
A LETRA "A". Por MARCO NEVES
(Prof. Marco Neves, é orientador de vários trabalhos de mestrado e doutoramento e participo em projectos de investigação na área das línguas e tradução. Sou um dos editores da revista académica Translation Matters. Publiquei vários livros sobre língua portuguesa, tradução e outros temas na Guerra e Paz (e ainda na Através e na Oficina do Livro). Alguns dos livros são lidos e discutidos em aulas de português em vários países). é colaborador espontâneo da Plataforma Nacional do Facetubes, direto de Lisboa-Portugal).
Vou contar hoje, a história da letra ‘A’. No início desta história, há um animal. Um animal que nós ainda conseguimos ver na nossa letra com um pouco de esforço. E vou provar isto no final deste texto
Antes de contar a história, gostaria de pedir que fizessem um pequeno exercício. Quem me ensinou a escrever a letra ‘A’, e todas as letras aliás, foi a minha professora Dália, a minha professora da escola primária. E deixo aqui um beijinho à minha professora Dália.
Quem ensinou a professora Dália a escrever, terá sido a professora dela. E agora gostaria que imaginassem esta sucessão de gerações, para trás no tempo, até chegarmos onde? Onde é que começa esta história de gerações a ensinarem, novas gerações a escrever, e neste caso, a letra ‘A’.
Olha, se nós andarmos para trás no tempo, vamos parar ao Egito Antigo. O Egito Antigo é o início da história das nossas letras. Não foi aí que a escrita foi inventada, ou melhor, a escrita já tinha sido inventada na Suméria, mas as nossas letras, em particular, vêm do Egito Antigo.
Os egípcios usavam um sistema de escrita bastante complexo, que incluía símbolos que representavam conceitos, outros símbolos representavam um som, outros símbolos representavam dois sons, e havia ainda símbolos que representavam três sons. Era um sistema mesmo muito, muito complexo, que nós conseguimos ver quando olhamos para os hieróglifos.
Tinha a versão dos hieróglifos e tinha ainda a versão demótica, que era bastante mais rápida, mas também muito complexa. Olha, e há uns 3.800 anos, começam a surgir, em rochas do Egito, símbolos baseados nos hieróglifos, mas muito diferentes, que usavam um sistema muito diferente. Já não representavam conceitos ou grupos de sons, mas apenas um som cada símbolo.
Cada símbolo representava um som, e só representavam consoantes. Mas, nessa altura, as pessoas usavam vogais, claro, as línguas tinham vogais, mas não eram representadas na escrita. Estes novos símbolos, criados com base nos hieróglifos, foram inventados ou adaptados por uma população semítica, diferente dos egípcios antigos.
Uma população que falava línguas que viriam dar origem ao árabe e ao hebraico, por exemplo, entre outras. Ora, um dos símbolos que foram criados por esta população era uma cabeça de um touro. Nós encontramos esta cabeça de um touro, ou seja, a cabeça de touro mais antiga que nós conhecemos, que representava este som, que já vou dizer qual é que é, aparece numa inscrição em Wadi el-Hol, no Egito.
Esta cabeça de touro representava uma consoante que não existe hoje em português. É uma paragem no som, ou melhor, é uma paragem que nós encontramos, por exemplo, quando dizemos “oh-oh”, quando alguma coisa corre mal. Aquela paragem no meio do “oh-oh” era uma consoante nessa altura.
E essa consoante era representada por um touro. Era um sistema acrofónico. Ou seja, cada símbolo representava o primeiro som da palavra que descreve aquilo que era representado pelo desenho.
Espero que isto faça sentido. Se nós criássemos um sistema parecido agora, para representar o som que, iríamos desenhar uma casa. Para representar o som me, iríamos desenhar uma mesa.
Ou seja, cada símbolo representa um som, e esse é o som que começa a palavra que está associada àquilo que está desenhado. Neste sistema antigo, o símbolo de um touro foi usado para representar o primeiro som da palavra para touro, na língua desta população semítica, que era algo como ALP, com aquela interrupção inicial. Mais tarde, este conjunto de símbolos, que incluía o tal touro, padronizou-se, simplificou-se, e ficou reduzido a 22 símbolos.
Os 22 símbolos da escrita fenícia. Uma escrita que se espalhou pelo Mediterrâneo para representar não só a língua dos fenícios, que era também uma língua semítica, aliás, mas também muitas outras línguas. Os fenícios conseguiram adaptar bem estes símbolos à sua língua, porque era uma língua semítica, como eu disse.
Mas, aliás, antes de avançar, tenho de dizer que aquela cabeça de touro se transformou num símbolo um pouco diferente, deitado, que tinha o nome Aleph, e este Aleph acabou por ser adaptado pelos gregos. Os gregos pegaram os símbolos fenícios e mudaram-nos. O Aleph acabou por ser alterado e acabou por se transformar num símbolo chamado Alpha, que já não representava aquela consoante, mas sim uma vogal, a vogal ‘A’.
Porque os gregos, ao contrário dos fenícios e do povo semítico que começou a desenvolver este sistema, os gregos precisavam mesmo de representar as vogais porque tinham mais vogais.
O Alpha acabou por ser copiado pelos etruscos na Península Itálica, depois os etruscos acabaram por ser copiados pelos latinos, e foi assim que chegámos à nossa letra A. A letra A começa em rochas no Egito, passa para os fenícios, os fenícios passam para os gregos, que passam a usá-la para representar uma vogal, e o dos gregos passa para os etruscos, e dos etruscos para os latinos, e depois chegou até nós.
A versão minúscula da letra, devo dizer, foi criada muito depois, durante a Idade Média, mas se nós olharmos para a versão maiúscula da letra ‘A’, se nós a virarmos ao contrário, conseguimos ver ali os chifres do touro. Aliás, se pusermos lá dois olhos no meio, conseguimos mesmo imaginar aquele animal olhar para nós à distância de quase 4000 anos. E pronto, foi a história da letra ‘A’, e, no fundo, a história do nosso sistema de escrita.
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