
Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln.
Tema sugerido pelo acadêmico APB-MA, poeta Rogério Rocha.
Durante anos, a receção pública de António Lobo Antunes foi atravessada por uma rivalidade que a imprensa e os círculos literários alimentaram como duelo simbólico entre dois polos da ficção portuguesa do pós 25 de Abril, ele e José Saramago. Um episódio recorrente nessa história ocorreu em 1998, quando a revista Tal & Qual tentou oferecer a Saramago um livro de Lobo Antunes e o Nobel recusou, tratando o gesto como provocação.
Em 2008, Lobo Antunes relativizou a ideia de animosidade ao dizer que não acompanhava a obra do outro, enquanto Saramago descreveu a relação como cordial, sem usar a palavra amizade. O atrito voltou a ser evocado em entrevistas ao longo do tempo, com declarações duras atribuídas a Lobo Antunes sobre o peso mediático do Nobel e sobre Saramago, numa disputa que ganhou mais vulto público do que consistência literária, como se a cultura precisasse de um ringue para explicar duas grandezas que nunca dependeram uma da outra.
Na verdade, a rivalidade Saramago x Lobo Antunes “dividiu” mais o debate público do que o romance português em si. Do fim dos anos 1990 em diante, sobretudo após o Nobel de 1998 e a exploração mediática desse contraste, a imprensa ajudou a cristalizar a ideia de dois “campos” culturais.
Na literatura, porém, a diferenciação foi limitada: não surgiram escolas opostas, e sim dois projetos estéticos distintos que coexistiram e elevaram o patamar de exigência do romance português no pós-25 de Abril. A polarização funcionou como atalho para o público, simplificando dois escritores complexos a um ringue de vaidades e prémios, quando, na prática, ambos se tornaram referências simultâneas, lidas e debatidas por motivos diferentes. A ideia de “duelo” serviu mais ao noticiário cultural do que à história literária, que tende a preservar os dois como pilares paralelos.
Assim, ao morrer nesta quinta-feira, 5 de março de 2026, António Lobo Antunes, levou todos os segredos (possíveis e impossíveis) que foram gerados ao longo do tempo entre ele e Saramago. Mas, na verdade, ambos tem muita importância no cenário do Planeta Literatura. Lobo Antunes, sem dúvida, e brigas à parte, é um dos nomes centrais da literatura portuguesa contemporânea. Tinha 83 anos e deixa uma obra extensa, traduzida, estudada e lida com constância também no Brasil. Nascido a 1º de setembro de 1942, em Lisboa, formou-se em Medicina e especializou-se em Psiquiatria, antes de se tornar, por disciplina e obsessão, um romancista de primeiro plano.
A passagem pela guerra colonial em Angola, entre 1970 e 1973, não foi um detalhe biográfico, foi matéria de combustão moral e estética. Nos livros iniciais, a experiência surge menos como crônica militar e mais como corrosão íntima, uma espécie de ruína do sujeito perante o medo, a culpa e a desorientação. “Os Cus de Judas”, publicado em 1979, cristaliza esse desajuste numa frase que parece simples e é abissal, “Nunca estamos onde estamos, não acha, nem sequer agora.” O que está ali não é efeito, é tese, o homem fisicamente num lugar e espiritualmente noutro, o corpo no presente e a consciência presa em cenas que não passam.
Depois, a bibliografia ampliou-se com romances como “Fado Alexandrino”, “As Naus”, “Manual dos Inquisidores” e “O Esplendor de Portugal”, entre muitos outros, num percurso de mais de quatro dezenas de títulos. Em 2007, veio o Prémio Camões, consolidando um reconhecimento que já era evidente na crítica e no público leitor da língua portuguesa.
O impacto de Lobo Antunes, contudo, não se explica apenas pelos temas, mas pelo modo como a linguagem reorganiza o real. O crítico brasileiro Luís Fernando Prado Telles resumiu esse núcleo ao notar que, nele, o “o que” se conta tende a ficar abaixo do “como” se conta, porque a forma não enfeita, ela pensa, ela expõe, ela fere. Em chave semelhante, Álvaro Cardoso Gomes apontou a natureza insubmissa dessa escrita, avessa ao “estilo bem comportado” e a qualquer reverência automática às instituições do passado, como se o romance fosse um lugar de confronto e não de etiqueta.
Destarte, segundo ensina Clóvis de Barros Filho, "a morte encerra a presença física do autor, mas não encerra a sua influência". Ou seja, a obra continua em cada leitor que aceita entrar num romance onde a voz não é linear, onde a memória não obedece, onde a verdade não se acomoda. E continua, sobretudo, como legado de um eterno trabalho literário, que não pede consenso, pede leitura séria e repetida.
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