
Minha homenagem a essa família que glorifica as letras do Maranhão, quiçá de todo o País.
*Mhario Lincoln
Uma homenagem a Carlos de todos os Carlos Cunha, das Wandas, das varandas, dos quadros-negros da persuasão, das formas, do grito, das ladeiras, das cantarias e das serestas à porta do Maracangalha; trocadilhos infinitos, violões da madrugada - do mexerico no "Come em Pé", do abrigo desencantado do Rei dos Homens. Do gole da cerveja orvalhada no Carrinho do João Paulo, do mocotó do ‘Zé Boi’, na barraca da Madre Deus. Da reza nos joelhos de Santo Antonio, antes de descer para a Quitanda do João Carvalho, na rua do Ribeirão para ouvir o gemido do carcará amanhecido cheio de nascimentos, do rosnar do pássaro de fogo, com barba espessa no bico e, ao depois, já na maré baixa da beira-mar, ainda subir vagarosamente pelo lado da Fonte, com fábulas de La Fontaine na cabeça e bater mil vezes na porta dormida para a ‘placidez’ da vida surgir com o sol da manhã. Os ecos do dia anterior ainda estavam grudados no jornal de João Lisboa e flutuavam como o gozo sutil da língua de trapo, traduzida entre Gorjeios e Bogéias, diante daquele homem de cabelos brancos a distribuir dinheiro na frente do real irreal, com calçada de cabeças-de-negro expostas pelo sapatear de uma população que lia jornal, ouvia rádio e namorava na Praça Gonçalves Dias e ainda tinha nos pelos do nariz, o cheiro de todas as marias da 28 de julho, e outro, de fumaça, da Maria Celeste, enterrado navio com mastro em riste – o nosso Dom Quixote brigando com um exército de ondas, como brigava o caixão do governador com os milhares que queriam abordar uma das alças, povo sem sonho e sem migalhas que ali eram enterrados, em solo infértil do Gavião; e na sequência, Madre Deus das radiolas, limãozinho e camarão seco... o que desse para tirar o desgosto da vida, depois de um gole ‘da boa' de Santo Antônio dos Lopes, sortida com mel das abelhas abelhudas, que passavam ao largo falando da vida de quem busca paz, mesmo na solidão do compasso do piano afinado do maestro das noites do hotel Central. De lá, ainda se ouvia o solfejar da poesia intestina, trazida pelo vento úmido das bandas do Bacanga, bacana, irreverente, insofismável acalanto para os senadores senadinhos, sentados na história da praça com autofalantes falhantes, das sessões melancólicas da casa do povo ludovicense, amada amante, casa, palácio de vozes cansadas da luta inglória ou dos empurra-empurra na fila do Cinema de Arte, quando entrava em cartaz a 'Dama do Lotação'; todos pela União para o Progresso. Leite em pó, leiteiros em desemprego, e; novamente gritos de chumbo, a favor dos oprimidos, com a força da tinta impressa pelos linotipos do Jornal dos Cunha ou na rua Grande, como um camelô lírico, diante de uma Acácia, que virou loja com escada rolante, formando um Coral de cascos-escuros, originariamente do Narciso da rua do Sol, sem narcisismo, sem risco de virar pêndulo do grande relógio de entrada do Solar dos Vasconcelos. Apenas, um marco central no principal buraco da rua, onde jazia um mastro com um pedaço de pano branco escrito: "Amanhã completo 10 anos". Panos altos e içados como velas dos barcos de travessia, pintados de urucum, substituídos por Chocolates da vida, que encalhavam propositadamente na croa, para uma rápida pelada de domingo à tarde. Poemas, crônicas, textos, desabafos, lirismo sem fim - ou verdades escapulidas de uma alma aflita de um dos maiores poetas deste país, em verdade; empoleirada no sétimo andar do edifício bem, sem coragem de voar.
Mas... voar para quê? Se ando 100 metros e topo com “Espicha” e palitinhos de fósforo a perder de vista? --Garçom, mais uma estupidamente gelada, casco-escuro, tinindo e um camarão seco, grande, por favor... Ah! Quero contar os palitinhos no teu bolso, antes de abrir a cerveja, tá?
Vídeo-Bônus c/ Wanda Cunha
CARLOS CUNHA
POEMA SEM NÓDOA DO TEMPO LIQUEFEITO
Eu procurava, no meu subúrbio colorido,
Acender o lume das auroras, mas as minhas manhãs
Eram desidratadas e, sempre que olhava o céu,
Sentia o gosto de azul na boca.
Com aquela rosa de alumínio batia à minha porta
Um trecho de órgão que procurava sufocar a minha infância. Eu cresci num sufrágio de porquês,
Mas, no horário dos sinos também.
A minha tristeza morreu servida numa taça
E, das grandes madrugadas sonolentas,
Roubei o brilho de um peixe
E fiz minha canção.
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WANDA CUNHA
Mudanças - Wanda Cunha
I
A cidade invadiu-me com torres, condomínios e violência.
Indenizaram meus quintais,
mas fiquei devendo o IPTU das velhas lembranças.
Tranças, laços, flores, saudade, sorriso...
O carro do lixo passou e levou tudo.
II
Mataram uma menina na esquina;
Uma mulher foi morta na cozinha.
Vai faltar óvulo no
amanhecer
Vai faltar leite no adormecer;
estupraram uma estrela em pleno dia
Foi por isso que
A lua cheia virou lobisomem.
E os homens têm medo de jacaré.
III
Quantos papas mudaram minha fé?
Nunca tive religião.
Mas Cristo também nunca foi santo,
Foi crucificado.
Fui sacrificada
Ele ressuscitou no terceiro dia
E todos os dias eu morro
sem saber o porquê.
IV
Resiliente...
Um mundo acorda;
O outro dorme.
A guerra fria esquentou.
Inteligência artificial
alimenta a ignorância humana.
A Ucrânia fica entre a cruz e a espada.
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AUGUSTO CÉSAR MAIA
Noturnas
I
No silencio da noite
Escondo desejos
Submersos nas águas
De um mar de segredos
II
A noite é o palco
Onde me interpreto
Para contracenar com a lua
Ela protagonista
Eu coadjuvante
III
Utopia
São sonhos
Dos sonos
Das noites
Bem dormidas
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LINDA BARROS
A VIAGEM
E toda minha história é contada
em cada árvore do caminho.
Em cada galho,
Germina em mim
Um poema.
Em cada folha caída,
Leva meu presente descontente.
Em cada caule,
germina em mim
Uma memória.
Em cada tronco,
Germina em mim
Meu passado.
Em cada raiz,
Germina em mim meu presente
E meu futuro incerto.
E em cada semente plantada,
Enterra meu passado distante.
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Em tempo: interessante esse epinício de Guterres, que mostra que em um sopro, tudo finda: o tempo se cristaliza no último sonho, no afago final, no vestígio do beijo, no lampejo breve do prazer. O instante derradeiro torna-se absoluto, como se cada sensação fosse o eco de um adeus que paira no ar. Matéria e espírito se esvaem como fumaça. Nada subsiste: o fim, total e aniquilante, revela a verdade do eterno no exato momento em que o instante se consome. No vazio, tudo se encerra — o nada se transforma no todo. (MHL).
LUIS AUGUSTO GUTERRES
A Última Estação
Em um momento será o fim,
o tempo cristalizado no derradeiro sonho,
no último afago, no vestígio do beijo,
no lampejo fugaz do orgasmo.
Toda a matéria se fundirá em fumaça,
o espírito, também, se esvairá,
é o fim, pleno total e aniquilante,
a verdade do eterno, frente ao instante.
Nada sobra, nada resta,
o nada passa a ser o tudo.
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CARMEN DIAS
*ATÉ QUANDO...?
Até quando desmontar as tralhas e seguir,
sabe Deus para onde,
outra vez ...
Até quando ...?
jardins e quintais, deixar
e partir,
em busca de um novo lar,
de um novo jardim a plantar
e a florir,
sabe Deus, em que lugar...
Quisera um porto seguro,
céu azul, mar em paz.
Quisera ...
descansar os sonhos,
cantando cantigas de adormecer
à beira do a mar.
Mín. 17° Máx. 27°