
Eloy Melonio é poeta, escritor, compositor e membro da Academia Poética Brasileira.
MEL & PATRICK
A história de nossas personagens não se compara a de “Romeu e Julieta”, cujo enredo dramático faz muita gente chorar. E muito menos à natureza dos protagonistas. E de tantas outras coisas que se situam entre a realidade e a ficção. Mas tem pontos comuns: amor, entrega e uma boa pitada do inusitado.
Sinceramente não me lembro de casais que se encaixem nesse perfil. Talvez Yoko e Lennon, Michelle e Barack Obama ou Glória Meneses e Tarcísio Meira. E os milhares de “anônimos” que vivem por aí. Imagino que você reconhece alguns deles em sua família, em seu círculo de amigos ou na vizinhança.
Uma das diferenças entre nossos protagonistas e os famosos é que eles se conheceram muito, muito cedo. Eram, como se diz carinhosamente, “pintinhos”. E não precisaram sair de seu terreiro à procura do seu milho da sorte. Ou seja, acharam-se ocasionalmente e se juntaram para o que "desse e viesse", segundo a promessa musical de Geraldo Azevedo, pernambucano arretado de Petrolina.
Falar de casais exemplares não é tão seguro quanto parece. É que vida privada é como um mistério de romance policial. E se eu exagerar em algum ponto, peço-lhe que desconsidere essa falha. A intenção aqui é mostrar que esses — pelo menos em público — eram tidos como modelos de vida conjugal.
E que fique bem claro: para ser um casal exemplar não tem de ser só gente famosa, que recebe aplausos na TV e likes nas mídias sociais. Pode ser um casalzinho que você talvez nem imagine. Tipo aquele em que o marido vai na frente e a mulher atrás, tentando acompanhar seus passos. Parecem desencontrados na rua (e na etiqueta social), mas, na vida íntima, podem ser exemplos de “almas gêmeas”.
A verdade é que almas gêmeas não é coisa só de novela ou da música. Além das características românticas, há o aspecto místico, ou seja, espiritualmente “alegórico”. E, portanto, esse casal precisa ser predestinado a se encontrar e viver uma vida conjugal de festas e imprevistos. Ou seja, uma vida de absoluta conexão. Na sala, na cama ou no quintal, exatamente como Mel e Patrick, o casal-título desta crônica.
Ainda nesse contexto, ressalte-se a expressão “nascidos um para o outro”. E que esses encontros se traduzam nisto: Quando um sair de seu ninho à procura do outro, esse outro já estará à porta com um buquê de flores.
Nesse cenário de encontros, o poema “A janela da minha casa”, do meu primeiro livro (Dentro de Mim, 2015, p. 158), descreve a primeira vez que vi — digamos — minha alma gêmea: “Sua imagem/ ficou em meu coração/ e não demorou muito/ estávamos eu e ela/ casados, olhando o mundo/ da mesma janela”.
Da mesma forma, o casal Mel e Patrick é resultado da ocasião. Enquanto fazia compras na feira do bairro, minha cunhada se apaixonou por dois "pintinhos" que, entre tantos outros, estavam à venda numa banca. Comprou-os, e dispensou a eles um cuidado fora do normal. Além do quintal, dividiam espaços dentro da casa. Ainda pequenos, dormiam juntos numa grande caixa de plástico, dessas de feirantes, na sala de estar. De suas penas avermelhadas, a bela mocinha recebeu o nome de Mel. E o mocinho robusto e elegante, Patrick, nome de galã de séries da TV.
Entre seus privilégios de adultos, ausência de tarefas domésticas. Durante o dia, o quintal é a sua praia. À noite, cada um numa caixa, na sala de estar. E agora o casalzinho domina a pequena área residencial. Eu já conhecia essa história e, na minha mais recente visita, quis saber mais de sua vida conjugal. Quem sabe aprenderia alguma lição!
Se Mel está pronta para pôr um ovo, ela entra na casa e já encontra a caixa preparada para mais um milagre da vida. Patrick a acompanha até a porta da cozinha e fica esperando por ela. Algum tempo depois, cacarejando, ela anuncia a produção do dia. Quando encontra a amada, o galã abre sua juba de penas para revelar-se rei do terreiro. E solta um cocoricó de arrepiar.
Mel e Patrick no terraço da casa do autor
Mel e Patrick passam o dia circulando, numa perfeita imitação de Adão e Eva. E cantam um para o outro: “Aonde você for eu vou atrás/ Seu rebolado, (Amor)/ É bom demais”, do saudoso Jackson do Pandeiro.
Se uma alma precisa de silêncio, duas precisam de palavras, amor e cumplicidade. Com Mel e Patrick aprendi que “almas (asas) gêmeas” são seres vivos comuns — de carne e osso ou pena e pescoço — que estão sempre juntos para o que der e vier.
Não tenho como prever o futuro desse casal, mas, na arte, já lhes garanti um cantinho literário que serve de tradução para o famoso verso de Vinícius de Moraes: “A vida é a arte do encontro”.
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