Quinta, 11 de Junho de 2026
13°C 20°C
Curitiba, PR
Publicidade

“Prosa do Exílio”, de Socorro Guterres, da APB/RGN. Mais: “O Encoberto”, poesia

Socorro Guterres e família visitaram esta semana os “Lençóis Maranhenses”, de onde surgiu a ideia deste texto e poesia abaixo publicados.

28/11/2025 às 08h31 Atualizada em 28/11/2025 às 08h42
Por: Mhario Lincoln Fonte: Socorro Guterres (autor)
Compartilhe:
Socorro e D'Assis, nos Lençóis Maranhenses
Socorro e D'Assis, nos Lençóis Maranhenses

Socorro Guterres

   

Os Lençóis Maranhenses, de vasta área desértica e imensas dunas brancas que acolhem as águas das chuvas em lagoas cristalinas, são primores da natureza. Eu havia visitado essa região deslumbrante há alguns anos e ela ficou retida em minha memória como um lembrete para rever tais amores, posto que há décadas resido distante da minha terra natal, São Luís do Maranhão. Acudiu-me logo à mente um maranhense famoso, Gonçalves Dias, conhecido como poeta nacional, que nos legou a Canção do Exílio ,  um dos poemas  mais populares da literatura brasileira. Nesses versos há uma exaltação às belezas da pátria, à exuberância  da flora e da fauna (exemplificada na repetição das Palmeiras e do Sabiá) e a exaltação aos prazeres que o solo pátrio nos dá.

Continua após a publicidade


   Chegando às dunas alvejantes que se estendem como lençóis amassados alongando-se entre límpidas lagoas, eu posso repetir, parodiando o poeta: em minha terra há primores sem par. Portanto, convido quem quiser versejar a vir aos Lençóis  e ouvir o vento sibilar carregando as areias pra lá e para cá, numa constante ação que as muda de lugar. Atins, Santo Amaro ou Barreirinhas são as principais cidades-base de onde os turistas (assim como os poetas) podem iniciar a visitação; a escolha é própria, pois cada um desses recantos têm um  primor particular, mas em todos há a magia das paisagens dessas intrigantes paragens.   


   Atins era antiga povoação de pescadores, e é a única com praia, contando com estabelecimentos de alto padrão. Nessa prestigiosa vila prestem também atenção para a revoada de guarás que provavelmente irá lhes recepcionar. E após um dia radiante e  por do sol  espetacular,  podemos degustar algum pescado com o tempero singelo do povo da beira-mar; o que só nos confirma: nossa peixada é mais gostosa, nossa caldeirada mais saborosa; tudo é magnífico manjar, desde a farinha de mandioca até mesmo a tiquira que aguça o paladar.


  A pé por entre as dunas, como opção às Jardineiras (transportes que se deslocam entre os Lençóis), em noite escura de lua nova podemos também escutar as lendas sebastianistas ou com sorte avistar planctons de bioluminescência que certamente algum regional há de querer  mostrar. E quando o dia retornar eis que uma ou outra cachoeira surgirá como oásis no areal que parece não findar. São águas agradáveis que reforçam o meu  pensar: os poetas da minha terra precisam vir a este lugar.


  E como eu adiantei, além de Atins, os Lençóis têm como base principal a cidade de Barreirinhas. Com aproximadamente sessenta mil habitantes, lojinhas, restaurantes, muitas  hospedarias e o agito crescente das ondas de turistas que costumam  chegar, Barreirinhas  é o paraíso das areias e das lagoas, e estas, então, fazem jus aos nomes: Azul, Bonita; é sim, beleza sem par. E por falar em lojinha o artesanato é especial, trabalhado na fibra do buriti pelo artesão local, que sabe resguardar a vegetação, no respeito ao tempo certo do colher, bem como do replantar, deixando pra bem distante a invasão estrangeira que tantas e tantas vezes ficamos a importar. Afinal, nossa terra tem  palmeiras  e as aves que aqui gorjeiam em meio ao buritizal tem canto primordial.

 

Ainda em Barreirinhas não esqueça de mirar as estrelas no suave anoitecer: é miríade de primores, igual não há como acontecer. Dentre tantas localidades por onde passa altaneira a revoada de guarás, que de vermelho pontua um vibrante verdejar, chegamos a Santo Amaro, a última ou mais recente base, bem pertinho dos Lençóis, com lagoas de transparência exemplar. E o vento é tão  forte que chega a fustigar; quem sabe pra afugentar o turista invasor que muitas vezes não sabe a beleza preservar. É certo que o turismo ajuda por demais as comunidades, mas é preciso atentar ao cuidado do lugar, para que estes primores nunca cheguem a findar.  Lembro que  os mangues daqui têm mais vida, que o digam as marisqueiras, cujo sustento advém da coleta do sarnambi na maré baixa, maná que tanto vem da lama quanto vem do mar.

Continua após a publicidade


   O passeio está acabando e já preciso voltar à rotina do exílio em que habito, mas como disse o poeta, que estou a parodiar, não permita Deus que eu morra sem qu'inda volte pra cá e reveja  esses primores que seguem como bagagem bem leve no meu olhar.

 

A POESIA

O ENCOBERTO 
 (Socorro Guterres)

Nas brancas dunas
Da Ilha dos Lençóis
O luar encontra o mar
Ao som cadenciado 
De valoroso trotar.

Sob armaduras brilhantes 
Cavaleiros de cansados semblantes 
Marcham heroicamente
Ladeando um touro negro imponente
Cuja testa estampa estrela reluzente. 

Continua após a publicidade

Reza a  lenda  esperançosa
Que  este bravio animal
Em época distante
Foi um audaz paladino
Monarca de Portugal. 

E combatendo valentemente
Em distante continente, 
Nos desertos sem luar
Das areias magrebinas,
Perdeu seu trono e lugar.

Porém como único herdeiro 
Esse nobre muito amado, 
Há longo tempo esperado,
Da dinastia " O Desejado",
Não poderia cair prisioneiro.

Em fuga desesperada
Encontrou-se num momento 
Noutro grande areal
Para onde foi levado
Em misteriosa nau.

Nesse trânsito encantado 
O reinante se transformou 
No touro com estrela coroado,
Desse modo disfarçado
Nos Lençóis ele aportou.

E como assombração 
Para o lado do Cururupu,
Nas praias do Maranhão, 
Troteia a estirpe bendita
Do rei Dom Sebastião.

Mas se punhalada certeira
Ferir a estrela dianteira
O feitiço será quebrado 
E do mar ressurgirá 
A corte do encantado.

Quem sabe esse feito
Também desperte a serpente 
Que dorme indolentemente
Sob a ilha de São Luís? 

Então o reinado messiânico 
Do mar emergirá
Enquanto a cobra gigante
A ilha engolirá.

Entre uma história e outra 
Mil lendas se estenderão
Sobre as dunas intrigantes
Das praias do Maranhão. 

Pois que Dom Sebastião 
Somente está encoberto,
Aguarda o momento certo 
Para Portugal retornar,
E assim ainda vagueia 
Sob a luz da lua cheia
Nas praias do Maranhão.

Com um adendo final
Lembro Ferreira Gullar:
Se o touro desencantar 
Não é o rei a se libertar,
É  o povo que se levanta
Das águas fundas do mar.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Keila Marta Há 6 meses São LuísLindo artigo, um poema rico, que muito agrega sobre a historiografia maranhense, destacando a cultura, as lendas dessa parte do Maranhão que é destaque como um bom lugar para turistar. Parabéns!
Sandra xavier S.de meloHá 6 meses Natal.rnSocorro tem esse dom de nos transportar para dentro da paisagem e da memoria.
Ranilson BarrosHá 6 meses Natal / RN Lindo poema, minha querida. Gratidão por essa maravilhosa partilha. Forte abraço.
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
17°
Parcialmente nublado

Mín. 13° Máx. 20°

17° Sensação
0.89km/h Vento
83% Umidade
100% (4.7mm) Chance de chuva
06h59 Nascer do sol
05h34 Pôr do sol
Sex 19° 11°
Sáb 17°
Dom 15°
Seg 12° 11°
Ter 18° 10°
Atualizado às 16h01
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,10 -1,65%
Euro
R$ 5,91 -1,22%
Peso Argentino
R$ 0,00 -2,94%
Bitcoin
R$ 342,985,23 +3,14%
Ibovespa
171,497,23 pts 1.71%
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Lenium - Criar site de notícias