
Socorro Guterres
Os Lençóis Maranhenses, de vasta área desértica e imensas dunas brancas que acolhem as águas das chuvas em lagoas cristalinas, são primores da natureza. Eu havia visitado essa região deslumbrante há alguns anos e ela ficou retida em minha memória como um lembrete para rever tais amores, posto que há décadas resido distante da minha terra natal, São Luís do Maranhão. Acudiu-me logo à mente um maranhense famoso, Gonçalves Dias, conhecido como poeta nacional, que nos legou a Canção do Exílio , um dos poemas mais populares da literatura brasileira. Nesses versos há uma exaltação às belezas da pátria, à exuberância da flora e da fauna (exemplificada na repetição das Palmeiras e do Sabiá) e a exaltação aos prazeres que o solo pátrio nos dá.
Chegando às dunas alvejantes que se estendem como lençóis amassados alongando-se entre límpidas lagoas, eu posso repetir, parodiando o poeta: em minha terra há primores sem par. Portanto, convido quem quiser versejar a vir aos Lençóis e ouvir o vento sibilar carregando as areias pra lá e para cá, numa constante ação que as muda de lugar. Atins, Santo Amaro ou Barreirinhas são as principais cidades-base de onde os turistas (assim como os poetas) podem iniciar a visitação; a escolha é própria, pois cada um desses recantos têm um primor particular, mas em todos há a magia das paisagens dessas intrigantes paragens.
Atins era antiga povoação de pescadores, e é a única com praia, contando com estabelecimentos de alto padrão. Nessa prestigiosa vila prestem também atenção para a revoada de guarás que provavelmente irá lhes recepcionar. E após um dia radiante e por do sol espetacular, podemos degustar algum pescado com o tempero singelo do povo da beira-mar; o que só nos confirma: nossa peixada é mais gostosa, nossa caldeirada mais saborosa; tudo é magnífico manjar, desde a farinha de mandioca até mesmo a tiquira que aguça o paladar.
A pé por entre as dunas, como opção às Jardineiras (transportes que se deslocam entre os Lençóis), em noite escura de lua nova podemos também escutar as lendas sebastianistas ou com sorte avistar planctons de bioluminescência que certamente algum regional há de querer mostrar. E quando o dia retornar eis que uma ou outra cachoeira surgirá como oásis no areal que parece não findar. São águas agradáveis que reforçam o meu pensar: os poetas da minha terra precisam vir a este lugar.
E como eu adiantei, além de Atins, os Lençóis têm como base principal a cidade de Barreirinhas. Com aproximadamente sessenta mil habitantes, lojinhas, restaurantes, muitas hospedarias e o agito crescente das ondas de turistas que costumam chegar, Barreirinhas é o paraíso das areias e das lagoas, e estas, então, fazem jus aos nomes: Azul, Bonita; é sim, beleza sem par. E por falar em lojinha o artesanato é especial, trabalhado na fibra do buriti pelo artesão local, que sabe resguardar a vegetação, no respeito ao tempo certo do colher, bem como do replantar, deixando pra bem distante a invasão estrangeira que tantas e tantas vezes ficamos a importar. Afinal, nossa terra tem palmeiras e as aves que aqui gorjeiam em meio ao buritizal tem canto primordial.
Ainda em Barreirinhas não esqueça de mirar as estrelas no suave anoitecer: é miríade de primores, igual não há como acontecer. Dentre tantas localidades por onde passa altaneira a revoada de guarás, que de vermelho pontua um vibrante verdejar, chegamos a Santo Amaro, a última ou mais recente base, bem pertinho dos Lençóis, com lagoas de transparência exemplar. E o vento é tão forte que chega a fustigar; quem sabe pra afugentar o turista invasor que muitas vezes não sabe a beleza preservar. É certo que o turismo ajuda por demais as comunidades, mas é preciso atentar ao cuidado do lugar, para que estes primores nunca cheguem a findar. Lembro que os mangues daqui têm mais vida, que o digam as marisqueiras, cujo sustento advém da coleta do sarnambi na maré baixa, maná que tanto vem da lama quanto vem do mar.
O passeio está acabando e já preciso voltar à rotina do exílio em que habito, mas como disse o poeta, que estou a parodiar, não permita Deus que eu morra sem qu'inda volte pra cá e reveja esses primores que seguem como bagagem bem leve no meu olhar.
A POESIA
O ENCOBERTO
(Socorro Guterres)
Nas brancas dunas
Da Ilha dos Lençóis
O luar encontra o mar
Ao som cadenciado
De valoroso trotar.
Sob armaduras brilhantes
Cavaleiros de cansados semblantes
Marcham heroicamente
Ladeando um touro negro imponente
Cuja testa estampa estrela reluzente.
Reza a lenda esperançosa
Que este bravio animal
Em época distante
Foi um audaz paladino
Monarca de Portugal.
E combatendo valentemente
Em distante continente,
Nos desertos sem luar
Das areias magrebinas,
Perdeu seu trono e lugar.
Porém como único herdeiro
Esse nobre muito amado,
Há longo tempo esperado,
Da dinastia " O Desejado",
Não poderia cair prisioneiro.
Em fuga desesperada
Encontrou-se num momento
Noutro grande areal
Para onde foi levado
Em misteriosa nau.
Nesse trânsito encantado
O reinante se transformou
No touro com estrela coroado,
Desse modo disfarçado
Nos Lençóis ele aportou.
E como assombração
Para o lado do Cururupu,
Nas praias do Maranhão,
Troteia a estirpe bendita
Do rei Dom Sebastião.
Mas se punhalada certeira
Ferir a estrela dianteira
O feitiço será quebrado
E do mar ressurgirá
A corte do encantado.
Quem sabe esse feito
Também desperte a serpente
Que dorme indolentemente
Sob a ilha de São Luís?
Então o reinado messiânico
Do mar emergirá
Enquanto a cobra gigante
A ilha engolirá.
Entre uma história e outra
Mil lendas se estenderão
Sobre as dunas intrigantes
Das praias do Maranhão.
Pois que Dom Sebastião
Somente está encoberto,
Aguarda o momento certo
Para Portugal retornar,
E assim ainda vagueia
Sob a luz da lua cheia
Nas praias do Maranhão.
Com um adendo final
Lembro Ferreira Gullar:
Se o touro desencantar
Não é o rei a se libertar,
É o povo que se levanta
Das águas fundas do mar.
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