
Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, poeta e jornalista. Todos os direitos reservados.
Em plenos 25 anos do século XXI, ainda há quem discorde que a Inteligência Artificial possa ser usada em benefício da humanidade — e, antes de qualquer coisa, para alavancar carreiras nas suas milhares de especializações. Essa resistência, porém, não nasceu ontem: o medo do “novo que pensa” acompanha a tecnologia desde cedo. Basta lembrar do neurobiólogo e ciberneticista William Grey Walter, que, no fim dos anos 1940, construiu duas tartaruguinhas eletromecânicas, Elmer & Elsie, capazes de “correr atrás da luz” por fototaxia, sem ninguém apertar botão algum.
O episódio ficou ainda mais folclórico quando alguns quiseram chamar aquilo de feitiçaria: diziam que as máquinas “desobedeciam” e corriam para tocar nas pernas de funcionárias que entravam no laboratório. Bruxaria? Claro que não! Era pura física: meias de nylon refletiam luz com uma intensidade que o olho humano não percebe, mas o sensor das tartaruguinhas percebia — e elas iam direto ao reflexo. O susto, no fundo, era o mesmo de hoje: a gente confunde resposta mecânica com intenção moral, como se toda novidade tivesse alma própria.
Mas o campo cresceu rápido: em 1956, no encontro de Dartmouth, John McCarthy batizou o termo “Artificial Intelligence” e fixou a ambição do aprender com precisão, suficiente para ser simulado por máquina.
Desde então, a humanidade vem montando sua “nova Constantinopla” — não uma biblioteca de pedra, mas um superssistema de métodos para estudar comportamento físico, mental e social. E aí entra a literatura e a imaginação: Júlio Verne não “adivinhou” o futuro por magia; ele captou sinais do seu tempo e os encadeou em narrativa. Gene Roddenberry, em Star Trek, também não tirou o "comunicador" (lembra?) do nada: ele conversava com cientistas, biólogos e futuristas em confrarias de chá, sentados à mesma mesa (gosto de usar isso), e levava o mundo real para o roteiro. Em escala menor, o mesmo aconteceu com ELIZA (1966): um programa simples, mas suficiente para muita gente projetar ali uma “mente” — fenômeno que o próprio criador, Joseph Weizenbaum, passou a olhar com temor.
Agora, vamos ao ponto que desmonta o ceticismo com números: se o medo fosse critério técnico, ninguém entraria num avião moderno, onde praticamente IA's controlam tudo. Mas voltemos ao fim dos anos 1940, ainda na época dos aviões com motores de pistãos, (sem praticamente quase nenhum uso digital). Relatórios setoriais já apontavam taxas de fatalidade por distância muito mais altas do que hoje — por exemplo: 3,45 fatalidades a cada 100 milhões de milhas-passageiro (1948), caindo para 1,2 em 1950, numa época em que a segurança ainda estava aprendendo a ser industrial, com a implementação e uso de controles digitais modernos.
Já no dado global mais consolidado disponível (2024, publicado em 2025), a ICAO (Organização da Aviação Civil Internacional), registra 2,56 acidentes por milhão de decolagens, com 65 fatalidades por bilhão de passageiros em operações comerciais regulares. Ou seja, hoje, praticamente todo o avião é controlado por IA's respectivas. Controle digital absurdo que ajuda muito nas decisões dos pilotos humanos, em caso de alguma falha mecânica ou pertinente.
Bem, dito isso, a pergunta, então, não é se a IA “invade” a intimidade ou trabalha, enquanto o autor descansa; é se a gente sabe separar ferramenta; de abuso. Um escritor, um músico, um poeta, todos, podem usar IA como aliada para buscar dados, checar datas, encontrar referências, comparar fontes, acelerar pesquisa — sem terceirizar autoria, sem deixar que a máquina escreva “no lugar” do autor. Isso, no fundo, é a mesma lógica de uma enciclopédia, da BARSA ou aqueles outras anuais que a gente torcia para chegar logo, ou seja, todas tem um sentido comum: serem motores de consulta.
Depois de vir estudando a IA & a Literatura há uns 3 anos, de forma direta, incansável, inclusive, nestes meus quase 72 anos, notei que a campanha contra a inteligência artificial, nesse setor, por exemplo, chega a beirar, praticamente, o ridículo, em alguns casos. E, na maioria das vezes, errando feio o alvo. Isso porque, na minha opinião, não é a tecnologia que é vadiagem; é o vadio que se agarra a qualquer tecnologia para trambique. Ontem, era a facilidade da fotocópia, lembra? Então! Hoje é a IA. E porque isso? Será que alguém em sã consciência ainda reclama dos benefícios que a fotocópia trouxe para estudiosos, arquivistas, para todos, enfim, os que necessitavam obter informações ou números e não tinham acesso patrimonial aos originais?
Por isso, volto à questão da energia elétrica porque foi a grande virada moderna da humanidade, lá pelos idos de 1882, quando Edison inaugura a Pearl Street Station e incrementa o uso comercial em larga escala; depois Tesla empurra a corrente alternada e o mundo muda de vez. Mesmo assim, diante dessa grandiosidade fenomenal, ainda houve quem enfiasse o dedo na tomada para “provar” que aquilo matava. Ora, e matava mesmo, como a água também mata (lembra do Dilúvio?). O ponto nunca foi negar a força, mas aprender a controlá-la, criar norma, fio condutor adequado, responsabilidade e punição para quem usa mal. Desde a Caverna de Platão, o debate sério não é atacar a luz; é caçar os insanos que a usam para ferir e trair — porque Judas existia antes de qualquer algoritmo.
Mutatis mutandis, pegar carona na modernidade não é feio. Horrível é condenar o que não se compreende — por medo, por preguiça de estudar ou por conveniência.
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