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DE PORTUGAL José Roberto Francis

A História do Vinho do Porto: das Vinhas do Douro às Bocas do Mundo

Direto de Loures/Portugal, José Roberto Francis

18/11/2020 15h25
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Por: Mhario Lincoln Fonte: José Roberto Francis
De Portugal para as bocas do Mundo
De Portugal para as bocas do Mundo

A História do Vinho do Porto: das Vinhas do Douro às Bocas do Mundo

José Roberto Francis.

Pesquisa de José Roberto Francis. Loures/Portugal.

Íntegra da matéria, no original de: https://www.amasscook.com/pt/port-wine-history/

 

Como qualquer boa história, a história do vinho do Porto tem um pouco de tudo. Um início singular, diferendos, alianças, polémicas, tragédias, e enfim, glória. É no fundo a história de três países (e outros tantos) que nas suas uniões e desuniões criaram um marco patrimonial único.  A história do vinho do Porto é um tema recorrente durante as nossas tours no Porto. É impossível não se ficar curioso com as reviravoltas deste vinho singular. Escrever este artigo pareceu-nos a melhor forma de explicar alguns capítulos da complexa história de um vinho que impera nos nossos sentidos há mais de 400 anos.

O INÍCIO DAS VINHAS DO DOURO

Falar da história do vinho do Porto é impossível sem mencionar o local onde é produzido: o Douro. Um território de beleza estonteante e natureza difícil, que segue os contronos do rio Douro desde a fronteira com Espanha, no norte de Portugal. Uma região que ao longo de séculos exigiu uma determinação incomum para vencer a dureza do terreno, os desafios da inacessibilidade, a tempestuosidade do rio, e as vicissitudes da temperatura. Aquela que é, por mérito próprio, a região demarcada de mais antiga do mundo.

Existem registos arqueológicos que documentam a produção de vinho no Douro desde o tempo dos romanos (século II), tendo apenas sido generalizada cerca de um século depois. Não se sabe ao certo o estado da viticultura no Douro durante o domínio Visigodo e Suevo, mas supõe-se que se manteria, uma vez que praticavam um Cristianismo primitivo, onde o vinho seria já utilizado nas cerimónias religiosas. Posteriormente, seguiram-se quatro séculos de domínio árabe onde se terá mantido o desenvolvimento da viticultura na região — isto apesar de os muçulmanos não consumirem vinho, por ser halal — usando o vinho como moeda de troca e para exportação. 

Original do texto.

De facto, a fundação histórica da viticultura no Douro poderá ter-se iniciado com os romanos, mas a consolidação dos vinhos da região terá começado apenas com a origem da nacionalidade.

Como é de conhecimento comum, o nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques, tinha origem borgonhesa pelo lado do pai (D. Henrique de Borgonha). Após a morte do seu pai, terá sido criado pelo seu notável aio Egas Moniz, natural de Lamego. Propõe-se que Egas Moniz terá por questões estratégicas ajudado à instalação da ordem de Cister na região do Douro, para desenvolver a região, e porventura também para facilitar o reconhecimento da futura nação pelo Papa. Por volta de 1142 começam a surgir alguns dos quatros mosteiros de Cister que se implantaram na região (por ex. S. João de Tarouca), por ordem de S. Bernardo de Claraval, também ele de linhagem borgonhesa.

Assim sendo, há uma forte probabilidade de que tenham sido os monges de Cister provenientes do Ducado de Borgonha a desenvolver substancialmente a viticultura na região, adquirindo várias quintas, e trazendo castas e técnicas da Borgonha.

A tarefa não poderia ter ficado em melhores mãos. Afinal de contas, o trabalho dos monges cistercienses foi essencial para a criação da grande região vínica francesa que é hoje a Borgonha. Foram os monges que fundaram o vinhedo Clos de Vougeot — onde se localiza o Château du Clos Vougeot — que ainda hoje produz excelentes vinhos homónimos, e é o epicentro dos grand cru da Borgonha.

O principal objectivo da obra vitícola dos monges seria o de produzir o vinho de missa, cuja pureza e origem definida seriam essenciais para o acto litúrgico — o segundo objectivo seria, naturalmente, o provimento de fundos para o mosteiro. Se olharmos para um vinho de missa actual, vemos que se trata de um vinho licoroso (16º) e doce, cuja fermentação é parada com aguardente, em semelhança ao vinho do Porto. Isto intriga-nos… teriam os vinho de missa da época estas características?

É inegável que os monges cistercienses terão desenvolvido uma importante actividade agro-industrial que permitiu a fixação de população e o desenvolvimento do Douro. É quase certo que o seu contributo para a viticultura duriense tenha sido de uma importância inestimável. E é muito provável que a sua actividade tenha sido o advento da história do vinho do Porto. 

Uns séculos mais tarde, já o laborioso investimento dos monges cistercienses tem fama em todo o território. Em 1531-1532 o feitor do Rei em Lamego, Rui Fernandes, redige uma obra que descreve os arredores da região, mencionando os excelentes vinhos que lá se produzem, passíveis de serem envelhecidos mais do que 4 anos, e com esse envelhecimento melhorarem o seu carácter. Fala dos vinhedos e de 17 variedades de castas que por lá se encontram. Menciona também a quantidade abundante de pipas que por lá se produziam (15.000 pipas), e que os vinhos eram servidos na Corte e nas casas nobres, exportados por todo o país e também para o reino de Castela. Eram aí conhecidos como “vinhos de pé” ou “vinhos cheirantes”. Também João de Barros elogia os vinhos do Douro nas suas narrativas. 

 

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