José Claudio Pavão Santana
Todos os anos o imaginário flui com a força da inocência da infância.
Chega o Natal e muitos se lembram do Papai Noel como a figura central do mês do nascimento de Jesus. Logo ELE que nos salvou passa a um plano meio que secundário, porque o que importa é aquele dia de trocar presentes.
Claro, muitos irão à igreja e, contritos, comungarão invocando um Pai Nosso meio cambaleante e meio místico, esperando que o perdão dos pecados surja como uma espécie de renovação de impunidade.
Não censuro, claro, porque sou pecador também.
Hoje o que me move é querer entrar na fila de desejos, fazendo uma espécie de cartinha, uma relação de pedidos de Natal para substituir o obituário que li com amargura durante este ano que finda.
Eu queria poder fazer um pedido de Natal. Não, não riam de um avô sonhando ainda com um presente de Natal que julgou ter ganhado um dia.
Não que eu transpareça ingratidão ou egoísmo – longe de mim. Apenas desejo que o que julguei ter tido um dia não escorra pelas mãos dos meus filhos e netos e lá no futuro eles me culpem. Não há tempo a esperar.
Já não suporto conviver com o desassombro vazio de linguagem que mais parece o urro dos homens da caverna. Coisa degradante e pérfida que sentencia a lógica e a gramática ao caricato.
Não me oponho a que qualquer um se lance às suas aventuras, conquanto que não me exijam linguagem que não a dos dicionários.
Tenho pressa para que se restaure a lógica cartesiana, onde a dúvida possibilite perceber o óbvio evidenciado de modo a alcançar uma conclusão o razoável.
Não me agrada deparar-me com o malabarismo de consoantes abundantes e vogais escassas; substantivos justapostos aleatoriamente e em contradições; luxúrias de sonoridades gestadas pela elucubração sombria; proposições verbais inexistentes e censórias.
O belo é belo. Mas o feio, ah, o feio a mim não se pode impor como beleza quando a razoabilidade nega e a liberdade falta.
Cansei de ver a cumplicidade inerte, covarde, indiferente e apática dos homens que fazem só porque todos assim procedem, como se fossem engrenagens descartáveis.
Repugna-me a simulação, desagrada a mim a esperteza, desaprecia-se a mim a arrogância, mas me enoja o silente, cúmplice da desumanidade visível, o chalaça de ocasião escravo da conveniência e subalterno das injustiças.
O que eu desejo de Natal? Bom, ao menos que os homens pensem em ser homens, sem os adereços infames. Que as mulheres sejam altivas e não se deixem confundir por caricaturas. Que seja restaurado o olhar nos olhos, para que não se propague ainda mais o turbilhão de olhares nas telas, onde a felicidade é etérea por ser virtual, apenas a aparência de dramas sufocados.
É só o que quero para mim. Para meus semelhantes eu só desejo o dobro de tudo o que me desejarem.
Um presente de Natal assim já me basta.
