
Mhario Lincoln*
A mim ficou claro que o poema opera como crítica discreta, porém precisa, ao Natal como rito de consumo e exclusão. O verso “Enquanto o mundo brinda e consome” funciona como diagnóstico de uma festa que pode reforçar fronteiras. Os que participam do excesso e os que apenas atravessam o período “no silêncio das ausências”.
Isso se aproxima da leitura do imenso (eu gosto muito) Zygmunt Bauman sobre a sociedade de consumo, quando ele observa que o consumo produz “vidas desperdiçadas”, gente empurrada para fora do circuito da visibilidade e da proteção social. Vale dizer que o “invisível” do poema não é metáfora abstrata, mas categoria social. A autora evidencia que a carência não é só material: é também simbólica — a falta de “atenção” como forma de abandono.
A última parte recoloca o Natal num lugar quase sacramental, mas sem retórica: “Cristo nasce… não nas vitrines douradas, mas nos pequenos gestos”, e o “pão dividido nas madrugadas” vira síntese de uma espiritualidade concreta, encarnada no cotidiano. Assim, a esperança do poema não é fuga; é teimosa insistência, ou seja, um modo de resistir à ideia de que a realidade está fechada.
E o fecho, “o milagre ainda existe / mesmo quando ninguém o vê”, é a afirmação mais radical do texto. Oque significa dizer, pela autora, que o valor do humano “não depende de plateia”.
Sensacional, Nauza Luza. Gostei muito”
Abaixo, a íntegra do poema:
Natal dos Invisíveis*
Nauza Luza Martins
Luzes multicoloridas piscam nas janelas
Mas há casas sem nenhum clarão
Silêncios se penduram nas paredes
Como velhas guirlandas da solidão.
Nas ruas, o vento sopra outra canção
Fala de gente esquecida nas calçadas
Natal vivido no silêncio das ausências
Sem atenção, sem presentes, nem farturas
Na esperança teimosa dos invisíveis
Em promessas de benesses futuras.
O Natal chega de mansinho
Cristo nasce de novo todo ano
Não nas vitrines douradas
Mas nos pequenos gestos
Num pão dividido nas madrugadas.
Enquanto o mundo brinda e consome
Há quem celebre em silêncio e fé
Um Natal humano e verdadeiro
Porque o milagre ainda existe
Mesmo quando ninguém o vê.
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Mhario Lincoln, presidente da Academia Poética Brasileira.
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