
*Mhario Lincoln
Eu vivi intensamente minha São Luís dos anos 60, 70 e 80. Foram áureos tempos em que circulei muito pela praça João Lisboa, todos os dias, indo para o prédio do "Jornal Pequeno", local de meu primeiro trabalho. Sempre vi políticos, empresários e servidores públicos de alto nível pararem na praça para um lustro semanal nos sapatos; alguns fregueses apareciam sempre no amanhecer, todos os dias. Sobre cadeiras de madeira, "Estácio" e "João Menezes", os engraxates da moda, viraram memória viva de uma cidade que respirava graxa e prosa.
A Praça João Lisboa tinha hora e ritual. Ou antes (geralmente) ou após o expediente público. E ali estavam eles, os homens do brilho. Foi numa dessas cadeiras que surgiu o boato de que o grande poeta e tribuno maranhense, Erasmo Dias, havia morrido e causou um 'bafafá' na cidade, e provocou uma procissão de repórteres, amigos e curiosos no rumo do bairro dos Apicuns, (em S. Luís-MA), onde o poeta morava.
Não sei quantas vezes esbarrei em conhecidos radialistas que passavam por lá, antes de irem para suas emissoras prepararem o jornal da manhã - quem sabe até mesmo "A Difusora Opina" - lida brilhantemente por Bernardo Coelho de Almeida. Toda a conversa, às vezes até mesmo a velha fofoquinha, virava mote para uma "Língua de Trapo", coluna sarcástica do "Jornal Pequeno".
Geralmente os próprios engraxates deixavam o radinho de pilha ligado ao lado das cadeiras e quando saia uma notícia, que dantes havia se originado da rodinha em torno do "trono do cliente", Estácio cantava a bola: "Essa aí eu que falei pra ele....". Era como um prêmio de consolação diante da impávida estátua de bronze em tamanho natural do jornalista João Lisboa. Mas, bem no fundo, era vaidade pura do Estácio (o velho "Lambreta", para os mais íntimos).
Outro dia voltei ao centro, numa das viagens que fiz a minha Velha São Luís, capital do Maranhão. Tudo mudou. Nem mais aquela chamada "resistência social", de velhos e rebeldes engraxates, estava lá nesse dia. Veio-me a lembrança de como eram disputadas essas cadeiras.
Hoje, restam, se bem contado, apenas três sobreviventes à maré de tênis e alpargatas; e quem por lá passa, nem acena, nem fala, nem dá um "oi", há pressa ou melhor, o tal de "tempo é dinheiro". E sabem quem cunhou essa "mardita"? O americano Benjamin Franklin em seu ensaio "Conselhos a um Jovem Comerciante", publicado em 1748, no livro "The American Instructor".
Então, foram-se os lustres do couro dos sapatos vendidos pelas "Lojas Arpaso" (saudades de José Arteiro). Às vezes, 'cromo alemão' legítimo!
E por falar em sapatos, vale uma historinha que corria solta em minha época de frequentador do Largo do Carmo (S.Luís-MA), e que me foi contada pelo velho engraxate Estácio, o "Lambreta" que não guardava segredo "por não ser baú". Por isso, não sei se é realmente verdade.
Pois bem! Dizem as más línguas que o presidente JK, convidado para jantar na casa de um poderoso desembargador maranhense, se deliciava com leitão assado, numa grande mesa de políticos, armada no terraço da casa.
Enquanto isso, um grupo de jovens rapazes (acadêmicos de direito), liderado pelo filho do desembargador, acompanhavam a movimentação e descobriram que JK sempre tirava o sapato para ficar mais à vontade, de meias, para espantar o calor.
Eis que de repente, um dos jovens - irmão de um promissor político da baixada maranhense, mas de fama nacional, em alta - com alguns uísques "cavalo branco" na cachola, decidiu ir por baixo da mesa e surrupiar o sapato de JK, numa brincadeira, sei lá por que razão.
Passaram-se alguns minutos e quando JK começou a tatear embaixo da mesa, com o dedão do pé, em busca do outro par de sapato acabou descobrindo que ele não estava mais lá. E foi um "Deus nos acuda" para encontrar o sapato do presidente.
Os jovens o haviam jogado em cima do telhado da casa vizinha. Bafafá aqui, bafafá acolá. Então alguém teve a honrosa ideia de ligar para o dono da "Lojas Arpaso", a mais chique na rua grande. Hora: 2 da matina. Acordaram o 'home' e pouco tempo depois adentrava ao ambiente José Arteiro, com 10 caixas de sapato, 'cromo alemão'. Apresentações ao presidente, abraços e JK finalmente pode voltar ao Hotel Central com sapatos novos, presente do desembargador-anfitrião.
Mas esse desembargador, não era o mesmo que todas as manhãs, no raiar do sol, ia visitar o engraxate "Joca" Menezes para lacear o passo no brilho, antes de atravessar a praça, tomar um cafezinho no sobradão da frente, (o edifício São Luís), um dos maiores prédios azulejados do país, com fachadas revestidas por peças portuguesas azuis e brancas, balcões de ferro e vãos em arco, onde funcionava o "Café Serra".
Um detalhe: enquanto tomava o café, sua pasta de couro, com, obviamente, documentos 'altamente sigilosos' - ou não - ficava segura nas mãos de "Rei dos Homens", figura emblemática das ruas ludovicense.
Esse era um dos muitos ritos que engraxates da Praça João Lisboa participavam diariamente, acompanhando o papel de palco cívico do Largo do Carmo, ou "Praça da Liberdade", onde se reuniram ali, também, figuras dos mais altos escalões sociais e políticos da cidade, cuja história chama de "Senadinho da Praça", presidido por uma figura incrível: Michel Nazar, a quem conheci pessoalmente, mas que nunca me chamou pelo meu nome, enquanto viveu. Sempre 'largava' um "ei...filho do Zé Santos".
Todavia, nem todo brilho era de festa. No clima áspero no começo da Segunda Grande Guerra, a cidade assistiu a um episódio sombrio: um jornaleiro italiano com banca na própria João Lisboa foi morto por um fanático inflamado pelo ódio aos “inimigos” do Brasil. O crime marcou a praça e virou cicatriz na memória do Centro, um lembrete de que a história que passa pelo lustre, também se escreve com sombras.
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Abaixo, desenhos de Ilustração: José De Ribamar Cordeiro Filho Cordeiro, cartunista e imortal da APB-MA. Arte e montagem: Mhario Lincoln
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