
Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes.
O novo livro de contos de S. Barreto chega organizado em torno de um gesto simples e, ao mesmo tempo, programático: o número quatro. Quatro contos, quatro filhos, quatro cidades, quatro anos de pausa anunciada. O texto de apresentação representa esse eixo numérico não como ornamento, mas como chave de leitura para um projeto que parece buscar, na forma breve, um modo de ordenar um mundo em desagregação afetiva e moral. Só os leitores mais atentos, diz o autor, perceberão o alcance simbólico desse “quatro” que costura volume, enredo e biografia intelectual.
No centro do livro, o conto-título, “As quatro estações”, funciona de fato como carro-chefe e como espécie de câmara de ressonância para o restante da obra. A história de Dona Violeta, “uma senhora outrora aristocrata” em lenta descida pela rampa de uma doença degenerativa, é narrada sob o signo do excruciante: não apenas pela deterioração da mente, mas pela negligência dos quatro filhos, cada qual com temperamento próprio e vida em uma cidade diferente. Há aqui uma dramaturgia doméstica que comprime geografia, afeto e culpa.
A distância física espelha a distância emocional, e Barreto parece interessado em mostrar o quanto a modernidade urbana distribui os laços familiares pelo mapa até quase dissolvê-los. A protagonista, perseguida pelos fantasmas da memória e pelo abandono concreto, ganha contornos imagéticos reforçados pela ilustração criada por IA “inspirada nas pinturas de Paul Gustave Doré”: a velha que tenta se esquivar de seus perseguidores torna-se uma figura alegórica de velhice e vulnerabilidade em tempos de vínculos rarefeitos.
Os demais contos reafirmam a marca que o texto de apresentação identifica como “característica principal do autor: o cômico e o absurdo”. “Reflexões de um garçom bom”, “Descrição de um corpo morto” e “Declaração Intergalática do Bilênio pela Vida e Paz entre os Humanos (Que Ainda Restam)” mostram um repertório que alterna o trivial e o apocalíptico, o balcão do bar e a utopia sideral.
Os títulos sugerem uma poética que extrai do cotidiano uma veia satírica e, do fantástico, uma espécie de relatório moral do nosso tempo. Não é à toa que a produção de S. Barreto já vem sendo lida pela crítica acadêmica a partir do eixo “entre o absurdo e o fantástico”, como indica o artigo “ENTRE O ABSURDO E O FANTÁSTICO: o existencialismo niilista nos contos de S. Barreto.
Se a forma breve e o gosto pelo absurdo aproximam Barreto de uma linhagem assumidamente literária, a epígrafe deste novo volume o ancora num campo de memória muito concreto. “Este livro é dedicado a todas as matriarcas e avós do mundo”, afirma o autor, nomeando em seguida suas avós Elza Pires e Margarida Barreto e lamentando que a “atual modernidade” tenha “suprimido a convivência com seus ascendentes” em nome de um “acúmulo indistinto de capital”.
A apresentação destaca o perfil de S. Barreto como “autor prolífico”, que atua na pesquisa, no ensaio, na biografia e, na ficção, se especializa no conto e na crônica. A lista de títulos publicados desde 2015, com reedições em 2023 e 2024, revela um trabalho contínuo de lapidação da forma curta, quase um laboratório de situações-limite em miniatura.
Ao optar por disponibilizar seus contos também em formato de audiobook gratuito, em canal próprio no YouTube, o escritor introduz um elemento de política cultural em seu gesto: a acessibilidade, aqui, não é palavra de moda, mas opção clara de circulação ampliada. O conto oral, reencontrando o corpo da voz, aproxima-se de um público que, por diversas razões, não se mantém mais fiel ao objeto-livro; ao mesmo tempo, reafirma a vocação narrativa do projeto, que não se fecha no circuito da página.
Desta forma, o prefácio assinado por Paulo Ricardo Geraldelli, poeta e romancista, funciona como chancela e como leitura crítica em miniatura. Ao afirmar que o livro se inscreve entre os raros que “sabem usar a literatura para o objetivo propriamente literário”, Geraldelli recoloca o debate em termos de forma e tensão, não de tese. A prosa de Barreto é definida como “enérgica e criativa”, e o núcleo do elogio está na capacidade de fazer da escrita um campo de disputa “entre o eu e o mundo, o bem e o mal”.
Vale acrescentar: ao organizar sua obra em torno do número quatro, dedicar o livro às matriarcas, expor o próprio plano de carreira acadêmica e literária e acolher um prefácio que o situa no debate contemporâneo sobre a função da literatura, S. Barreto parece perfeitamente consciente da cena em que se move. Seu novo conjunto de contos não se oferece como produto rápido, mas como peça de um projeto que combina memória familiar, rigor formal e um olhar desconfiado para as promessas do presente.
Ela também será especial porque marcará uma pausa de quatro anos para se dedicar de forma exclusiva para a sua tese de doutorado em Literatura. Depois desse hiato sua intenção é se dedicar a sua primeira de grande fôlego, um romance e depois um livro de ensaio.
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Serviço:
As versões em ebook de todos os seus livros estão disponíveis na internet de forma gratuita.
Link do livro impresso: https://a.co/d/coUGCOy
Link da livraria com outros livros do autor: https://livros-sbarreto.renderforestsites.com/
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