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Deus ouve os oprimidos — Gofu, lançado ao Atlântico, venceu a morte e expôs a crueldade contra “clandestinos a bordo”. Elson Burity conta essa saga

Clandestino nigeriano, rebatizado Gofu Felix Corleoma, foi atirado do Aldebaran II em 31/12/2000, à deriva num barril, até ser resgatado em Tibau do Sul (RN). Caso reacende feridas de “clandestinos a bordo” investigadas no Brasil e no mundo.

07/05/2026 às 11h05 Atualizada em 07/05/2026 às 11h17
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln
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Crédito: álbum pessoal do Comandante Burity
Crédito: álbum pessoal do Comandante Burity

Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln

A epopeia de Gofu Felix Corleoma — nascido Tope Aiyegbusi, nigeriano que partiu de casa aos 16 anos — é contada como quem percorre um mapa à força de sobrevivência: Quênia, Tanzânia, Zâmbia, Zimbábue e Botsuana até a África do Sul, sempre entre miséria e violência doméstica, até receber nova identidade para evitar deportação e alimentar o sonho de alcançar os Estados Unidos. Em Durban, embarca clandestino num cargueiro depois identificado como Aldebaran II.

Descoberto, é confinado e, na madrugada de 31 de dezembro de 2000, submetido ao clímax desta história: com um colete salva-vidas, uma corda, um pouco d’água e um barril, ele é empurrado do alto da popa para o Atlântico, em trecho com mais de cem metros de profundidade. A decisão, tomada como um ritual implacável, o lança a um estado de agonia que o texto detalha com sobriedade: frio, sede, sol cortante, cansaço extremo, braços e pernas amortecendo, peixes bicando a pele. Era apenas ele e a sua inabalável fé, último fio de lucidez.

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Por volta de quinze horas e trinta minutos, já no limite, um pescador do barco Dois Irmãos avista ao longe o barril e o resgate se cumpre ao largo de Tibau do Sul (RN). Amparado pela Polícia Federal e pela Arquidiocese de Natal, Gofu obtém refúgio e recomeça. Quando o navio atraca em São Luís (MA), Capitania dos Portos e Ministério Público abrem investigação; o Tribunal Marítimo e a Diretoria de Portos e Costas registram a ocorrência, numa época em que dezenas de casos semelhantes compunham a estatística dura dos “clandestinos a bordo”.

 

Crédito: Elson Burity.

 

 

Esse é o tema impactante do livro “Um Clandestino Lançado ao Mar” que acabo de ler e analisar. A obra foi escrita por Elson de Azevedo Burity, ex-Capitão dos Portos do Maranhão, época do acontecido. Assim, Elson, Capitão-de-Mar-e-Guerra reformado da Marinha do Brasil, ex-integrante TTC do Tribunal Marítimo, onde participou de centenas de análises de processos envolvendo acidentes e fatos da navegação, teve cabedal suficiente para detalhar, na obra, fatos que poucos conseguiriam ter o dom para escrever.

 Por isso essa narrativa é impecável e é explícita em diversos momentos, especialmente quando descreve o clímax do start da história: quando GUFU é atirado, sem piedade, ao mar feroz do Rio Grande do Norte até, em terra brasileira, conseguir a cidadania, o trabalho, o casamento, as duas filhas; e, ainda, mais tarde, uma doença. Essa tratada com restrições, sem que ele deixasse de seguir a vida.

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Impressionou-me a escrita de Elson, quando conta os detalhes do barril e – de forma comedida, mas impávido - situa Gofu numa linha histórica de violência contra clandestinos que a comunidade marítima internacional conhece demasiado bem.

 

Visão geral.

Vale ressaltar, data vênia, fato de 1996, no caso do porta-contêiner Maersk Dubai, quando dois jovens romenos foram lançados ao mar em jangadas improvisadas por ordem do comando; outro stowaway teria sido morto a bordo. O episódio veio à tona quando outros filipinos se esconderam em um quarto clandestino e desembarcaram no Canadá, de onde denunciaram o crime — um escândalo que expôs a lógica de impunidade e o cálculo econômico por trás de decisões letais em alto-mar.

Em 2011, o navio Dona Liberta tornou-se símbolo de reincidência delituosa: relatórios e entrevistas reunidos por pesquisadores descrevem casting off de clandestinos e outras irregularidades, compondo um quadro de abusos persistentes em rotas comerciais globais.

O caso deste livro, é, de certa forma grandioso, porque há um registro de cada etapa: o renome civil adotado para prolongar a chance de permanência, o confinamento e o ato final de expulsão, o barril como artefato precário de vida, a visão de uma madrugada que decide destinos, o encontro com pescadores potiguares, a rede institucional que o acolhe e a investigação aberta quando o casco toca o porto maranhense.

É inegável a forma brilhante como o CMG Elson Burity escreve o texto que a cada página aproxima sua trajetória a de um “Odisseu”, mas sem alegorias; apenas pela rota, pelo tempo e pelos monstros. Aqui, de uniforme, prancheta e ordens de comando. No centro, prevalecem fé, coragem e a crença na justiça dos homens e de Deus, mas o que fica, sobretudo, é a documentação de uma prática que o mundo marítimo não conseguiu sepultar: a de despachar seres humanos ao mar para que não cheguem aos portos e não custem multas e papeladas.

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MHL.

Mas com Gofu, a fé inabalável é um ponto diferencial que o amparou até o último minuto. E quando os pescadores o avistaram, estava feito o milagre divino. A mão divina caiu sobre ele e o tornou história.

Parabéns, pois, Elson de Azevêdo Burity pelo trabalho hercúleo para desvendar e organizar essa obra histórica.

O livro tem organização de Elvandro Burity (APB-RIO) e projeto gráfico da POD EDITORA. A distribuição é gratuita. O ISBN é: 978-65-5947-418-9

 

Foto: Mhario Lincoln, editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes, lê o livro.

 

 

(*) Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira.

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Elson A. BurityHá 1 mês Rio de Janeiro RJPrezado amigo Mhario Lincoln. Boa tarde! Foi com imensa satisfação que recebi os Algoritmos do Facetubes, pelos mais de 700 acessos. Estamos de parabéns. Que essa história real do Gofu, sirva de exemplo para todos os comandantes de navios mercantes, singrando os mares do mundo. Que tratem com o máximo de humanidade outros clandestinos que, por acaso, tentem repetir a odisséia do Gofu. Forte abraço Elson A. Burity
Gabriel Jacintho. Filho de MarinheiroHá 7 meses Natal RGNNinguém mais sempre ocupa com o outro..Por isso, parabéns a você caro comandante pela beleza de história contada nesse livro. O Mhario como excelente jornalista que é, soube em poucas linhas nos mostrar toda a importância de seu livro, além de tambem destacar o seu lado humano.
Jacyra BendergelHá 7 meses Rio Grande do Sul Parabéns comandante Burity. Apreciei o seu lado humano.
Julião de CastroHá 7 meses Brasília DF Outras verdades ainda vão aparecer. Por isso, parabéns professora. Elson por esse magnífico trabalho.
Elson Burity Há 7 meses WhatsApp/ Rio de Janeiro RJMuito obrigado meu amigo. Que essa odisseia do Gofu sirva de alerta, nas diversas Marinhas Mercantes, para que outros casos não se repitam. Que a piedade e a humanidade estejam sempre presentes nas mentes e ações dos comandantes dos inúmeros navios que cruzam os mares e oceanos. Forte abraço.
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