
Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes.
Quantas vezes todos nós já falamos – até aleatoriamente ou de forma debochada – esse ditado que vem desde a época das historinhas encantadas de nossos avós, “Quem conta um conto aumenta um ponto”. Mas ele não é só deboche ou sarro ou um ditado bonitinho. O gênero literário “conto”, por si só, chama a atenção porque diferentemente do “romance”, esse, concentra a ideia e a lógica da estrutura, dando ao leitor a oportunidade de raciocinar junto com o autor e não interpretar determinadas passagens como se tivesse que adivinhar parábolas.
Não vamos longe (claro, indo). Lembrar Edgar Allan Poe como um dos grandes autores do gênero, já tinha falado da diferença entre conto e romance, afirmando que a leitura, do primeiro, “é de uma só assentada”, (trad. livre). Julio Cortázar também resumiu essa diferença numa imagem que ficou famosa: “o romance vence por pontos; o conto, por nocaute”. No Brasil, essa tradição de estudo do conto não é periférica. Basta lembrar dois livros de referência ligados à USP, Teoria do conto, de Nádia Battella Gotlib, e Situação e formas do conto brasileiro contemporâneo, introdução de Alfredo Bosi para sua antologia sobre o gênero.
É por isso que o conto ocupa lugar alto entre nós. Não como “irmão menor” do romance, mas como forma própria, exigente, estudada e continuamente republicada. A própria trajetória crítica de Alfredo Bosi ajuda a medir isso. A USP registra O conto brasileiro contemporâneo como obra de referência, e a Academia Brasileira de Letras noticiou, em 2015, a 16ª edição do livro. Ou seja, tem que ter muita importância para atingir tantas edições. Uma prova de que essa forma escrita continua pedindo leitura, antologia, debate e sala de aula.
Assim, quando instituições literárias se propõem a fazer antologias, estudos, encontros e discussões sobre esse gênero, não é por “resgate”. Mas por prestígio e por respeitar um dos escritos da literatura universal mais cultuados. Também por isso, concursos, antologias e editoras continuam investindo no gênero. O Prêmio Sesc de Literatura mantém categoria própria de Conto, com publicação e distribuição pela Editora Senac, e neste 2026 divulgou que houve recorde histórico de inscrições. A Acdemia Brasileira de Letras também já promoveu concursos de conto.
Ora, é claro que toda essa importância tem uma origem. Nos estudos da Plataforma, por exemplo, a unanimidade recaiu sobre o indiscutível “A Cartomante”, de Machado de Assis, até hoje no topo das lista dos melhores. Mas, vale anotar mais dois grandes contos brasileiros: “Missa do Galo”, também de Machado, e “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa. “A Cartomante”, publicada primeiro na Gazeta de Notícias em 1884 e depois recolhida em Várias Histórias, condensa adultério, medo e ironia num enredo em que o triângulo amoroso importa menos do que o verdadeiro núcleo da narrativa, o conflito entre razão e superstição.
Já “Missa do Galo” permanece como uma obra-prima do não dito. Em documento preservado pela ABL, Magalhães de Azeredo chamou o conto de “coisa rara” e destacou nele a “perfeição de dizer, de insinuar”. Já “A terceira margem do rio”, de Primeiras estórias, é tratada pela crítica como um “célebre conto”, e Walnice Nogueira Galvão chegou a dizer que ali Rosa escreve “como quem está em estado de graça”.
Claro que não poderia deixar de citar trabalhos maranhenses que integram o mundo contista brasileiro. Isso porque, dois contos deles têm peso histórico e literário muito claro. (Essa é uma opinião da Plataforma Nacional do Facetubes, apenas). O primeiro é “A Escrava”, de Maria Firmina dos Reis. A própria UFMA registra que esse conto, publicado em 1887, “mudava a perspectiva pela qual se via o negro na literatura brasileira”, ao deslocar o olhar e romper a moldura habitual do período escravista.
O segundo é “Catimbau”, de Humberto de Campos, maranhense de Miritiba, que a Academia Brasileira de Letras o registra também, como contista e memorialista. Estudo recente da Littera, da UFMA, retoma “Catimbau” como conto publicado em 1932 e mostra a força de sua circulação ao compará-lo à canção homônima gravada décadas depois. Em outras palavras, Maria Firmina põe o conto a serviço da ruptura ética; Humberto de Campos o põe a serviço da memória popular e da tragédia amorosa.
E como o Mundo é Mundo, qualquer seleção séria sobre contos internacionais acabará discutindo títulos como “The Tell-Tale Heart”, ("O Coração Delator"), de Edgar Allan Poe, “The Lady with the Dog”, (“A Dama com o Cachorro”), de Anton Chekhov, e “The Dead”, (“Os Mortos), de James Joyce. O conto de Poe, de 1843, ajudou a firmar sua reputação e influenciou a ficção posterior ao mergulhar o leitor na mente do criminoso. O de Tchekhov é uma das formas mais finas de mostrar como um caso aparentemente banal pode virar transformação interior. E “The Dead”, de Joyce, publicado em Dubliners, é tratado pela Britannica como sua melhor narrativa curta e uma obra-prima da ficção moderna. O conto chama tanta atenção do leitor porque entra rápido e não demora a cobrar. Ele não exige o mesmo pacto de duração do romance, mas pede atenção total.
Então, diante dessas afirmações anteriores, e indo mais fundo, quais são as características mais importantes de um bom conto? Só o autor? Não! Algumas técnicas, essas mesmas, que vêm desde Poe. Ou seja, unidade de efeito, economia verbal, escolha rigorosa do ponto de vista, tensão desde cedo e um final que não seja mero truque, mas consequência. Mas isso não é regra “básica”, claro. Porque Poe dizia preferir começar pela consideração do efeito e construir tudo em função dele. Cortázar foi ao mesmo ponto. O conto precisa entrar limpo, ferir fundo e não perder tempo. Quando falha nisso, “vira resumo de romance ou anedota esticada”, como disse, em um trecho da obra "Campo Geral", o escritor João Guimarães Rosa. Mas, quando acerta, cria a sensação rara de que nada sobra e nada falta.
Por fim, “A Cartomante” aparece com tanta frequência como exemplo quase perfeito do conto brasileiro porque reúne, em poucas páginas, quase tudo o que o gênero pede. Há começo que já arma o tema, progressão sem gordura, tensão crescente, conflito moral, choque entre crença e razão e um final que não apenas surpreende, mas reorganiza o sentido do que veio antes. Não é só um conto “bem acabado”. É um conto em que forma e destino caminham juntas.
Talvez por isso a ABL o tenha escolhido como base de um concurso inteiro, talvez por isso especialistas ainda o indiquem como porta de entrada para Machado, e talvez por isso ele continue sendo lido como um pequeno laboratório do que a narrativa curta pode fazer quando encontra a medida exata.
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