
Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes
O país tem universidades produzindo pesquisa, editoras universitárias publicando dissertações e teses adaptadas, e um mercado de não ficção com faturamento expressivo. O que ainda falta é a ponte entre pesquisa acadêmica e leitor comum: edição narrativa, divulgação, imprensa cultural, livrarias fortes, bibliotecas ativas e universidade interessada em disputar o espaço público.
Nossa editoria de Pesquisa e Extensão, após várias notícias nacionais divulgadas em jornais brasileiros, tentou descobrir uma realidade que necessitava urgentemente de respostas: será que o Brasil ampliou a alfabetização formal nos últimos 40 anos? A resposta é dramática, de certo modo: sim, mas não consolidou uma cultura ampla de leitura complexa, especialmente de livros densos, acadêmicos ou derivados de pesquisa universitária.
Porém, aprofundando ainda mais a pesquisa, o próprio Censo de 2022, diz que o país saiu de 74,5% de alfabetização em 1980 para 93% em 2022, entre pessoas de 15 anos ou mais. Portanto, no indicador básico, houve avanço. Mas, o problema aparece depois: saber ler um bilhete simples não significa conseguir ler um ensaio histórico, uma tese adaptada ou um livro de não ficção de 400 páginas. O próprio IBGE registra essa melhora histórica, mas também aponta a permanência de desigualdades regionais, raciais e etárias.
Então se pode falar em "involução de leitura e compreensão da leitura"? Bem, a grosso modo, a involução aparece melhor quando olhamos o hábito de leitura recente. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024, da CBL/Instituto Pró-Livro, informa que o país perdeu 6,7 milhões de leitores em quatro anos. Pela primeira vez na série, os não leitores superaram os leitores: 53% dos brasileiros não leram nem parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa. Quando se considera apenas livro inteiro, o percentual cai para 27%. Esse é o dado mais grave para o tema. Ele não prova “queda de pensamento”, mas mostra redução concreta da prática de ler.
O quadro fica ainda mais claro no Inaf 2024. O analfabetismo funcional permanece em 29% da população entre 15 e 64 anos, o mesmo patamar de 2018. O levantamento também mostra que 17% dos que chegaram ao ensino médio são analfabetos funcionais e que apenas 24% dos que atingiram o ensino superior chegam ao nível proficiente. Isso ajuda a explicar por que livros nascidos de teses de Mestrados ou Doutorados (como acontece na Europa e nos EUA - e vêm para o país como grandes "best-sellers"), raramente alcançam o grande público no Brasil. O obstáculo não é apenas editorial; é de formação leitora.
No Pisa 2022, o Brasil também aparece abaixo da média da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), ligado ao Ministério da Educação, em leitura. Apenas 50% dos estudantes brasileiros alcançaram o nível 2 ou superior em leitura, contra 74% na média da OCDE. Só 2% dos estudantes brasileiros chegaram aos níveis mais altos em leitura, contra 7% na média da OCDE. Esse dado é importante porque leitura de não ficção universitária exige exatamente as habilidades mais altas: abstração, comparação de argumentos, distinção entre fato e opinião, leitura longa e interpretação de contexto.
Mas há um dado que pode alegrar a todos nós que vivenciamos a literatura brasileira como um todo. Um levantamento
da NOP World Culture Score Index, muito citado, colocou o Brasil em 27º lugar entre 30 países, com média de 5 horas e 12 minutos de leitura por semana. Mas esse dado não mede leitura de livros universitários, nem teses adaptadas, nem não ficção acadêmica. Mede tempo declarado de leitura em geral. Porém, o mercado brasileiro de não ficção existe e é forte em faturamento. A pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro 2024, da CBL/SNEL com apuração da Nielsen BookData, mostrou que Não Ficção Adulto liderou em faturamento, com 28,5% das vendas ao mercado e cerca de R$ 1,2 bilhão. Mas esse bloco inclui muitos tipos de livro: biografias, negócios, comportamento, espiritualidade, história, política, atualidades, ciência para público amplo. Ele não isola livros derivados de teses de Mestrado ou Doutorado.
Assim, a formulação mais correta seria esta: o Brasil não involuiu em alfabetização, mas fracassou em transformar o avanço escolar em uma cultura ampla de leitura exigente. O país tem universidades produzindo pesquisa, editoras universitárias publicando dissertações e teses adaptadas, e um mercado de não ficção com faturamento expressivo. O que ainda falta é a ponte entre pesquisa acadêmica e leitor comum: edição narrativa, divulgação, imprensa cultural, livrarias fortes, bibliotecas ativas e universidade interessada em disputar o espaço público.
Em termos jornalísticos, a tese central seria: o Brasil alfabetizou mais, mas leu menos; formou mais diplomas, mas ainda não formou leitores suficientes para sustentar, em grande escala, livros de não ficção nascidos da pesquisa universitária.
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