
SÉRIE SAÙDE MENTAL: em foco Bipolaridade
Selma Maria Muniz Marques[1]
Silêncio, invisibilidade e caos, a princípio parecem não se complementar, remetem ao antagonismo, mas podem coexistir, quando se trata de um cérebro bipolar. O silêncio quer dizer que ninguém capta a profusão de pensamentos, sentimentos e emoções que povoam um cérebro bipolar, em uma intensa velocidade e intensidade. A pessoa bipolar vivencia os mesmos processos mentais que conduzem a comportamentos e ações como todo mundo, contudo, a velocidade e intensidade desse processo que faz o diferencial. As percepções sensoriais são diferenciadas. Tudo acontece de uma forma que dá a sensação de que o bipolar é de vidro, fácil de quebrar.
Ter bipolaridade é uma condição de vulnerabilidade em saúde mental. A princípio, traz transtornos sérios para a vida do bipolar, mas como várias patologias crônicas é possível ser geridos de modo a produzir menos impactos negativos. Como isso pode ocorrer? Através de diagnóstico precoce, tratamento e manutenção. Sim buscando uma rede se profissionais e serviços que podem de forma articulada e intersetorial, adotar medidas terapêuticas capazes de possibilitar à pessoa bipolar compreender os sintomas e aprender a controlá-los. Situação possível se a neuroquímica cerebral estiver funcionando em boas condições.
No processo de controle da bipolaridade que ocorre na manutenção do tratamento a pessoa com bipolaridade, com o auxílio do psiquiatra e do psicólogo, vai adotar medidas terapêuticas para possibilitar esse controle, com medidas medicamentosas e psicológicas, conduzindo o controle medicamentoso e psíquico da recaída. Contudo, nesse processo a pessoa bipolar também exerce um papel fundamental: prover os profissionais de informações do que está ocorrendo. Sem isso, os profissionais ficam sem elementos para agir e adotar medidas terapêuticas adequadas e eficientes.
O evento cerebral que dá o tiro de saída para todo e qualquer processo mental são os pensamentos (lembrando que todos os seres humanos pensam), elaborados a partir das interações sensoriais com o meio ambiente. A diferença está na intensidade e força dos pensamentos na bipolaridade. É um turbilhão de pensamentos que tiram a paz do ser pensante. Pensamentos negativos, de apreensão, medo, raiva, ressentimento, dentre outros. Freá-los se torna uma tarefa difícil. Parece que este fica encapsulado no cérebro, sem condições de ser freado e parado.
É nesse cenário que surge o debate do lugar do silêncio no cérebro bipolar, que assim como o ruído, pode tornar-se caótico, com possibilidade de atingir graus de ser insuportável (o cérebro não está em silêncio, mas com ruído intenso, pela velocidade e volume dos pensamentos). É o oposto do silêncio criativo, meditativo, que pode proporcionar graus de leveza, bem-estar e paz. Daí o surgimento de uma contradição, o silêncio pode produzir calmaria e caos, porque o silêncio mental, no bipolar pode tornar-se uma armadilha. Caos porque este grita, tem reações inesperadas e se esgota. O silêncio que pacifica e acalma só é real se a pessoa povoar o universo do silêncio em condições de controle das emoções. Então, para os bipolares, o silêncio grita, esmaga, oprime, desnorteia. Ao mesmo tempo os ruídos externos provocam, do mesmo jeito, a desregulação emocional.
O silêncio interior esmaga. O ruído exterior esmaga do mesmo jeito. Então, como conduzir esse processo? Como suportar o silêncio e o ruído, polos que parecem opostos, simultaneamente? Lembrando que a ausência do controle de ambos pode conduzir a um mundo caótico e difícil de suportar.
O silêncio caótico, traz nesse processo outro elemento, a invisibilidade. Sim, todo o caos só é percebido pelos bipolares, transcorre em silêncio e invisibilizado para todas as demais pessoas. O que fica visível são os sintomas (crise de ansiedade, de pânico, aceleração, irritação elevada, fúria, desorientação, comprometimento do cognição, dentre outros) frutos da desregulação emocional. Vindo daí toda a fonte para os preconceitos e estigmas, fazendo as pessoas envolvidas a esquecer que estes sintomas podem ser manifestados por pessoas não bipolares. A diferença está na intensidade como os bipolares vivenciam estes sintomas.
Entramos, estão, no território dos alquimistas do presente, os médicos psiquiatras e psicólogos, que necessitam ter competência teórica e prática para intervir nesse universo caótico e ajudar a torná-lo suportável. Só tem um aspecto, porém, se a relação dos bipolares com os médicos não forem abertas, francas, sustentadas na confiança e na colaboração. Eles ficarão às cegas, incapazes de exercer o seu papel diante de tamanho desafio. Entrar em um território inóspito, árido, protegido pelos pensamentos, que ele não consegue, sozinho apreender. Então a profusão de pensamentos necessita ser disponibilizadas aos profissionais.
Se a relação psiquiatras e bipolares não se sustentar nessa relação, buscando captar a complexidade da bipolaridade, estes ficam às cegas. Os psiquiatras sem conseguir formular um esquema terapêutico eficaz e eficiente, que possibilitem silenciar ou desacelerar os pensamentos e os bipolares sem poder estabelecer a relação de confiança com os profissionais. Assim sendo, o sucesso da abordagem terapêutica, depende de maior universo envolvidos desde o diagnóstico, até a manutenção, que pode durar a vida toda: familiares, profissionais de saúde: psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, dentre outros. Todos os segmentos envolvidos necessitam participar ativamente de forma articulada para enfrentar desafio de tamanha envergadura.
Todos necessitam atentar para o ponto de partida para se antever às crises bipolares: os pensamentos. São estes que acionam os gatilhos que irão, em efeito cascata, desencadear o emaranhado dos processos mentais. Então o ponto de partida é agir sobre a regulação dos pensamentos. Atuar no nível do lobo frontal, de forma bioquímica e com o suporte emocional e terapêutico dos psicólogos, sem esquecer dos demais campos de conhecimento que vão também, através de suas práticas, reforçar as barreiras de prevenção das recaídas.
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NOTA: texto elaborado com base nas vivências da autora com a bipolaridade. Inexiste qualquer intensão de entrada nas especificidades dos campos de saúde citados. Trata-se de uma breve reflexão baseadas nas experiencias, impressões e leituras especializadas.
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[1] Doutora e Mestra em Políticas Públicas. Escritora.
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