
EXCLUSIVO: Por Dra. Flora Guilhonm, orientadora ocupacional, England, United Kingdom, correspondente da Plataforma Nacional do Facetubes.
Há uma dor que não aparece no exame de sangue, não sai no raio-x e muitas vezes nem recebe nome dentro de casa. É a dor de quem se sente humilhado, descartado, invisível ou sem valor. Na América Latina, falar de saúde mental é falar também dessa ferida. A mente adoece mais quando a pessoa perde a dignidade diante da família, da pobreza, do racismo, da violência, da solidão ou do desprezo social.
Na última semana estudei bastante esse assunto. Não só na Inglaterra. Mas na América Latina. Encontrei, por exemplo, um artigo publicado em março passado (2026), por Renato D. Alarcón e Luis Matos-Retamozo, na revista Academia Mental Health and Well-Being, parte de uma ideia simples e forte. A dignidade não é luxo moral. É parte da saúde. Os autores analisam a realidade latino-americana e mostram que o sofrimento psíquico precisa ser lido junto com cultura, história, família, desigualdade, crenças e direitos humanos.
E como a Plataforma em que escrevo, no Brasil, tem foco em Literatura, Arte e Música, antes de formalizar esta crônica, me perguntei sobre poetas e escritores latino-americanos e a questão da saúde mental: a resposta exigiu muita cautela. O que realmente encontrei é que nessa região do Globo, há incalculáveis sinais de depressão, ansiedade, suicídio, estigma e falta de acesso. Por essa razão, escritores e poetas não estão fora desse quadro.
A literatura e a Arte, como um todo, aparecem nos dois lados dessa história. Ela pode revelar sofrimento, mas também pode ajudar a atravessá-lo. Pesquisa da Universidade de Plymouth e da Nottingham Trent University mostrou que ler, escrever e compartilhar poesia ajudou pessoas a lidar com solidão, ansiedade, depressão e luto, especialmente durante a pandemia. Não se trata de substituir tratamento médico. Trata-se de reconhecer que a palavra, quando encontra escuta, pode diminuir o isolamento.
Mas, há quem afirme que tudo pode começar quando a dignidade cai por terra, em suas diversas camadas. Essa dignidade está ligada à autoestima, ao respeito recebido, à proteção do corpo, ao direito de escolher e na segurança mínima para viver. Quando essas camadas são feridas, a pessoa não sofre apenas “por dentro”. Ela sofre no modo como passa a se ver no mundo.
Dentro dessa afirmação, os números pesquisados na área, assustam e levam a entender por que a saúde mental virou uma emergência nas Américas. A OPAS informou, em 2025, que mais de 160 milhões de pessoas vivem com transtornos mentais na região, muitas delas sem acesso a atendimento de qualidade. O mesmo texto registra mais de 100 mil mortes por suicídio por ano nas Américas.
O problema não está apenas na doença. Está também na distância entre quem precisa de ajuda e quem consegue tratamento. A OPAS ainda aponta que, na América Latina e no Caribe, a lacuna mediana de tratamento chega a 77,9% para transtornos afetivos, de ansiedade e por uso de substâncias. Para depressão, a lacuna é de 73,9%; para transtornos ligados ao álcool, de 85,1%. A região ainda gasta pouco com saúde mental. A média pública nas Américas é de apenas 2% do orçamento da saúde, e mais de 60% desse dinheiro ainda vai para hospitais psiquiátricos.
No Brasil, não é diferente. A rede pública tem avançado, mas a demanda continua grande. O Ministério da Saúde informou que o SUS registrou 192 mil atendimentos em saúde mental no primeiro semestre de 2025, aumento de 20% em relação ao mesmo período de 2023. O país contava, naquele levantamento, com mais de 6,2 mil serviços na Rede de Atenção Psicossocial, incluindo CAPS, residências terapêuticas, unidades de acolhimento, equipes especializadas e 2.169 leitos de saúde mental em hospitais gerais.
No Peru, o artigo de Alarcón e Matos-Retamozo mostra, com casos peruanos, que a dignidade pode ser destruída por uma família que descarta um idoso, por uma escola que humilha uma mãe, por uma comunidade que abandona um dependente químico, por conflitos políticos, por racismo e por abusos religiosos. Mas também mostra o contrário. Quando há escuta, reparação e acolhimento, a pessoa pode recuperar o chão. Principalmente quando a pessoa com sintomas de descontrole emocional começa a ser escutada sem deboche, sem pressa, sem rótulo e sem humilhação. Ou seja, quando esse indívuo passa a ser olhado por outro ângulo; sem mais alcunhas de “louco”, “fraco”, “difícil” ou “problemático” e volta a ser tratado pelo nome.
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Nota da Redação: No Brasil, quem estiver em sofrimento intenso pode procurar o CVV pelo telefone 188, serviço gratuito, sigiloso e disponível 24 horas. Em situação de risco imediato, a orientação é buscar atendimento de urgência pelo SUS, SAMU 192 ou serviço de emergência mais próximo. O CVV informa que, em 2025, ofereceu cerca de 2 milhões de apoios por seus canais. (Tradução livre de Mhario Lincoln).
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