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A morte de Raul Pompeia na véspera do Natal e outras mortes quase inexplicáveis de poetas e escritores

Um estudo sério e exclusivo sobre mortes estranhas e inexplicáveis de grandes nomes da poesia e da prosa.

25/12/2025 às 12h50 Atualizada em 25/12/2025 às 13h01
Por: Mhario Lincoln Fonte:  Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes
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Arte: mhl/ginai
Arte: mhl/ginai

Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes

Será mesmo que aqueles que pensam muito e que sonham muito podem desaparecer da face da terra antes de qualquer outro ser humano normal? Será que o poeta ou o escrito são pessoas normais? Enfim, será que a ideia de que “o poeta morre antes” não é só folclore literário?

Há pesquisa comparando longevidade e tipo de morte entre categorias de autores: um estudo clássico de psicologia da criatividade propôs, literalmente, que há um “custo da musa” associado a morrer mais cedo entre poetas, em contraste com outros tipos de escritores. Uma análise ampla, com dezenas de milhares de profissionais da escrita, reforçou o desenho geral: a frequência de mortes violentas (assassinatos, suicídios e acidentes) aparece mais alta entre poetas e mais baixa entre romancistas, com “escritores-poetas” no meio.

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O que não se sustenta, com o mesmo rigor, é a parte das “doenças mais complicadas” como regra. Ou seja, causas médicas dependem de época, acesso a tratamento, hábitos, guerras e contexto social; o que surge com mais consistência é a maior exposição dos poetas a desfechos abruptos, ambíguos ou violentos, que o leitor tende a perceber como “morte estranha”, segundo pesquisa da Springer Link”.

Quando o assunto sai das estatísticas e entra nas biografias, a estranheza ganha nome, data e circunstância. Entre poetas, há a execução política de Federico García Lorca. Esta, segundo historiadores, “um assassinato político e simbólico pelos nacionalistas franquistas no início da Guerra Civil Espanhola (agosto de 1936), motivado por suas ideias de esquerda, apoio à República, homossexualidade e talento, sendo morto como um exemplo para silenciar a inteligência e a dissidência e não um mero acidente de guerra, com os documentos franquistas confirmando a ordem oficial e o envolvimento de figuras ligadas ao regime levado e fuzilado nos primeiros dias da Guerra Civil Espanhola” (googleIA).

Vale citar  o naufrágio de Percy Bysshe Shelley num retorno de barco sob tempestade; o salto de Hart Crane ao mar, em viagem de volta, encerrando-se em “afogamento” sem corpo; o suicídio de Vladimir Maiakóvski, registrado como autodisparo e tornado símbolo de um choque entre vida íntima e engrenagens públicas; a morte por suicídio de Sylvia Plath, após quadro depressivo reconhecido por sua rede médica e biográfica; o prodígio Thomas Chatterton, que, aos 17, ingeriu arsênico e morreu num quarto miserável de Londres; e, no Brasil, o destino trágico de Castro Alves, com um acidente de caça que levou à amputação e a saúde já corroída pela tuberculose; Augusto dos Anjos, vencido cedo por pneumonia; Torquato Neto, que se matou no dia do próprio aniversário; e Paulo Leminski, cuja morte veio das complicações de cirrose, num fim que a própria crítica costuma escrever como “esgotamento orgânico de uma vida em combustão”.

 Entre escritores (no sentido amplo de prosadores e dramaturgos), a lista de mortes “fora do eixo” também é um inventário de choques: Albert Camus morre num acidente de carro que virou, até hoje, matéria de especulação e contranarrativas; Antoine de Saint-Exupéry desaparece num voo de reconhecimento e só décadas depois destroços são identificados no mar.

Yukio Mishima encerra a própria vida por seppuku, (hara-kiri -腹切り-, um ato de suicídio ritualístico honroso praticado no Japão feudal); Molière desaba em cena durante uma apresentação e é levado para morrer; Tennessee Williams teve sua morte ligada a engasgo com tampinha em relatório inicial, mas há versões posteriores apontando intoxicação por barbitúrico.

Isaac Asimov morre de complicações associadas à AIDS (infecção por transfusão foi reconhecida publicamente mais tarde), um retrato duro de uma era de estigma; Franz Kafka morre de tuberculose após agravamento prolongado; no Brasil, Euclides da Cunha é morto a tiros na chamada “Tragédia da Piedade”; Raul Pompeia se suicida na véspera do Natal; e João Guimarães Rosa morre três dias depois da posse na Academia, numa coincidência que atravessou o noticiário cultural como presságio que se cumpre. (Infográficos /Encyclopedia Britannica)

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Então, diante de tanta tragédia, cabe uma pergunta insólita: e depois da morte, quem ganha mais, o poeta ou escritor? O que existe de mais sólido, medido com método, vem do mercado de livros em geral. Há evidência de que a morte do autor aumenta, no curto prazo, a probabilidade de seus títulos entrarem (ou voltarem) a listas de mais vendidos. Um estudo econômico com dados semanais de 30 anos concluiu, em essência, que “the probability of entering in the bestseller list increases of about 4–5 percentage points... (Ou seja, "a probabilidade de entrar na lista de best-sellers aumenta cerca de 4 a 5 pontos percentuais…).”

Em termos práticos, isso tende a favorecer mais o escritor de prosa no volume absoluto — porque romance, não ficção e “livro de prateleira” ocupam mais espaço na máquina comercial (catálogo, mídia, clubes de leitura, adaptações) do que a poesia, que costuma circular em nichos menores. Ainda assim, a poesia pode ganhar “mais” em proporção. O falecimento do autor pode ensejar uma reorganização da obra em coletâneas, reedições e leitura escolar, como se viu no crescimento do interesse editorial pós-1963 em torno de Sylvia Plath e de livros publicados depois dela.

Em tempo: vale, ainda, aqui, dentro do contexto, o resultado de um trabalho publicado sobre as mortes saudosíssimas, como de Virginia Woolf: até hoje, persistem discussões clínicas sobre quadro recorrente de transtorno do humor, com ciclos de sofrimento e períodos de alta produção, numa trajetória em que o adoecimento mental não é “mito romântico”, mas um componente real de risco e de incapacidade. (Psychiatry Online)

Também, em Sylvia Plath, a documentação médica e os estudos sobre sua vida costumam registrar episódios depressivos e tentativas prévias antes do clímax mortal; e, quando a psicologia da criatividade comparou grupos, encontrou sinal de maior vulnerabilidade a transtornos mentais entre poetisas em relação a escritoras de ficção, o que ajuda a explicar por que, no imaginário e nos dados, a poesia aparece mais próxima de desfechos extremos. (Vide: Europe PMC)

 

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Edgar Poe, em arte de mhl/ginai.

Duas outras Mortes Notáveis e Misteriosas na Literatura

A literatura está repleta de mortes trágicas ou cujas circunstâncias exatas permanecem envoltas em mistério ou especulação. Um dos grandes exemplos que até hoje merece especulação:

1 - Edgar Allan Poe (1849): a morte de Poe é um dos maiores mistérios literários. Ele foi encontrado desorientado nas ruas de Baltimore, vestindo roupas que não eram suas, e nunca recuperou a consciência, morrendo dias depois. As teorias variam de alcoolismo, overdose, raiva e até uma prática eleitoral fraudulenta da época chamada "cooping". Então, o que realmente o "Cooping" ? Era uma forma brutal de fraude eleitoral comum em Baltimore no século XIX, onde gangues sequestravam indivíduos, os forçavam a beber álcool, trocar de roupa e votar várias vezes em um candidato específico em diferentes seções eleitorais. Uma das principais teorias sobre a morte de Edgar Allan Poe é que ele foi vítima dessa prática. Poe foi encontrado em estado delirante e semiconsciente do lado de fora de uma taverna em Baltimore (que também funcionava como local de votação) no dia da eleição, 3 de outubro de 1849, vestindo roupas inadequadas que não lhe pertenciam. Ele morreu quatro dias depois, sem jamais conseguir explicar o que lhe havia acontecido. A verdadeira causa de sua morte permanece desconhecida e é alvo de muita especulação.

 

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MAS EXISTE ESPERANÇA?

Mesmo quando o problema parece definitivo, quase sempre existe uma faixa de ação possível — nem que seja a escolha do próximo gesto e do modo de atravessar a noite — e é aí que a esperança deixa de ser promessa vaga para virar disciplina íntima; como escreveu o psiquiatra Viktor Frankl: “When we are no longer able to change a situation, we are challenged to change ourselves.” (Quando não somos mais capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos.".

A escrita, nesse ponto, funciona como desabafo com método: ao pôr a aflição em palavras, a mente organiza o caos, reconhece o que dói e também o que ainda sustenta, e isso pode aliviar a pressão emocional — a ponto de a própria psicologia ter descrito benefícios de escrever sobre emoções e estresse na saúde e no bem-estar.

Um caso muito documentado de poeta que atravessou problemas graves, resistiu e só morreu décadas depois é Ferreira Gullar (1930–2016). Perseguido politicamente, ele se exilou durante a ditadura, vivendo fora do país entre 1971 e 1977, período em que escreveu o “Poema Sujo” como resposta direta ao desenraizamento e ao medo — e então retornou ao Brasil em 1977, reiniciando a produção intelectual até a velhice.

Já consagrado, entrou para a Academia Brasileira de Letras em 2014 e morreu no Rio de Janeiro, aos 86 anos, em 4 de dezembro de 2016, em decorrência de complicações respiratórias/pneumonia.

Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes

 

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alcina maria silva azevedoHá 4 semanas Campinas -SPCurioso e interessante artigo! Eu desconhecia esses fatos.
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