foi mais explícito:
– O nosso Patrocínio, doutor, era... era não... é, porque ele está vivo... um favorecido pela natureza humana.
– Como?!
– Um homem pródigo, um perdulário, se é que me entende...
O doutor Ribas não conteve uma gargalhada rabelaisiana.
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