
Repórter: Mhario Lincoln, editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes
Mhario Lincoln — Onde e quando foi feita a foto que reúne você, Turíbio, Claudio Jorge, Paulinho da Viola e Raphael Rabello — e que atmosfera a cercava?
João Pedro Borges (APB-MA) — “Caríssimo amigo e confrade Mhario Lincoln. A seu pedido, e tão longe quanto a memória me permite alcançar, esta foto foi tirada na casa do Hermínio Bello de Carvalho, numa época muito prolífica de realizações, inclusive muitas delas inspiradas pelo próprio Hermínio, que havia dado início à série do “Projeto Pixinguinha”, pela Funarte. Começou como a série 06h30, que era realizada no Teatro João Caetano e depois transformou-se num projeto da Funarte. E esse projeto teve o condão, entre outras coisas, de reunir o que tinha de melhor na música brasileira na época, que viajava pelo Brasil."
MHL — Que lugar Turíbio Santos ocupa na sua formação e nesse contexto?
JPB — “Nessa foto está o próprio Turíbio, meu grande mestre, amigo, professor e que, a partir dessa época, já estava me promovendo a colega, segundo ele mesmo fala, na sua imensa generosidade. Já estávamos gravando a série de choros do Brasil — Valsas e Choros —, ou seja, os discos que ele fez de música brasileira, notadamente do choro, a exemplo do que outro grande expoente de concertos, Arthur Moreira Lima, havia feito com a obra de Ernesto Nazareth. Turíbio fez isso com a obra dos violonistas brasileiros, ou seja, João Pernambuco, Garoto, Dilermando e o próprio Ernesto Nazareth; eu fiz algumas transcrições a pedido dele, para dois violões.”
MHL — E Claudio Jorge, como entra nessa cena?
JPB — “Ao lado de Turíbio tem o Claudio Jorge, que é um violonista maravilhoso, um excelente acompanhador e compositor. Tive a honra de lhe dar algumas aulas numa época em que dar aulas para gente desse gabarito era mais uma troca de experiências do que qualquer outra coisa, embora oficialmente eu tivesse a incumbência de sugerir alguma orientação. Na realidade, eu aprendia muito mais com eles, porque tive vários alunos assim desse nível.”
MHL — Quando você conheceu Paulinho da Viola — e o que o impressionou na obra instrumental dele?
JPB — “O Paulinho da Viola eu havia conhecido nessa mesma ocasião — creio que em 1976. Eu o conheci através do próprio Turíbio e tive a ocasião de conhecer a vasta obra que ele havia escrito para violão. Além da faceta extraordinária de grande sambista, ele já tinha na época uma obra considerável de valsas e choros que representam um marco na literatura do violão brasileiro. Fiquei tão impressionado que resolvi gravar um disco — e realmente gravamos esse disco, que agora foi reeditado pela Kuarup Discos e tive a honra de que ele participasse, acompanhando algumas faixas ao cavaquinho, ao violão e também junto com seu saudoso pai, César Faria, violonista de seis cordas que tocou a vida inteira com Jacob do Bandolim.”
ML — O que torna Raphael Rabello um divisor de águas?
JPB — “Raphael Rabello foi esse fenômeno que, infelizmente, nos deixou precocemente aos 33 anos, mas foi o primeiro grande virtuose do violão brasileiro a alcançar esse nível. Influenciou toda uma geração de violonistas. Não por acaso, existe uma escola de música em Brasília com o nome de Escola de Choro Raphael Rabello, que tem formado músicos de altíssimo nível. O Raphael foi apresentado a Turíbio pelo próprio Hermínio Bello de Carvalho; à época, tinha cerca de 14 anos e já detinha toda uma experiência do violão brasileiro. Foi aluno do Meira, o mesmo professor de Maurício Carrilho e Baden Powell. Conhecia acompanhamentos, obrigações do violão, contracantos consagrados. Depois viajou conosco, comigo e com Turíbio, no Projeto Pixinguinha, e começou a visão de solista, além do acompanhador extraordinário que era. Fez carreira de solista no Brasil e no exterior, Estados Unidos e Europa, e se consagrou como um dos grandes mitos do violão brasileiro.”
ML — Quando você olha para aquela foto hoje, o que ela devolve?
JPB — “Esta foto encontra uma similaridade extraordinária na minha memória. É aquela época em que éramos felizes e nem sabíamos, pelo tanto de informação que vamos tendo ao longo da vida e na companhia extraordinária desses grandes músicos. Digo que fui abençoado por Deus como uma testemunha privilegiada da realização desses grandes músicos brasileiros, que se tornaram amigos do fundo do coração.”
ML — Fica algo por acrescentar sobre a gênese daquele encontro?
JPB — “Embora eu tenha registros nas capas dos discos que fizemos e relembre com mais precisão, de um modo geral me lembro bem de que essa foto foi tirada na casa do Hermínio Bello de Carvalho e, provavelmente, numa dessas ocasiões vinculadas ao Projeto Pixinguinha. Foram inúmeras as reuniões que fazíamos na casa do Hermínio, uma espécie de antro da melhor música que se fazia no Brasil na época (pelo menos no Rio de Janeiro), vinculadas ao choro, ao samba e à música de concerto. Espero ter atendido ao seu pedido, meu caro amigo".
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Box de referência
Projeto Pixinguinha — Idealização de Hermínio Bello de Carvalho (1977), iniciativa da Funarte para levar a melhor música brasileira pelo país, com registros hoje disponibilizados em acervos e videodocumentos.
O disco raríssimo — Brasil Instrumental – A Obra para Violão de Paulinho da Viola (1985), com participações de Paulinho da Viola e César Faria; reedição digital pela Kuarup a partir de 2023.
Créditos editoriais — Entrevista: Mhario Lincoln | Edição: Editoria de Literatura e Arte, Plataforma Nacional do Facetubes.
Fontes consultadas (verificação biográfica e histórica): Mucih (perfil biográfico), Farofafá (lançamento do álbum), Kuarup (reedição digital do LP), Funarte/Agência Brasil (memória do Projeto Pixinguinha), Clube do Choro/Escola de Choro Raphael Rabello.
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