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Textos literários no Enem 2025 / Renata Barcellos (BarcellArtes)

Convidada da Plataforma Nacional do Facetubes.

24/11/2025 às 18h41
Por: Mhario Lincoln Fonte: Renata Barcellos
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Renata Barcellos.
Renata Barcellos.

Textos literários no Enem 2025
Renata Barcellos (BarcellArtes)
Dia 9 de novembro de 2025 foi aplicada a primeira etapa da prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) de linguagens cuja prova é objetiva, com 45 questões e uma redação com a temática “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”. Um dos temas cogitados por mim desde o início do ano letivo. As duas etapas das provas são estruturadas em quatro matrizes de referência. Um dos meus Pós-doutoramento foi na análise das elaborações das questões de análise linguística a partir dessas matrizes.

Nesta edição, quanto às questões propostas a partir de textos literários, foram 10 de diferentes escolas literárias.

O primeiro texto foi a contemporânea Ana Elisa Ribeiro (professora titular do CEFET-MG, pesquisadora do CNPq e escritora – poeta e editora - @anadigital) intitulado De próprio punho, publicado no jornal Rascunho, em 2021. Segundo ela, “interessante ter o texto no Enem. Para a escritora, uma grande oportunidade de ser lida e ter um momento para se dedicar ao texto. Enquanto linguista, um texto mais longo para cinco questões propostas com habilidades diferentes. Isso faz com que o candidato leia-o para entender e responder. Considerei uma indução interessante de um texto mais longo em relação aos textos fragmentados para uma questão. Como o Enem propôs isto: ler textos maiores, as escolas precisam reforçar. Se isso for uma tendência do Enem, dar mais atenção a textos mais longos para o desenvolvimento da leitura. Foi uma mudança interessante além de ser um texto meu. Isso pode induzir também a da formação”.            

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O contemporâneo Ruy Castro (jornalista, biógrafo e escritor brasileiro contemporâneo), sempre seus textos estão presentes nas provas de concurso. Em entrevista a Biblioteca Pública do Paraná, Cândido 165 – outubro 2025 – disponível em https://www.bpp.pr.gov.br/Candido/Pagina/Um-Escritor-na-Biblioteca-Ruy-Castro):
“Certa vez me perguntaram: ‘Ruy, você faz livros e trabalhou a vida inteira como jornalista, sente-se mais jornalista ou escritor?’. Respondi que as duas coisas, dependendo do instrumento que eu estou tocando no momento. Mas trocaria essas duas atividades por uma outra, muito mais importante para mim, que é ser leitor. Eu deixaria de ser escritor tranquilamente para ser apenas leitor, se pudesse. Hoje mesmo dei um pulo num sebo aqui em Curitiba, o Fígaro, e o Paulo, dono do local, pediu que eu autografasse um livro para a loja. Escrevi o seguinte: “Quando morrer, não quero ir pro céu, quero vir pro Fígaro”. E é verdade, após a morte, eu iria para um sebo, para uma biblioteca ou para qualquer lugar que tivesse livros, jornais ou até mesmo bula de remédio para ler”.  Um fragmento do texto proposto no Enem: “Frases feitas são aquelas que entram por um ouvido e saem pelo outro sem um estágio intermediário no cérebro. A boca fala por conta própria, dispensando-nos de pensar. E não tem problema nisso. Ou as ditas frases se incorporam à língua ou morrem e nascem outras. A língua é assim. Simples assim”.                                       

Visconde de Taunay autor de "Inocência". Um romance que narra a trágica história de amor entre Inocência (uma jovem do sertão de Mato Grosso) e Cirino (um farmacêutico que se passa por médico). O romance acontece no Brasil do século XIX e explora o choque entre o mundo patriarcal do sertão, onde Inocência é prometida a Manecão, e a paixão proibida surge com Cirino. Trata-se de um romance regionalista brasileiro do Romantismo, dividido em 30 capítulos e cada um é introduzido por uma citação - mais um epílogo.

Marcelino Juvêncio Freire (Sertânia, 20 de março de 1967) é um escritor contemporâneo brasileiro e editor - @marcelino_freire_escritor e vencedor do Prêmio Jabuti (2006) com o livro "Contos negreiros" no qual apresenta uma releitura moderna do preconceito, dando um novo olhar aos marginalizados da sociedade.                                          

Gilka Machado foi uma poetisa simbolista brasileira. Ficou conhecida como uma das primeiras mulheres a escrever poesia erótica no Brasil. Hoje, praticamente, apagada das instituições de ensino.  Quando se reporta ao Simbolismo se restringe a abordar Cruz e Souza. Isso ocorre até nas licenciaturas. Ótima iniciativa ser proposto um texto da autora a fim de estimular a leitura de sua obra.

“Eu sou a dor estanque, a dor empedernida, // sou rocha a emergir de um côncavo de areia, // imóvel, muda, isenta e alheia ao mar, alheia”.  Renato Galvão (escritor, poeta, artista e produtor cultural).

O fragmento proposto foi o da obra Borboletas no Estômago descreve tal efeito através de textos poéticos que nos faz refletir.                                 Vicente de Carvalho (1866-1924 - advogado, jornalista, político, abolicionista, fazendeiro, deputado, magistrado, poeta e contista brasileiro).         É considerado um dos maiores poetas parnasianos brasileiros, conhecido por sua linguagem precisa, rigor estético e temas que incluem o amor, a morte e, especialmente, o mar. Entretanto, pouco é estudado da Educação Básica à Superior.                                      

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Eliana Alves Cruz (escritora contemporânea brasileira, roteirista e jornalista. Prêmio Jabuti de Contos 2022 - @elialvescruz). Nesta prova, é  proposto um fragmento do romance histórico "Água de Barrela". O livro narra a saga de uma família negra por gerações, desde o período da escravidão no Brasil até os dias atuais, abordando temas como ancestralidade, resistência e as marcas do racismo estrutural.                                                                                                                                   

Jorge de Sá (escritor, poeta e diplomata brasileiro contemporâneo). O fragmento do texto proposto de autoria do autor é uma reflexão sobre conto e crônica:  “Sendo a crônica uma soma de jornalismo e literatura (daí a imagem do narrador-repórter), dirige-se a uma classe que tem preferência pelo jornal em que ela é publicada”. Este tema já foi abordado por diversos escritores. Trata-se do recurso linguístico da metalinguagem.             Carmen Dolores (pseudônimo de Emília Moncorvo Bandeira de Melo - 1852-1910, uma das escritoras brasileiras mais influentes no início do século XX e também pioneira na luta pelos direitos femininos. Em uma época na qual mulheres sequer podiam votar, Emília tratou, com sua escrita incisiva e corajosa, de temas incendiários, como o direito ao divórcio, à educação e a igualdade no trabalho, além de ironizar o conservadorismo católico. A autora ingressou na imprensa como diletante ao ficar viúva, com seis filhos para criar. Passou a escrever crônicas — assumindo a coluna de Machado de Assis, no jornal O paiz —, artigos de crítica literária e contos até sua morte, tornando-se a colunista mais bem paga no Brasil). Outra escritora proposta “apagada” da historiografia literária. Precisa ser trabalhada da Educação Básica à Superior. Em uma época na qual a mulher não tinha “voz” e era “impensável estes temas”, ela teve coragem de abordar e lutar por temas tão delicados. O Enem propôs um fragmento da sua obra mais famosa é A luta (livro de estética naturalista publicado pela Garnier, em 1911. Anteriormente, publicado em folhetim pelo Jornal do Commercio, em 1909. De acordo com a escritora e crítica literária Lúcia Miguel Pereira, Dolores é a "mais romancista é, sem dúvida, Carmen Dolores cuja narrativa é um retrato desabusado do que era ser mulher em uma sociedade (ainda mais) dominada pelos homens”. Um belo texto escrito por uma das mais corajosas e influentes jornalistas brasileiras do período de transição para o Modernismo brasileiro.                                                                                                       

Outra escritora contemporânea de Dolores é Andradina América de Andrada e Oliveira (1864 – 1935: jornalista, escritora, atriz, dramaturga e líder feminista brasileira. Fundou em 1898 o jornal literário Escrínio). Esta também defendeu o direito ao divórcio. Escreveu dentre outras obras, Divórcio, em 1912, na qual defende o divórcio "pleno", para dar uma nova chance às mulheres subjugadas por casamentos infelizes. Estas duas escritoras à frente de seu tempo devem ser estudadas da Educação Básica à Superior.                                                                                                                                                 

E a última a ser abordada foi Clarice Lispector (1920-1977 - autora de romances, contos e ensaios. É considerada uma das escritoras brasileiras modernistas mais importantes do século XX). A questão proposta foi um fragmento da obra Aprendendo a viver. Trata-se de uma seleção das crônicas confessionais que a escritora escreveu no Jornal do Brasil, entre agosto de 1967 e dezembro de 1973. Organizado por Pedro Karp Vasquez, o livro reúne uma série de textos em que a escritora conta sua própria vida, na primeira pessoa. Detalha passagens marcantes de sua história ao divagar sobre os temas mais variados e revela particularidades de seu cotidiano e esmiuça seu processo criativo. Neste, por exemplo, ela revela quais foram os livros que marcaram cada fase de sua vida e rejeita o rótulo de intelectual: “Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto”. Cabe dizer que tenho alma “clariceana”.                                                                                                                           

Para concluir, cabe dizer que, cada vez mais, urge explorar textos diversos e das diversas escolas literárias. E de autores “apagados”, “cancelados” também... Não se restringir aos clássicos. Os candidatos precisam comprovar nas provas externas a importância das Literaturas. Como disse Eliana Alves Cruz, a literatura é “uma agulha para costurar a tapeçaria da nossa história”. E como há belas agulhas dispostas a coser as memórias do povo brasileiro. Vale destacar a falta de autores africanos e indígenas nas questões propostas. As Leis nº 10.639/2003 estabeleceu o ensino da cultura afro-brasileira e 11.645/2008 ampliou essa obrigatoriedade ao incluir a cultura e história dos povos indígenas.

Fica a dica para conhecerem outros autores contemporâneos no ebook Navegando nas Literaturas afro-brasileiras e indígenas (https://drive.google.com/file/d/132aElYGsRfyhazWQI2E7qpIihaoxUNbX/view?fbclid=IwY2xjawOEe0tleHRuA2FlbQIxMABicmlkETE3NkdWRDBHek1pUG1mNTdVc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHjrQmxlJDqj948-KAonqOxSrxQAERqswaGJWWxk6I8ItnDKwCMmrSFAwJ1cG_aem_Xg8Vw7ZlB948NzZG445I9g).  
Viva as LITERATURAS!!!! 

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