
Jornalista Fernando Baima
À medida que este ano se encerra, marcado por diagnósticos duros e recorrentes, a resposta possível não é a negação nem o desalento, mas a escolha consciente de permanecer.
Essa escolha começa pelo reconhecimento do que persiste. Falhas estruturais, repetições históricas e impasses não significam rendição, mas responsabilidade diante da nossa própria existência.
Há, nesse percurso, uma força menos visível. Uma força que nos sustenta, mesmo quando os fatos parecem confirmar as piores previsões e quando seguir adiante exige mais do que esperança.
É nesse ponto que a poesia nos orienta. Em Ferreira Gullar, reconhecemos a lição de que a vida segue valendo a pena apesar do custo, das limitações e das perdas. Em Gonçalves Dias, compreendemos que viver é combate — não um embate cego, mas a afirmação contínua do que merece ser preservado.
Mesmo quando a violência se impõe, quando a educação falha, quando a política decepciona e a cultura é tratada como ornamento, sabemos que ainda há espaço para o enfrentamento lúcido.
Não como promessa ingênua de transformação imediata, mas como decisão ética de não nos entregarmos ao esvaziamento, à indiferença ou ao cinismo.
E é com esse entendimento que devemos nos dispor a atravessar o novo ano: atentos para nomear os problemas, sem perder a capacidade de enfrentá-los.
Firmes diante do que se repete.
Humanos o suficiente para sustentar, mesmo em tempos difíceis, a expectativa de uma vida melhor.
Que o ano que nos chega seja próspero não apenas em promessas, mas em caminhos possíveis, construídos com consciência, coragem e compromisso com aquilo que nos é essencial.
FERNANDO BAIMA
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