
Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes
"A obra do escritor moçambicano nasce da escuta, da memória, da oralidade e de uma relação profunda com a vida real, inclusive em sua passagem pelo Maranhão". (Citada por Mhario Lincoln, jornalista e poeta, editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes).
Mia Couto não escreve apenas para contar histórias. Escreve para devolver à língua aquilo que a pressa, a guerra, o colonialismo e a fala burocrática costumam retirar dela. Sua literatura nasce de uma escuta paciente. Antes da frase, vem a voz. Antes do enredo, vem o povo. Antes do livro, vem a vida em estado bruto.
A publicação da Revista Pazes parte do documentário “Sou Autor do Meu Nome — Mia Couto”, dirigido por Solveig Nordlund, para mostrar um escritor que não se explica por pose intelectual, mas por presença. O filme, produzido em 2019, acompanha a vida e a obra do moçambicano e foi disponibilizado pela RTP Play como um documentário sobre sua trajetória literária e humana.
O que impressiona em Mia Couto é que ele não trata a língua portuguesa como peça de museu. Ele a movimenta. Ele a aproxima do chão. Em seus livros, a palavra comum ganha desvio, respiro, infância. O português deixa de ser apenas herança colonial e passa a ser matéria viva, atravessada por Moçambique, por seus ritmos, feridas, medos, mitos e esperanças.
A Academia das Ciências de Lisboa registra Mia Couto como escritor, biólogo e professor de Ecologia na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo. Sua obra atravessa romance, conto, poesia e crônica, com títulos como “Terra Sonâmbula”, “Vozes Anoitecidas”, “Cada Homem é uma Raça”, “O Último Voo do Flamingo”, “A Confissão da Leoa” e “As Areias do Imperador”. O mesmo registro lembra o prêmio do Prêmio Camões de 2013, do Neustadt International Prize de 2014 e do Prêmio FIL de Literatura em Línguas Românicas, de 2024.
Mas a grandeza de Mia Couto não está apenas na lista de prêmios. Está no método íntimo de criação. Ele escreve como quem recolhe recados do mundo. A infância na Beira, a experiência como jornalista, o convívio com a guerra, a ciência, o contato com a natureza e a oralidade moçambicana formam um sistema de observação. Não é literatura feita de gabinete fechado. É literatura feita de ruas, vozes, bichos, rios, mortos, crianças, deslocados e sobreviventes.
Em 2024, ao receber o Prêmio FIL de Literatura em Línguas Românicas, Mia Couto afirmou que sua obra luta contra o “historicídio”, entendido como o ato de apagar a história. O júri destacou sua inovação linguística e sua presença como uma das vozes mais influentes da língua portuguesa. Na mesma ocasião, ele associou sua escrita ao contato direto com a realidade e com os sofrimentos de seu país.
Essa é uma chave essencial para ler Mia Couto. Ele não inventa palavras para exibir habilidade. Inventa porque certas dores ainda não tinham nome. Inventa porque a vida, muitas vezes, chega antes do dicionário. Seus neologismos não são enfeites. São tentativas de fazer a língua alcançar aquilo que a experiência humana já sabe, mas ainda não conseguiu dizer.
Há também uma ligação forte entre Mia Couto e o Brasil. Essa relação passou pelo Maranhão em momentos importantes. O escritor esteve em São Luís no projeto “Conversações de Além-Mar”. A proposta era aproximar a literatura de língua portuguesa e estimular a leitura por meio do diálogo com um dos principais autores moçambicanos da atualidade. Logo depois, São Luís voltou a receber Mia Couto no Encontro Internacional de Escritores de Língua Portuguesa, realizado no Convento das Mercês, no Centro Histórico. O evento reuniu o moçambicano Mia Couto, os angolanos José Eduardo Agualusa e Ondjaki e a historiadora Mary del Priore. Na programação, Mia participou de diálogo com Agualusa e lançou “A Cegueira do Rio”.
A passagem pelo Maranhão tem força simbólica. São Luís, cidade de azulejos, oralidade, memória colonial, ruínas belas e contradições históricas, dialoga naturalmente com a literatura de Mia Couto. O Maranhão também conhece a experiência de uma língua que carrega marcas de travessia, mistura, violência, resistência e invenção popular. Por isso, a presença de Mia Couto em São Luís não foi apenas agenda cultural. Foi encontro de territórios sensíveis.
Destarte, ler Mia Couto depois de conhecer esse processo é ler de outra maneira. O leitor passa a perceber que suas frases não querem apenas ser bonitas. Querem reparar alguma coisa. Querem devolver humanidade a quem foi reduzido a estatística. Querem lembrar que, quando a história oficial cala, a literatura ainda pode abrir passagem.
No fim, sua obra nos ensina uma lição simples e rara. A literatura não nasce apenas da imaginação. Nasce também da atenção. Quem escuta melhor, escreve melhor. Quem ler melhor, escreve melhor. Quem respeita a dor do outro, escreve com sentimentos reais e melhores. E quem transforma a língua sem quebrar sua alma, faz aquilo que Mia Couto faz há décadas: amplia o mundo por dentro da palavra.
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Fontes consultadas
Revista Pazes, RTP Play, Academia das Ciências de Lisboa, Governo do Maranhão, O Imparcial, Rádio Timbira, El País e PEN America.
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